sábado, 30 de abril de 2016

Atalhos de Cidade.


Dedicado aos Atalhos de Campo.


"Vem por aqui" -  dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

**José Régio, Poemas de Deus e do Diabo

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Breve ensaio sobre o sorriso.

De cada vez que ela sorri, o universo paralisa. Durante esse breve instante, que me parece infinito, toda a paisagem circundante fica imóvel e silenciosa. Os pássaros ficam a flutuar estáticos no ar, a chuva detém-se imprevisivelmente e os ponteiros dos relógios suspendem o seu andar cansado. Apenas uns latidos atrevidos, saídos do meu interior, combatem a quietude com os seus golpes em sinal de alegria. Como se fosse capaz de os escutar, ela retribui com um olhar que me diz: “estou aqui”. E então o mundo, que quiçá nunca esteve em suspenso, parece retomar o seu curso normal.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Por outro lado...

O amor há-de ser quando o outro nos olha, pousa o seu olhar sobre nós e vê, lá no fundo recôndito, coisas que ignoramos, as desenterra e no-las traz à superfície para nos enriquecer, para nos engrandecer, para nos tornar livres e sobre elas deslizarmos. O amor há-de ser de quem vê para dentro.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Falsete.

Dormir com música  sempre foi  para mim uma verdadeira aflição. A música tem vida, tem histórias, tem peripécias em todos os seus recantos. A musica gosta de se nos imiscuir nas entranhas, de nos revolver o tempo passado, presente e futuro. De nos infectar as veias. De nos afectar. De nos deixar, ali, mortos por fora mas muito vivos por dentro. Então, há momentos, como naquela estrofe - «quando o teu cheiro me leva às esquinas do vislumbre e toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta» - da canção «Quem és tu de novo» de Jorge Palma, em que a pulsão assume contornos tão definidos que fica com luz, com forma, aroma e vida própria. É como um fragmento de história que acontece ali naquele segundo, precisamente naquele instante e que identificamos perfeitamente qual é. Porque, ali, naquela fracção mínima de tempo cabem dias e noites, meses e anos de conversas imaginadas, corpos tombados, desejos incontornáveis. Mas depois fica tarde, muito tarde, para adormecer ou para acender a luz.

Ferreira de Castro

Contou-me esta manhã, em menos de um café, o quanto acha espantoso descobrir-se transformado, comprimido e retocado, para conseguir penetrar no coração da sua jovem mulher. Que deve submeter-se às suas leis intimas, corresponder ao cliché dos seus sonhos, dos seus filmes e romances. Ser ora o esposo perfeito, ora o amante original, o amigo platónico ou o confidente. Assistir à sua própria decomposição em pedacinhos mastigados com delicia para alimentar aquele corpo magro de peitos grandes, o seu sangue anémico, os seus impulsos caprichosos e fúteis. 
Ferreira de Castro vai no seu terceiro casamento. Ferreira de Castro está com muito bom ar. 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Tenho de partir.

Este fim-de-semana é maior. Tenho de partir mais cedo. Os dias passados na grande cidade há muito que me ensinaram uma grande verdade: não possuem qualquer encanto. Esta paisagem de pedra não pode satisfazer um sentimental. Fere-me. A sombra é demasiado densa, a luz crua de mais - tal como a minha alma. Torna-se penosa a descoberta para lá das proporções íntimas. Tenho de partir. Quero o espasmo vegetal, uma outra corrida animal, as árvores lânguidas, o mar preso no horizonte, entretido com o vento. Bem, o mar... o mar... não olharei para ele, porque um evadido não olha para o mar. Tenho de partir, chamado por mim.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O que era?

© Ruslan Lobanov

O que era - aquele ardor, aquele assombro, aquela incapacidade de agir diferentemente, aquela doce, profunda, radiante sensação de afluxo de lágrimas?* O que era?

*R.M.Rilke

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Catorze segundos.

O destino? Bem, o que se passa com o destino é que é algo que quase pode não acontecer e, mesmo que aconteça, raramente se parece com aquilo que é.

Sobre o assado em forno de lenha de ontem ao meio-dia.

Por muito que se respeite a pessoa, o seu passado, a sua matéria, a sua história, custa a entender o facto de alguém aceitar que não tem o direito de se deixar levar pelo prazer, de ser ela própria, tão pouco ser o prazer. O prazer é uma coisa mal vista na família, já se sabe. Perturba a ordem, a sacrossanta ordem familiar. Se toda a gente se dedicasse ao prazer, que seria do dever, do ouro, das pedras que a família juntou? O prazer é perigoso. O dever sim, é tranquilizador. Há um modo a observar em cada família, basta consulta-lo, ilustrar-se a seu respeito e seguir o sulco cavado pelos antepassados. 
Mas, ó prima, à força de negar o seu direito ao prazer, acumular uma cólera feroz e tenaz, que estragou o resto da sua vida, é que não lembrava ao diabo. E aquele vinho tinto encorpado, com o potencial de envelhecimento que se lhe reconhece, não podia ser servido directamente da garrafa. Ai se o seu avô visse aquilo!

Estado do tempo.

Hoje fui ao sol. E por lá estive até que este, cansado da sofreguidão da terra, se deixou tombar a poente, transformando o céu numa extensa faixa de carne viva sangrando lenta e distante no horizonte. Depois a noite resvalou agarrada à transparência do ar. Uma brisa ligeira levantou-se fazendo rumorejar as copas das árvores mais altas. Agora de regresso a casa e ao encontro da noite, olhos abertos à escuridão povoada de insectos e bichos cantantes, percebo que quando a tristeza junta os olhares de dois amantes é porque estão prestes a separar-se. Diz que amanhã regressa a chuva.

sábado, 16 de abril de 2016

Observatório.

Para lá da vidraça, o mar ao fundo. Do lado de dentro, cigarros e isqueiros sobre a mesa. Cada um pede um prato diferente para poder debicar o do outro. Ela, alta, com cabelos ruivos e frisados, as faces de quem gosta de rir, sobrancelhas de mulher minuciosa, que procura algum sentido para a vida, uma direcção, um significado, um gosto verdadeiro. Não o sentido único de que os fatigados, os resignados, se servem para não terem de lutar. 
Ele acende um cigarro, pousa o isqueiro, aspira uma grande baforada de tabaco, marca uma pausa, solta um sopro, fita-a nos olhos sem desviar o olhar. Deve estar com medo. Tenta permanecer mole, doce, sem varejar com os braços e as pernas, fazendo um tremendo esforço para permanecer aberto, disponível.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Ressaca

Ontem à noite lá acabei por me encharcar em bellinis. Bebi quase meia garrafa. E posso desde já adiantar que os tipos do «Correio da Manhã» ao pé daqueles tipos do «Amanhã» são uns meninos. Uns meninos! É o que vos digo.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

E agora, depois do jantar e enquanto lá fora não pára de chover, um gin tónico ou um bellini?

Osculação II

- Estás tão bonita! Para que te pões sempre tão bonita?
- Hoje para ti. Quase sempre para o mundo.

®Ruslan Lobanov

Quantas e quantas vezes, para dissimular as areias movediças do seu âmago, erguia barreiras de encanto, abria leques multicolores que cegavam os intrusos: mini-saias, madeixas louras, cintura fina, olhos pintados, rosto estucado, andar bamboleante. A aparência era a forma que arranjava para que as outras pessoas não a vissem, não adivinhassem o seu mal-estar, não se perdessem na imaginação dos seus dédalos interiores. 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Osculação.

Subitamente uma silhueta na contra luz, cabelos soltos, passo decidido marcando a gravilha do jardim. Avisto-a. Avista-me. Sorri. É ela. Sob o casaco de cabedal preto entreaberto a camisa branca deixa adivinhar na transparência a forma generosa do seu peito. Levanto-me e caminho ao encontro do abraço inevitável. A emoção incontida. Festeja-se a alegria do reencontro. Não páro de fixar nas trevas os seus olhos escuros, grandes, inquietos.

Disclaimer

Gosto de mãos. Mãos que batem, que cheiram, que ouvem, que pensam e suspiram. Mãos que afagam. Mãos que sofrem mudas na escuridão, que metem e tiram, mãos de porcelana que nem sequer tremem ao falar, pálidas, formosas, suaves, dedos firmes e acrobáticos, mãos sem nós, mãos que seguram, mãos ausentes sobre um regaço. Mãos que albergam memórias e gritam: não vou! não quero!

(está em marcha o movimento pró dia comemorativo das mãos.)

terça-feira, 12 de abril de 2016

Borges

"...dos diversos instrumentos ao serviço do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro: uma extensão da memória e da imaginação. Os outros são extensões do seu corpo."


Hoje, mais a frio e a destempo, eu que gosto de Borges e de livros, facilmente percebo que há memórias extensões mais extensas que outras e que o ritmo e a intensidade desta sequência dependem grandemente da taxa de hormonas, do humor das moléculas, da rapidez das sinapses, de um espírito obnubilado, de um ventrículo palpitante e, por vezes, de um membro sexual inquieto.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Impontual dá uma mãozinha a Dom Pipoco e Sir Outro Ente no workshop de blogs, ou lá o que é aquilo.

Tanto na vida como nos blogs, a verdade é que se não tens nada para dizer, não digas. Para quê preencher a ignorância com grandes golpes de eloquência? Se tens dificuldade em descrever telhados de vidro e campos de girassóis, interiores burgueses com moveis suecos, não o faças. Não é coisa tua. Dedica-te àquilo que te sentes capaz de fazer. O estilo é a essência da vida escrita, as grandes ideias são apenas bagatelas. 

domingo, 10 de abril de 2016

Em regime de alojamento e pequeno almoço.

Passaram o fim de semana juntas, tranquilas, longe dos homens. Fizeram pequenas compras, leram os seus livros junto à lareira. Como é reconfortante o lume de Abril! Tomaram o seu banho de espuma, compraram os seus cremes de noite, disseram mal dos homens, cortaram as franjas e limaram as unhas. Exultaram de alegria e cumplicidade.

--Devíamos viver com uma mulher e dormir com os homens - concluiu uma delas, tapando a boca com o guardanapo.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Sobre mochilas, com o devido atraso, como de resto é apanágio cá do sítio.

Em dias de pouco pulso, que nos sentimos a bater quase nada e que não nos descobrimos ou que não desejamos o nosso próprio encontro, estas personagens - os caminheiros dos trilhos insondáveis - são um verdadeiro bálsamo. Com tão pouco, contam-nos histórias de vida, ilusões, desilusões, reminiscências, minudências, pentelhos. Ao ouvi-los não só conseguimos discordar de nós próprios como, ainda por cima, nos confortamos por causa disso. Tontos de nós. E deles.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Blogger

Engorda, faz regimes, deixa crescer a barba, apanha aviões para todo o lado, compra bugigangas que lhe enchem a casa, lê livros que lhe enchem o ego, escreve histórias que lhe enchem a vida. A cada história, o critico, salienta a violência das imagens, das palavras, das relações homens-mulheres, da sua misoginia, da sua misantropia. Mostra o cão. O sangue jorra, os golpes fervem, a traição vence as melhores amizades, a carnificina parece inevitável. Os corpos explodem em mil pedaços. O mundo sofre um abalo estalo a cada publicação.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Quitéria.

Está muito próximo dos cinquenta. Trabalha, paga a sua casa, os seus impostos, vai ao cinema sozinha, faz férias com alguns amigos, passa o Natal com a família. Janta num tabuleiro em frente ao televisor, deita-se, lê um pouco e para adormecer, acaricia-se, tranquila, na sua cama, fecha os olhos e conta a si própria uma história, sempre a mesma, a sua fantasia preferida. Depois dorme como uma criança.

Património.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Antiquário.

Poema de Nikolai Nekrássov publicado por Dostoievski como epigrafe à segunda parte da "Voz Subterrânea", numa edição de 1958 da Civilização Editora com tradução de Aurora Jardim.

Praticamente do tempo em que o existencialismo anacrónico ousou pisar o terreno do romantismo desacreditado. Dostoiévski não acreditava no amor convencional, mas também não encontrou um substituto para esse sentimento. A metafísica paradoxal. Deixou, porém, um aviso intemporal – cuidado com os subterrâneos da alma, que as suas janelas estão sempre escancaradas!

Base de licitação?

Hemisférios

É definitivo. Desenvolve-se hoje, mais do que nunca, a tese que reduz o Mundo a dois hemisférios: de um lado uma espécie de massa acrítica, atónita, destinada unicamente a fazer de conta que fica escandalizada e a desembolsar todos os prejuízos colaterais, do outro lado os outros. De referir que os outros são bastante menos. Um Mundo em desequilíbrio, portanto.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Periscópio.

®Andrés Kertész

São autênticos experts nos meandros do coração. Reconhecem ao primeiro olhar o perdido que só se agarra à vida por uma rotina mecânica e um punhado de xanax. Topam à distância aquela que esgota o parceiro com amargas reivindicações, ou a espertalhona que o explora, sonsa e zombeteira. Conhecem o enervamento contido dos abandonados, as mentiras-refrão dos infiéis a falsa ligeireza dos apressados, a cobardia dos que não querem ver.
As vidas dos outros são para eles um campo de observação infinito onde os pormenores recolhidos permitem uma viagem dentro de si próprios, esclarecendo horas e infelicidades, mais eficazmente que um doutor de almas sobre os seus distúrbios. E isso é tanto verdade quanto o que lhes salta aos olhos, os irrita ou lhes retorce as entranhas como reflexo exacto das suas próprias falhas, defeitos ou sofrimentos que se obstinam a negar, a esconder e a pôr de lado. Desesperadamente.