sábado, 18 de junho de 2016

Pele

Lá fora, um ar ainda fresco que flutua em tons acinzentados. Do lado de dentro da noite, o inferno entranhado nas paredes e nos poros. Dormem nus. Não é fácil resistir àquela visão. A intimidade chega a um ponto inultrapassável. A excitação cresce a cada inspiração, a cada expiração, a cada pensamento, a cada estremecimento. A sensação quente da proximidade inevitável. O bafo infernal da pertença. O calor que aumenta a cada peça que se desprende do corpo: o blazer que cai desamparado, o vestido que escorrega silencioso, a camisa, a gravata, as calças, as meias, o soutien, os sapatos que tombam uns sobre os outros. O suor e os beijos que se mesclam com os diferentes cheiros do dia: as grosserias dos convivas de trabalho, as suas diligências e a incompreensível tagarelice, os transportes, os transeuntes, a cidade, o mundo e os seus resíduos - tudo colado à pele como uma película aderente. Na verdade também lá estão impregnados os temores e os medos do que se não fala, mas que se podem perfeitamente agarrar com as mãos.

12 comentários:

  1. tudo, de modo indelével tatuado na pele.

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  2. Se for mesmo intenso, não existe essa cola, a única cola que existe são os chamados compromissos inadiáveis que, como é sabido, não são para ali chamados.

    Afinal, tens 15 anos :P

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    1. Alexandra, agora fez-me cantarolar aquela musiquinha:"... sobre a pele que há mim/tu não sabes nada..."

      :)

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  3. Até ver a minha lá permanece pendurada na cruseta, com naftalina. Não vão as traças dar conta dela!
    Gostei de ler.

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    1. É preciso arejar essa pele, Sandra Louçano.

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  4. Que escrita linda... vou caminhar mais um pouco por aqui.

    abraço profundo.

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  5. Cumplicidade, proximidade entre estes dois em um :)

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  6. Calor, suor, atracção, paixão, entrega.

    Boa noite, caro Impontual :)

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