quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O radicalismo no amor

Aflige-me aquele género de pessoas que falam das suas paixões particulares com aquela singularidade em que tudo arde e tudo se consome. Aflige-me e faz-me sempre sentir simultaneamente invejoso e ligeiramente desconcertado. Sempre que pressinto o seu fogo lento por trás da cortina de uma conversa, não consigo deixar de perguntar a mim próprio se alguma vez na minha vida terei amado alguma coisa com o mesmo género de intimo conhecimento, com a mesma intensidade, com a mesma largura e fidelidade. Tenho a certeza de que nunca amei o que quer que fosse tão magnifica e magnanimamente como essa gente ama qualquer das suas pequenas coisas. O calor de cada uma das suas observações vem de uma labareda imensa! Que alegria não haverá nisso! Já para não falar daquela parte da fadiga e trabalho árduo que qualquer grande amor seja ele por pessoas, por cães, por gatos, por jardins, por deus, por futebol, pelo socialismo ou mesmo pelos próprios filhos, implica inevitavelmente. O amor não era uma coisa natural?

12 comentários:

  1. Radicalismo, seja ele onde for, não é bom. Eu penso assim.

    Boa tarde (Im)pontual

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    1. Muito menos no amor Impontual - Radicalismo, impõe - e se impõe, castra.

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  2. Isto dá que pensar, sim!
    O amor dá trabalho porque para nós, humanos, não chegam as pulsões, e até nem chegam as emoções e sentimentos primeiros no que respeita ao amor. Nós queremos e precisamos que o amor dure. Dá-nos segurança, alimenta a nossa continuidade.
    Se não trabalharmos para isso, se não nos esforçarmos (não falo de sofrimento, claro), as pessoas que dizes amar e que dizem que te amam, esfriam e afastam-se aos poucos.

    Não estou a defender o princípio que acabei de descrever, apenas a constatar.

    Se é bom ser assim?
    Por um lado é, por outro não. Tipo fifty-fifty.

    Também não sou desse tipo de paixões e amores arrebatados com tal fervor. Por personalidade e por defesa.

    Boa tarde, Impontual!

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    1. Boa tarde, Isabel.
      Sei que é um lugar comum dizer-se que o amor não tem medida ou que pobre é o amor que se mede em comprimento. Mas eu, tenho de confessar que me aflige sobremaneira a forma inflamada como as pessoas o extravasam - ou melhor, como o "cantam" - se é que se pode chamar assim. A forma como associam o amor a tudo o que compõe a sua vida. Parece que amam o companheiro, o filho, o pai, a mãe, o cão, o periquito, o casaco de pele e a crepe com frutos vermelhos da mesma maneira. E isso aflige-me. Fico com a sensação de que não devo saber amar. E eu sei que sei. :)

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  3. Chama-se intensidade. É a melhor coisa do mundo!

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    1. Perfeitamente, Cuca. Desde que não asfixie por exorbitância.

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  4. naturalmente que o amor é uma coisa natural... naturalmente obsceno de intensidade para uns, e naturalmente refrescante como uma leve brisa primaveril para outros... depende da natureza de cada um, suponho. Há, ainda, quem "ame" sapatos, quem gaste as palavras por falta de uso condigno, como talvez o consigam fazer com os ditos sapatos... Há quem se deslumbre ao mais pequeno vislumbre, e ame o deslumbramento mais do que qualquer coisa, e quem vislumbre um pequeno deslumbramento que guarda em lume brando para degustar a preceito as pequenas coisas que se interiorizam devagar, como, quem sabe, o amor.
    E sim, acho que não há amar demais, amor grande ou pequeno, há amar ou não. Não sei se é radicalismo, mas às vezes é por demais radical nos tempos que correm... ;)

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    1. Sabe Olvido, é que por vezes fico ali preso entre o lado bom e o lado mau (chamemos-lhe assim) da intensidade e, estranhamente tem-me acontecido observar, até nos outros, o desconforto da asfixia, quer no papel de emissor quer no de receptor. Mas não tenho nada com isso. Eu, por mim, só quero que a intensidade me deixe respirar de vez em quando para poder absorver essas explosões com alguma tranquilidade. :)

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  5. Um misto é o melhor.

    Só que lá está, não é uma ciência exacta!

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  6. Não sei se o amor é algo natural... especial é, com certeza...
    Mas há quem viva uma vida, sem verdadeiramente o ter conhecido... ainda que pense que sim...
    Bjs
    Ana

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