segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Dissipação.

Cautelosamente deixei-me abraçar, e senti um certo desvanecimento. Sinto-me sempre algo constrangido com este novo hábito das festas e dos abraços. Até fui criado com eles, mas, por vezes, não consigo deixar de os associar demasiado claramente ao sexo...


depois, alternamos entre a praia e o parque, misturámo-nos com outras gentes, bebemos umas cervejas, vimos Peter Murphy e Peter Hook na mesma noite... enquanto ansiávamos pelos Waterboys, que haveriam de nos transformar numa tranquila multidão de velhos amigos a olhar as coisas por detrás das coisas.

sábado, 27 de agosto de 2016

Room to Roam


O que eu queria dizer era justamente isso: não estou preocupado comigo. Está tudo bem. Tenho tomado banho, escovado os dentes, bebido água. Meu coração continua a bater - insolente - como sempre.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Vilar de Mouros.


E se eu voltasse a fumar um charro?
Nos últimos 20 anos, tal só me aconteceu muito, mas mesmo muito raramente, pois sou demasiado gélido para procurar refúgio noutro lugar que não as minhas convicções. Todavia, se fumasse, é certo que um terrível abalo me percorreria o corpo e nada permaneceria da minha frieza. Ficaria momentaneamente irreconhecível, de olhos parados, esgazeados, os lábios frementes, os gestos e as palavras a denotar uma cínica sensualidade. Tentaria escapar-me, em vão, invocando a razão de sempre. Os outros lançar-se-iam rapidamente na orgia fria, que me repugna, mas que observaria sempre com vivo interesse, mais não fosse para lhes relatar depois entre risadas. Enquanto uns deixariam cair as pálpebras, outros tossiriam às primeiras baforadas. Por vezes fico até assustado ao constatar que, neles, a droga produz efeitos diferentes dos que habitualmente se verificariam em mim. Neles, os sintomas são os de acordar: os gestos da repugnância, convulsivos ou lentos, do combate contra a náusea, enquanto em mim cai a confiança plena, uma semiconsciência encantadora. Um espectáculo assustador: o homem que desperta suavemente e que seduz. 
E se eu voltasse a fumar um charro?

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Sem pelicula.

Hoje sairei por aí, verei tudo e não registarei nada. Se quiser simplificar, direi apenas que hoje me faltará a memória, esquecendo assim tudo o que possa constituir a estória diária de um ser humano. Verei tudo como se o visse pela primeira vez. Todas as impressões recebidas serão uma novidade e manterão intacto todo o interesse que me possam despertar. Hoje serei uma espécie de máquina fotográfica sem rolo. Não me cansarei das impressões agradáveis e as más nunca chegarão a acumular-se de forma a desgostar-me. Por outro lado, esta espécie de alheamento relativamente a tudo também não será de todo incómoda. Distanciar-me-à daquilo que iria ocupar-me de forma mais obsessiva, e a sensação dai resultante será, inclusive, bastante agradável.


"Fotografar é colocar na mesma linha a cabeça, o olho e o coração."

__Henri Cartier-Bresson

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Silente.

A folha de papel assusta-me. Não a folha de papel em branco, mas a folha escrita até meio. Escrever sempre me apaixonou, porque sei que tudo o que se escreve é em parte mentira. Na verdade os que escrevem sofrem todo o tipo de mutilações. Eu, por exemplo, tenho um pensamento que tem forma nos equilíbrios e nos desequilíbrios, nos sons, nos silêncio, nas pedras, nas cores. Por vezes escrever enfraquece-me terrivelmente o pensamento, afasta-me o espírito da palavra, bem entendido, da ideia. E por isso, às vezes, calo-me. Mas calado também não estou bem...

sábado, 13 de agosto de 2016

Outros Agostos.


O que é o homem sem liberdade
O! Mariana diz-me
Diz-me como posso amar-te
Se eu não sou livre, diz-me
Como oferecer-te o meu coração
Se ele não é para mim,

*Lorca recita o seu último poema, mesmo antes da sua execução, durante a guerra civil de Espanha em Agosto de 1936, por um pelotão de fuzilamento fascista.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Ásia

Veio de Berlim para assistir à cerimónia. Diz-me que quer voltar para a Ásia. Que está farta da Europa que lhe impôs esta feminilidade e os seus acessórios: o amor, a devoção, o erotismo quase lírico, a monogamia, o feminismo. Insiste que está farta desta Europa que apenas fala de mulheres e de amor, porque é só nisso que por cá se pensa, mesmo quando se faz alguma filosofia, alguma politica, alguma guerra. O "eterno feminino" eis o que a sufoca na Europa. Quer a Ásia apesar dos seus inúmeros defeitos: são cruéis, por vezes estúpidos e porcos, mas que pelo menos nota-lhes duas qualidades fundamentais: não idealizam a mulher e não acreditam na evolução.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Cerimonial.


Está impressionante lá dentro. Mesmo impressionante! Mulheres bonitas, todas bem vestidas e a sorrir umas para as outras. É outro mundo.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Paranóia.

©Salvador Dali, 1944

O destino tem sempre uma singular preferência pela repetição. Não sei se é o destino ou a natureza. A nossa natureza. Mas deve ser por aí que se explica a curiosa persistência no ontem: o passado volta sempre como presente. Quantas e quantas vezes como futuro. Que tristeza!

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Asno

Embora seja esse o motivo porque vou escrevendo este relato: porque às vezes tem laivos de alguma beleza, é elástico, é vivo e encontro por todo o lado o leitmotiv do meu deslumbramento: o vício, as loucas tentações, a reflexão ou a violência, o amor ou a indiferença, de tudo me sirvo para viver. Com excepção da malevolência, pois ela nunca me habitou. O ódio não cria, destrói. Estou acima disso. Repito, estou acima da malevolência. São o desejo, a paixão, o desprezo, a repugnância, o que anima a minha vida. Contudo reconheço, também, a força e a fecundidade da indiferença, embora, por regra, esta palavra nada signifique para quem quer que seja. Nem para mim, que às vezes me comporto como um verdadeiro asno.

Inaugurando então a época das monções.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Arroteamento.

Dela quer sempre tudo. Ver todos os seus rostos, todos os seus medos, todas as suas audácias, aquele sentimento novo que inventa de cada vez que a volta do avesso como quem vira uma luva e que faz surgir em si territórios desconhecidos, para onde se deixa arrastar aterrorizado, voluntário e seguro de se aproximar de uma luz que o cega, mas que lhe fala de amor, de identidade, de terra por desbravar. 

Ainda há quem trabalhe em Agosto!

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Ide, ide.



Ide para os Algarves. Ide para Punta Cana. Ide, esgotai e esgotai-vos. Ide-vos encher de mosquitos. Ide, ide.