terça-feira, 31 de maio de 2016

Mármore.

És responsável pelas tuas palavras. É preciso aprender a estar vigilante. Depois de as pronunciares não te podes queixar. Foi da tua boca que saíram essas palavras inimigas, essas palavras que te desfiguram. Estão ali porque tu permitiste que lá estivessem e, pouco a pouco, ocupam tudo em redor. Ocupam mesmo o teu lugar e falam em teu nome. E tu ali sentado, trajado de negro, enorme silhueta sobre a praça pública, como uma estátua recalcitrante, todo vestido de pedra.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Oito tentáculos de um crime.

Capitulo VII - Gisela.

Era um silêncio sólido, sem resquícios, um silêncio que sugeria que a hospedaria se encontrava deserta, como se a própria patroa tivesse proibido a entrada a outros hospedes e depois se tivesse ido embora para me deixar a sós com o ocupante do quarto contiguo. Embora me esforçasse por captar algum som proveniente do outro lado do tabique, o tentaculífero, como se não estivesse ali, não fazia o menor ruído. Eu estava deitado na cama de barriga para cima, a fumar um cigarro. Tinha-me habituado à escuridão e olhava para o tecto como que hipnotizado, deixando-me levar pelas formas caprichosas que as espirais de fumo compunham no ar. Devo ter adormecido sem me dar conta, e quando acordei, sobressaltado pelo barulho que eu próprio fizera ao mudar de posição, estava a amanhecer, como se a noite tivesse durado apenas uns minutos... 
Gisela encontrava-se agora junto à porta do quarto já metida no seu vestido de veludo com a silhueta recortada pelo contra luz que entrava do lado da rua principal. Girou sobre os seus tacões altos ficando de caras para a escuridão de onde acabara de sair. Olhou para o local onde eu estava, como se soubesse que a estava a observar e também ela me estivesse a dizer adeus. Sorri e despedi-me dela mentalmente. Por fim deu meia-volta e desapareceu nas escadas. Já do lado de fora, o barulho dos seus tacões sobre os ladrilhos do passeio foi-se tornando cada vez mais ténue até que o silêncio voltou a reinar como antes dela ter aparecido. Sacudi de cima de mim o lençol salpicado de tinta preta bastante espessa e espreitei o dia pelas frinchas da portada voltada para a rua. Uma chuva mansa, era o que me esperava lá fora.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Oscar Freire

A rua está cheia de mulheres com um passo de setenta centímetros. Mulheres sem rosto. Nádegas, redondas e sólidas, exercendo aquela pressão sobre a saia justa - são já um rosto -, lisas e escorreitas, sobem e descem emitindo umas vibrações ao andar, com um ritmo que enche os olhos.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Bandeirantes.

Há palácios que merecem a visita. Mas os palácios são iguais em todo o mundo - as mesmas galerias intermináveis, os mesmos vasos gigantescos, as mesmas cabeceiras de cama douradas, corredores com pavimentos escorregadios. Em alguns vale bem a pena ficar pelos jardins.

terça-feira, 24 de maio de 2016

São Paulo.

De repente, sente-se aquele horror delicioso que os panoramas grandiosos nos despertam. Somos simultaneamente Deus e nada. Somos ao mesmo tempo o céu e o grão de areia. Depois vem aquele matraquear surdo, uma mudança de luz -, voltamos à terra. Né?

sábado, 21 de maio de 2016

«Saio do sono como de uma batalha travada em lugar algum».

Caramba! Até aquele momento incrível que se passa ali entre a vigília e o sonho, aquele hiato em que se dá o completo relaxamento muscular e a absoluta diminuição dos sentidos, em que tudo é essência, em que é possível lograr ou perder tudo o que se deseja, em que não há nem alegria nem tristeza, nem gritos nem silêncios, luz ou obscuridade, em que reina a paz completa e se pode transitar livremente da fantasia para a realidade e da realidade para a fantasia, se tornou um lugar perigoso para se estar!

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Parábola do filho do filho pródigo.

Só lhe falei de conquistas. Não mencionei, sobretudo, a terrível agitação provocada pelas partidas, as trevas que invadem a alma do desregrado, a alienação que arrasta o esquecimento. Não evoquei as desditas, não desvendei o abismo que se cava no intimo, resultante da separação das pessoas, da terra e do passado. Voltei a enumerar-lhe apenas vitórias; ora ela, à semelhança de todos os campeões, coloca a vitória acima de tudo. Foi. Vencerá.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Barriga de aluguer.

Ela, de barriga para cima, abria o compasso das suas extremidades e segurava-o pelo pescoço. Gozosa. Suspirante. Puxava-o. Abraçava-o. Ardia. Mordia-o. Batia-lhe. Afundava-o no seu baixo ventre. Era ali que o queria. Tinha-o. 
Ele nadava entre as suas ancas e movia a cintura para se encaixar na abóbada daquela caverna selvagem, sua. Possuía-a com religiosidade e avidez como se a noite fosse uma miragem e aquela cama uma tábua de salvação. Procurava profundidade, concentrado no domínio. Aquele corpo era a sua toca. Ela mordia os lábios enquanto ele a desenroscava por dentro e lhe espalhava nas coxas uma sementeira de beijos adocicados. 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Verdes anos.


Era um tempo em que tinham de tal maneira fome de vida que viviam sem sequer terem tido tempo de aprender a viver. Foram aprendendo mais tarde, a meio da tarefa, a pouco e pouco, enquanto viviam. Ela ouvia-o pacientemente e esmiuçava as suas confusões em fragmentos tão pequenos que ele não podia fazer outra coisa senão sorrir-lhe, feliz e confiante, com uma oferenda de amor nos olhos. Por isso, oferecia-lhe música que a comovia, lia-lhe poemas e excertos que lhe diziam que era dela que estavam a falar, e era dela. Livros que iam para além da limitação das palavras, que davam significados cruzados à vida que não tinham aprendido, mas que já estavam a viver. Faziam amor sem que lhes tivessem dito como é que se fazia amor. Gostavam das coisas boas sem que lhes tivessem ensinado em que é que elas eram deleitosas. Com as coisas que partiam do corpo era muito fácil, mas outras para serem compreendidas através das suas manias, dos seus sintomas ou das suas inibições, exigiam mais tempo. Ainda aprenderam a compreender a música. A musica dele. A musica dela. Transformaram filmes e livros em teimosias sempre ganhas, por ela, por ele. E sobretudo foram falando muito de amor, do que era, do que não era, como se aprendia, se um olhar furtivo nos dá realmente tanta informação que já possamos considerar que estamos apaixonados ou se realmente é necessária toda uma vida para descobrir que se ama. Cedo perceberam que uma vida ia ser pouco. E foi.

Notas do Marquês.

Nota 1: 
Ter um tipo a presidente de um clube grande, como é o Sporting, mais fanático que o mais boçal dos adeptos é um perigo à solta.

Nota 2:
Nem uma palavra!? Que ingratidão! Até agora não se ouviu uma única palavra de apreço e agradecimento da parte dos responsáveis do clube da Luz para com Jorge Jesus, Bruno de Carvalho e Octávio Machado pelo magnifico trabalho de impulso e motivação diário que deram aos jogadores e treinadores do Benfica ao longo de toda a temporada; rumo ao tricampeonato. Que ingratidão!

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Peregrinação

Para ter um qualquer sentido, uma romagem deve dar pelo menos a ilusão de se estar a transcender alguma coisa: o eu de todos os dias, por exemplo, o tempo, a dimensão da vida ou a consciência da mortalidade - e o que quer que seja que a nosso ver nos possa ser mais imperioso transcender quando chegamos ao lugar de culto. A não ser assim e para ser aquilo que acabei de ver no noticiário da televisão, estou plenamente convencido de que é um exercício absolutamente inútil, deslocado, oco e indigno de uma espécie cujo o instinto e a evolução levaram a erguer-se nas patas traseiras, mas que, perante o medo do vazio, não resistiu durante muito tempo à tentação de voltar a ajoelhar-se. "Hosana nas alturas!"

quinta-feira, 12 de maio de 2016

IPO

Pouco havia para ver, apesar de tudo: um homem imóvel com um pijama às riscas. Também pouco mais havia a fazer se não espiá-lo enquanto descansava e por isso estávamos ali ao seu lado, porque o víamos despojado da sua consciência, no mundo onde todos os homens são iguais, que é o mundo dos adormecidos.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Dilúvio.

Uma mulher sentada nos bancos de espera, chora. Com uma das mãos segura o queixo e chora. Chora copiosamente. Não parece um pranto chateado e, pela cadência, percebe-se que nem sequer se trata de um ataque de ira. Apenas chora. Aproxima-se um homem de passo tranquilo, sem a olhar, sem dizer uma palavra, senta-se ao seu lado e começa a chorar também. Choram em uníssono, no mesmo tom, com os mesmos gestos, como se o tivessem ensaiado a vida toda. Aproxima-se uma fila de seres anónimos, da mesma estirpe, perfeitamente alinhados. Vão entrando a conta gotas. Não se vislumbra o final. Chegam, sentam-se em silêncio e começam a chorar. Os olhos avermelhados e o olhar perdido no horizonte. Não há dissonâncias. Apenas choram. Como se o fizessem a cada dia das suas vidas. Como se o destino lhes tivesse reservado esse papel. A todos e a cada um deles.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Na malha apertada do tempo.

Em dias, como o de hoje, em que as obrigações profissionais me atiram para dentro da noite, e chegada a hora do regresso encontro a estrada sem trânsito, livre, só para mim, procuro musica na rádio, saio da Antena2, quero outro ritmo, outro som, encontro The Clash já a meio de «Straight to Hell», quedo-me aí, aumento o volume nos altifalantes e acelero. Straight to hell/Oh Papa-san/Please take me home/Oh Papa-san/Everybody they wanna go home. Dos zero aos cem são uns segundos. Depois fico com a sensação de que o carro está a andar para trás, muito depressa, vertiginosamente. Não é que receie as velocidades, mesmo as invertidas, que não receio, mas é tarde e devo regressar a casa...

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Didáctica Inconseguida




Tu nunca viste um homem
subitamente triste
ao descobrir um tesouro ou paraíso
ou alguém com dor no peito
e um gume encostado ao coração
cuspindo riso pela boca.

– Entretanto ensino-te os caminhos

que não passam pela porta de ninguém
e dizes que sou louco...



Arménio Vieira

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Catatónicos.

Carnívoros, abrem os maxilares e atiram-se. São presa e predador num só corpo. Devoram-se, objectos dos seus desejos. Peles que se roçam, centelhas de braços, membros ávidos de carne, pêlos eriçados, um rouco resfolegar a cuspir na orelha um do outro palavras de fogo. Os corpos abrem-se, oferecem-se. Lábios sedentos pousam sobre bocas incandescentes. Lançam desafios. Todos os golpes são permitidos. Mergulham orgulhosamente. Valorosos. Uivam, contorcem-se, entregam-se, desenham furiosos movimentos circundantes. Explodem. Depois, se a alma se entreabrir e deixar penetrar a intimidade, o medo perfila-se, retundidos, cerram-se.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Tempo real.


Uma espécie de loucura atravessa o ar. Fecho os olhos e entrego-me aos ruídos que me cercam, o tinido das vozes, o pandemónio de conversas e gargalhadas, as observações e perguntas em várias línguas, o abrir de garrafas, o bater dos copos, as piadas e o riso a espalhar-se por cima de tudo. Uma amostra representativa de como soam as pessoas quando se estão a divertir. Podia perfeitamente te-la gravado e enviado para um lugar distante do sistema solar para ilustrar sonicamente como soa a vida social no planeta azul, ou pelo menos como soa a parasitagem de alta qualidade. Abri os olhos e aqui estou eu a olhar para o grande canale da invicta, fazendo-me esquecido das obrigações que a tarde ainda me reserva.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Girassóis

©Ilan Ejzikowicz

Nunca gostei de girassóis. Abrem-se ao sol e fecham-se à noite. Abrem-se em sociedade, sorriem sempre impecáveis, sempre simpáticos, irrepreensíveis e tão educados. É comovente a sua mendicidade. Querem que os outros, todos os outros, tenham de si uma boa imagem, que os amem, que os convidem para as suas mesas. Querem uma vida, um titulo de doutoramento, um estatuto para existir. Não suportam não ser nada nem ninguém, mas a vida é precária e por isso vale mais precaverem-se e avançar devagar, de cabeça curvada. Mendigos!

domingo, 1 de maio de 2016

Fragmento de um calote que o tempo vai revelando insolúvel.

Vai com calma, meu filho. Tens tempo. É preciso arejar, é preciso sair e andar pelas ruas a aprender a conhecer a vida. Não sabes nada da vida. Este mundo onde estás, que por vezes vais detestar, ainda não tem lugar para ti. Bem sei que verás gente que tem um ar tão à-vontade neste mundo onde tu não tens ainda lugar e que te questionarás como conseguem elas falar, exprimir-se, ter uma pele tão limpa, os cabelos tão bem penteados? Com que sabonete se lavam? Que livros leram? Quem as escutou? Nasceram já armadas? Enquanto tu apenas apanhas fragmentos dessa vida que elas parecem dominar com total à vontade. O lugar delas está reservado. Tu ficas ali, de pé, em equilibro, em lista de espera, lutando com os teus fragmentos em desordem. Lembra-te que é de ti próprio que virá a salvação. A tua salvação. De mais ninguém. Nunca dos outros. Não esperes nada dos outros. Vai com calma, tens tempo, mas vai.

(obrigado, mãe.)