terça-feira, 26 de abril de 2016

Falsete.

Dormir com música  sempre foi  para mim uma verdadeira aflição. A música tem vida, tem histórias, tem peripécias em todos os seus recantos. A musica gosta de se nos imiscuir nas entranhas, de nos revolver o tempo passado, presente e futuro. De nos infectar as veias. De nos afectar. De nos deixar, ali, mortos por fora mas muito vivos por dentro. Então, há momentos, como naquela estrofe - «quando o teu cheiro me leva às esquinas do vislumbre e toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta» - da canção «Quem és tu de novo» de Jorge Palma, em que a pulsão assume contornos tão definidos que fica com luz, com forma, aroma e vida própria. É como um fragmento de história que acontece ali naquele segundo, precisamente naquele instante e que identificamos perfeitamente qual é. Porque, ali, naquela fracção mínima de tempo cabem dias e noites, meses e anos de conversas imaginadas, corpos tombados, desejos incontornáveis. Mas depois fica tarde, muito tarde, para adormecer ou para acender a luz.

4 comentários:

  1. Dormir com música, ainda para mais música boa, não será um desperdício?
    Enquanto dormes não a estás a ouvir...
    Obrigada por me fazeres recordar esta canção!

    Bom dia, Impontual!

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    1. A questão é mesmo não dormir, Isabel. .)

      Bom dia.

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  2. Eu adoro. Contudo não é qualquer música que me embala.

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    1. Certo. Mas, há musica que nos «desembalam» - literalmente. E isso à noite...
      :)

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