terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Natal

São aflitivas as imagens que chegam de Alepo. Avançam uns de cada vez. Devagar. Entorpecidos. No olhar de cada mulher, de cada homem e de cada criança germina oculto e calado um tempo de espera. Parece que lêem nos olhos uns dos outros, os seus sonhos e as suas aflições. O silêncio, ambíguo, retém-se à sua volta, estranho e solidário. Parece que sabem o fim uns dos outros, as pequenas esperanças e os receios que os calam, de a vida não ser tão generosa como desejavam. Ficam ali de olhos fixos e muito abertos, imóveis e serenos, como se esperassem dai a momentos o instante da morte, uma morte violenta que os libertasse definitivamente de toda aquela mesquinhez, de uma miséria prolongada que os vai prendendo irremediavelmente à vida. 
Do lado de fora da televisão, o resto do mundo, atordoado, entretém-se em alegres festas de luz e jazz.


Obrigado Alfa17

3 comentários:

  1. Quarta-feira, em Lisboa, no capitólio, um grupo de artistas junta-se para um espectáculo solidário, a favor desse exercito de corajosos que é a associação Médicos Sem Fronteiras.https://www.youtube.com/watch?v=7xQ1jNH6-DU

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  2. Assim é. Aquilo que se vê, aquela imobilidade, aquela aceitação tem um nome: medo.
    Quem já esteve debaixo daquela apneia sabe do medo que assalta as pessoas.

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