segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Lolita

As roupas em desalinho revelaram desde logo todos os seus encantos - a pele branca como farinha, os mamilos do mesmo rosa da boca, dispostos num peito bem torneado, a barriga ligeiramente metida para dentro com um percing no umbigo. O sexo, bonito, a encher os olhos, meio oculto por uns pêlos da cor do nevoeiro, vermelho vivo e macio como um alperce. Cheia de vida da cabeça aos pés, sorrindo como se tivesse acabado de sair de dentro de um bolo. Surpresa!
De certo modo pode dizer-se que a suspeita se instalou em mim sem ter um motivo para a projectar. Uma obsessão, um delírio sem importância que seguramente teria acabado por se extinguir sob o peso da minha má consciência. Mas se assim fosse, e que seja eu a dizê-lo, peso não faltou ao momento em que na verdade encontrei algo de que recear. Mais ainda porque não o procurei, mas porque veio ter comigo acidentalmente. 
E não quero contar a noite em que o amor se apresentou involuntariamente, direi apenas que fui seduzido pelas maravilhas existentes naquele quarto: um candelabro com uma chama que ardia a óleo de madeira de sândalo e que projectava uma luz trémula e opaca nas paredes iluminando os três Klimt que pareciam autênticos. De um lado o esquisso de "a masturbação feminina", do outro - lado a lado -  "o beijo" e "o abraço". Além dos momentos em que a massa viva, o enredo dos impulsos se satisfaz mais sinceramente na intimidade, tanto na medíocre como na genial, arrebatada que está por permutas mentais e físicas por vezes provenientes de lugares fundos. Remotos. Inóspitos.

Sem comentários:

Enviar um comentário