quinta-feira, 10 de março de 2016

Mr. Grey.

Tudo nele é cinzento: o fato, a armação dos óculos, os olhos, os cabelos, a gravata, os sapatos. Por mais que me esforce não lhe noto o mínimo vestígio de uma outra cor qualquer. Fala e eu escuto. Nunca faz uma pausa de controlo para perceber se aquilo que está a dizer me apaixona de algum modo; está habituado a ser escutado. Não anda; pavoneia-se, não se senta, sobe ao trono; não telefona, a sua secretária marca os números por ele. 
Demora-se entre duas garfadas de comida requintada que saboreia com o ar contido do conhecedor exigente que reflecte sempre antes de se abandonar ao prazer das coisas. Deixa cair palavras, pomposo e lento. Sujeito, verbo, complemento directo, e uma série de subordinadas eloquentes. Ignora-me e continua a pontificar, limpando a comissura dos cantos dos lábios com o guardanapo de pano branco que, em seguida, coloca sobre a barriga arredondada. Estende o copo e faz o vinho rolar, devagar, na boca e atira: aceita pegar no projecto nestas condições? 
Lancei-lhe um multicolorido "vou pensar". Certo de que hoje ele não ia aguentar o rotundo "não", cinzento como chumbo, que tenho para lhe deixar amanhã à mesma hora sobre a mesa de pé de galo estilo inglês. Não se comeu mal.

3 comentários:

  1. Por vezes, protelar um não dá um certo prazer. Principalmente se o interlocutor acha que é tão bom, mas tão bom, que é impossível negarem-lhe seja o que for.

    Boa tarde, Intemporal, fique bem :)

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    1. Maria, tocou no cerne da questão: protelamos respostas porque temos receio de destruir por completo a pergunta. :)

      Tudo bom para si também.

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  2. Aposto que traz na bagageira do carro uma chibatinha de couro.

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