quinta-feira, 30 de junho de 2016

Um amor morto.

Parece tão simples, digo a mim mesmo, tão simples. Não a conheço. Não lhe noto artifícios, não há grandes palavras a dar o ar importante, não há ideias gerais para dar ideia de que o autor é inteligente. Nada de poses, nada de maneiras. As palavras virtuais, que são as que eu conheço, de Carla Pinto Coelho parecem coincidir com ela, com aquilo que ela é, no fundo de si própria, no seu dia a dia. Uma rapariga simples. Parece ter pequenas molas que estão enraizadas no fundo do seu ventre, no seu coração, e que afloram sob a pele do leitor/seguidor que salta de umas para as outras sem parar.

Ide aqui conhecer a sua obra primeira e deixai o vosso contributo.

Banca de jornais

Era uma vez um mundo onde todos estavam perturbados pelo desejo por coisas que não conseguiam alcançar e o resultado era a aldrabice, a pouca vergonha, o crime, a violência e o Big Brother. Não é assim?

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Aqua Luminae

musica daqui


Temos uma maneira diferente de ver o mundo: eu em voo de pássaro, mergulhando depois a pique. Tu observando o horizonte para que as imagens se depositem dentro de ti. Ambos gostamos do mar. Encontramo-nos no fim do sol?

Salvo-conduto.

Numa altura em que o ponto crucial seria ousar fazer a revolução maior: que é a mudança da sua mentalidade, o mundo -- esse lugar insalubre para o florescimento da experiência humana -- entretém-se ora a dizimar-se em pequenas prestações, ora a levantar muros de arame de farpado.
Ide pró caralho, pá.

terça-feira, 28 de junho de 2016

A desengulhar de Ferrante.


«E, no entanto, as mulheres - as boas mulheres - assustavam-me porque acabavam por querer a alma de um tipo, e a minha vontade era conservar o que sobrava da minha...»

Robalos.


Fomos amigos, amantes, cúmplices. Hoje comemos peixe fresco apanhado à linha pelos homens do cais. Bebemos cerveja de pressão, pedimos cafés, digestivos, e evocamos o passado e o presente, sorrindo deles com a pátina que nos confere o tempo quando é bem utilizado. Sorrisos, esses, nascidos da indulgência.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

«O que queria era estar pronta para abdicar, não de parte, mas de tudo.»

Mesmo sabendo e compreendendo que neste mundo há outras prisões sem grades de onde é muito difícil fugir: o cárcere da desconfiança, a ratoeira dos preconceitos, a cela da resignação, o calabouço da indiferença, a galé do desamor ou até a masmorra da solidão, foi. Ganhou. Nunca se espantou por perder o que quer que fosse.

Oui, c'est moi.

Uma estranha mistura que veio de Lisboa para Paris. Aprendeu a falar francês e aprendeu a conhecer-se. Adquiriu o hábito de dividir o mundo em dois: os que vivem para a sociedade e os que vivem da sociedade. O seu homem gosta de mulheres bonitas que enverguem vestidos bonitos. Ela detesta vestidos. Apertam-na nas costuras. Fazem dela uma mulher que não sabe andar. Na noite deste sábado, para lhe agradar, para lhe agradecer todo o bem-estar que lhe garante, meteu-se num vestido preto, em malha, apertado, que lhe marcava os seios, a cintura, o comprimento das pernas, tudo aquilo que ela gosta de esconder, todos os sinais que fazem de si mulher. Demarcou o contorno dos olhos, pôs baton vermelho nos lábios, soltou os cabelos.

Ele entra no quarto e exclama:
__ Minha puta! Que bonita que estás.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Saint-Exupéry.


«Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.»

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Solstício.

©Jacques Henri Lartigue

(...)
uma fornalha, uma cavidade sofrendo dores
até à cisão; um vazio,
uma mulher, à espera de ser cheia
a luminosidade dos elementos, 
a corrente que avança! 
(...)

__William Carlos Williams,  Alguns rastos de "Paterson".

sábado, 18 de junho de 2016

Pele

Lá fora, um ar ainda fresco que flutua em tons acinzentados. Do lado de dentro da noite, o inferno entranhado nas paredes e nos poros. Dormem nus. Não é fácil resistir àquela visão. A intimidade chega a um ponto inultrapassável. A excitação cresce a cada inspiração, a cada expiração, a cada pensamento, a cada estremecimento. A sensação quente da proximidade inevitável. O bafo infernal da pertença. O calor que aumenta a cada peça que se desprende do corpo: o blaser que cai desamparado, o vestido que escorrega silencioso, a camisa, a gravata, as calças, as meias, o soutien, os sapatos que tombam uns sobre os outros. O suor e os beijos que se mesclam com os diferentes cheiros do dia: as grosserias dos convivas de trabalho, as suas diligências e a incompreensível tagarelice, os transportes, os transeuntes, a cidade, o mundo e os seus resíduos - tudo colado à pele como uma película aderente. Na verdade também lá estão impregnados os temores e os medos do que se não fala, mas que se podem perfeitamente agarrar com as mãos.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Principado.

No entanto, nunca conheci uma mulher que, em segredo, não esperasse pelo príncipe encantado. É por isso que ficam desiludidas. Sempre. As mulheres pedem aos homens que sejam perfeitos. Já os homens também esperam princesas encantadas, mas escondem-no bem.

Definição

Na verdade, e ao contrário do pregão vigente, o amor raramente se detém em pormenores. Amar só pode passar por acolher o outro na sua totalidade. Ninguém é perfeito. Muito menos para sempre.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Tríptico



Falso 9


Não consigo conceber uma equipa de futebol sem um verdadeiro número 9. Fui habituado, mesmo no tempo em que não tínhamos qualquer expressão futebolística além-fronteiras, a ver os números 9 fazer golos em catadupa. Rui Jordão, Manuel Fernandes, Fernando Gomes, Néné, Rui Águas, homens que sabiam aproveitar as oportunidades de golo, homens que se movimentavam na área sempre com os olhos na baliza. O golo acontecia naturalmente. Hoje, e reportando aos últimos 15 anos em que atingimos um certo estatuto no mundo do futebol, limitamo-nos a jogar com um falso 9. Um 9, mesmo que seja ocupado pelo (alegadamente) melhor jogador do mundo, não pode ser falso. Um 9 tem de ser verdadeiro, profícuo, incisivo, letal - nunca falso. Por isso lá estarei em Lyon no dia 22, não na posição 9 mas a ocupar a posição 12. E não serei um falso 12. Quiçá marco um golo num magnifico pontapé de moinho.

Cota alta.


A luz de poente empresta aos aposentos da cota mais alta da hospedaria uma atmosfera de intimidade absolutamente protectora. É quase nulo o ruído longínquo da rua que aqui penetra. Ou nem penetra. É um silêncio inebriante. Por vezes, basta subir alguns degraus, transpor a porta de entrada de um lugar desconhecido, para nos sentirmos aspirados por um mundo diferente, onde tudo o que nos pairava na mente, tudo o que desejávamos e acreditávamos momentos antes se encontra agora ali, a nu, virado do avesso. É aí que começa o preludio febril em que se anseia por começar uma história sem história nesse universo invertido, adúltero.

(do not disturb, please.)

terça-feira, 14 de junho de 2016

Scouting

Morena com sardas, olhos negros, umas pestanas longas e recurvadas, cabelos curtos, flexíveis, ondulados, espumosos, uma boca em acento circunflexo, lábios cheios, um olhar de rapariga já maltratada pela vida, mas arrogante, dura, coriácea, ferida.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Também é dia de Santo António.

  Maria Helena Vieira da Silva -  Auto-retrato, 1931


Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, 
Não há nada mais simples 
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. 
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus. 

Sou fácil de definir. 
Vi como um danado. 
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma. 
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. 
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver. 
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras; 
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. 
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais. 

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. 
Fechei os olhos e dormi. 
Além disso, fui o único poeta da Natureza. 

__Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Três minutos e trinta.

Palavras, apenas palavras, nenhuma força de predestinação na combinação de umas com as outras. A língua com as feridas da língua, a língua inválida, a alienada e a insone. A catarse aristotélica. Simulação, dissimulação, fingimento. A teatralidade, o jogo retardado da imitação e do renascimento, a máscara e o mascarado. De repente tudo falso, tudo falsificado.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ester.

Morena, olhar profundo, cabelo acobreado, pele fresca e mate, seios cheios, cintura miraculosa, tornozelos finos, uns sapatos de pele de antílope, de salto alto, por baixo do casaco comprido um vestido preto, fino, frio, de mangas curtas, e uma carteira a abarrotar de fantasias. Esbelta e rápida de movimentos, ansiosa por ver e por ser vista. Não parecia destinada a um único amante. Também estava só.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Lapsos de consciência.

Não pude resistir àqueles olhos tristes, de olhar sereno, trespassando os meus. Sentir a sua voz de veludo acariciar-me por dentro e não saber o que dizer. Somente inspirar o suave perfume que exalava do seu corpo e inundava o ar ainda húmido desta Primavera lenta. Trouxe esse aroma gravado na memória e incrustado nas entranhas. Só receio não conseguir conservar o sabor daqueles lábios sedentos.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Vinte anos depois.

Quando em Agosto de 1996 fui arrastado pela insistência de uns amigos, mas também por um cartaz que anunciava na altura Cool Hipnoise, Xutos & Pontapés, Madre Deus e Tindersticks que em cima da hora não apareceram e foram substituídos por um quarteto de jazz que agora não recordo o nome, disse para comigo mesmo: "não volto cá mais". Não voltei.
Acontece que hoje, exactamente vinte anos depois, os mesmos que me empurraram para lá em 1996, estão a reunir-se para voltar a Vilar de Mouros em 2016 sob o pretexto de que vinte anos nem é assim tanto tempo e que o cartaz - mais uma vez o cartaz -  até é bem jeitoso: Waterboys, Peter Murphy, Peter Hook (dos Joy Division e New Order) e imagine-se Tindersticks. Aceitei. Vou lá estar. Em Agosto estou sempre ali tão perto e, afinal, vinte anos não é tempo nenhum. Será que as moçoilas vão aparecer?

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Sangue novo.

Quando se mostra demasiado terno, demasiado apaixonado, demasiado meigo, demasiado premente, quando pousa docemente as suas mãos como duas conchas sobre os seus seios, quando sente o seu corpo pesar contra o seu, pesado de todo o seu desejo, de todas as suas esperanças, retrai-se. O seu corpo, o seu coração fecham-se. A sua cabeça parte para longe. Não pode suportar aquele abandono, aquele deixar-se ir, aquela exibição sentimental que lhe deixa um sabor amargo na boca. Quer os espinhos que arranham, que queimam, que fazem correr sangue novo.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Gueto

 ©Martin Munkácsi

A memória em certas circunstâncias, apresenta-se como a única forma de ternura. Chama-se então nostalgia. Há pessoas que não sabem o que fazer com ela. Nada deveria afectar mais uma pessoa do que ela mesma. O que uma pessoa tem realmente é o que está dentro de si. O de fora não deveria ter importância. Mas tem.

Não toques nos objectos imediatos.

®Jeanloup Sieff

A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.

**Herberto Helder -  Poesia Toda - Assírio & Alvim, 1996