sábado, 21 de outubro de 2017

Palomar

O Senhor Impontual marcou presença esta tarde na praça do município e, de pé, misturado na concentração humana que se foi formando lentamente, observou a superfície. O Senhor Impontual tinha conhecimento do objecto do ajuntamento. No entanto, a fim de evitar sensações vagas, procedeu à busca daquilo que se encontrava por baixo da sua superfície, levando em linha de conta os aspectos que estiveram na sua génese assim como os aspectos mais complexos a que daria consequentemente ensejo. O Senhor Impontual já sabia que prestar atenção aos aspectos faz com que estes saltem para o primeiro plano, invadindo o quadro, como em certos cenários diante dos quais basta que se fechem os olhos e ao reabri-los a perspectiva já mudou. As coisas nem sempre são como são, mas a sua superfície é inexaurível.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Moção de censura

Aos escribas que nas suas mãos direitas seguram as penas, e nas esquerdas os canivetes. Trabalham em silêncio e, por vezes, o único som que se ouve é o da sua respiração inconstante e o arranhar das penas no velino. Apesar da sua aparente elevação, a luz é ténue.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Doctiloquia

Era uma vez um país onde o povo estava perturbado pela tragédia, pela morte, pelo terror e os políticos perturbados pelo desejo por coisas, lugares e estatutos que não conseguiam alcançar e o resultado era o medo, a insegurança e a frustração. Não é assim?
Até que um dia o grande líder desenvolveu um medicamento que curava as pessoas do desapontamento e permitia que os homens, as mulheres e os políticos fossem felizes com o mundo que tinham.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Um post com mais de vinte anos

Primeiro foi um beijo que se prolongou no entrelaçar das línguas. Depois a mão direita a subir pelas costas em busca dos colchetes superiores. Outros beijos se foram perdendo no pescoço à medida que se desapertavam os fechos dourados. O qipao tombou aos seus pés, revelando um busto de belos seios firmes, uma cintura delgada, descrevendo uma curva suave que se alarga nas ancas e se prolonga harmoniosamente pelas pernas. Abraçamo-nos com outra intensidade.

(claramente alicerçado no conceito de deslumbre de D. Pipoco - O Mais Salgado)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sem foto pouco vale

Mas...hoje vi um pôr-de-sol maravilhoso. Foi na marginal de Moledo. Uma imensa bola de fogo tombando sobre o horizonte, ardendo lentamente até desaparecer lá nos confins do mar que era azul cobalto. Mais ao fundo, Sinatra interpretando majestosamente "Fly me to the moon".

Não sei se estão a ver?

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Trinta e um

Apesar de tudo ainda há quem se preste a tentar transformar, e isso é que é importante, um caso de corrupção e aldrabice numa coisa, se não extraordinária, pelo menos poética; que é o desempeno e consequente funcionamento definitivo e livre do sistema (judicial). 
Esperai sentados.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Na moleza da tarde: de Picasso a Pina, num ápice.

__O Acrobata - Pablo Picasso, 1930

Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,
nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
na ausência das palavras calar-se.

__Manuel António Pina, Todas as palavras, Poesia reunida 1974-2011

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A insustentável leveza

Passaram-se alguns dias. Mais concretamente cinco dias. Sei-o pela proeminência de um ou outro pêlo que se manifesta mais branco na minha barba. Ando nas nuvens. Em geral, quando as pessoas dizem que andam nas nuvens, querem significar com isso que a felicidade as torna mais leves, mas para mim é o contrário, é a indiferença que me torna leve, como um farrapo de nevoeiro em vias de ser queimado pelo sol.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

República

Não há nada como vir ao pôr-do-sol, quando as aves regressam aos ninhos para dormir. É o som do mundo antes do homem existir.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Demissão

Qualquer um chega ao ponto de querer lançar-se no vazio com um nó no estômago e uma generosa dose de má adrenalina cavalgando fugitiva pelas suas veias afora, mas como todos carecemos de instinto suicida apegamo-nos à segurança dos pés bem assentes na terra como último intento para determos essa ousadia. Acontece que, muitas vezes, precisamos de fazê-lo e sem pensar duas vezes, aproveitamos esses escassos segundos de valor e saltamos com tal ímpeto que chocamos contra o colchão, compartilhando-o com a nossa má sombra. Foi o que fez Passos Coelho - o obstinado.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Canícula

Quantas e quantas vezes a memória e a imaginação andam assim de mãos dadas. Quantas e quantas vezes competem entre si. A memória a apresentar-se real e sólida na medida do possível. A imaginação a bater as asas. A memória a inclinar-se para o conhecido, a imaginação a voar em direcção ao desconhecido. A memória a inspirar-me prazer e paz. A imaginação a fazer-me andar de um lado para o outro acabando por me enfraquecer.
Um dia, mais tarde, não precisa de ser já, ainda hei-de aprender a viver exclusivamente pela imaginação.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Se o Outono fosse meu...*

Começaria por mover-me dentro dela. Seria diferente de tudo o que experimentara até então. Ela abrir-se-ia a um nível não físico que aumentava a intensidade da sensação física dos corpos a moverem-se em simultâneo. Eu estaria consciente de me encontrar dentro dela, mas era como uma experiência extra-corporal. Numa palavra: comunhão.

* baseado numa belíssima ideia que vem daqui.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Então?

 Pawel Kuczynski 

Gente empenhada no bem comum, portadores da indignação partilhada, que  estais ali entre os brandos agitadores de rua e a pequena burguesia estabelecida, sofredores em silêncio, amortecedores da nação, donos dos votos oscilantes, já escolhestes o molho com que quereis ser comidos nos próximos quatro anos?

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Procrastinação

Continua a haver um ínfimo momento naquela música do Fausto, “Foi por ela", em que o desejo assume um determinado contorno, ganha forma e odor, voz e vida própria. Há um trecho de história que continua a acontecer ali naquele instante, naquela fracção de segundo e que eu sei perfeitamente qual é porque continuo a apanha-lo num voo planado, capto-o num movimento pendular e porque dele me continuo a escapar numa estúpida, por vezes absurda, diria mesmo irracional miscelânea de amarga e doce saudade. Só que depois o sol, esse, até nem me faz falta.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Hoje vesti um blazer azul marinho...

Mas... há gente que de manhã quando carrega no interruptor e o seu quarto se enche de luz, fica iluminada, alerta, electrificada, cabeça e corpo prontos a andar. Acordei, sou um génio. O seu cérebro enche o mundo e o mundo enche o seu cérebro. Têm o controlo e o domínio de cada parcela sua. São uma onda de luz instantânea, invisível e omnipresente, que se espalha sem esforço pelos recantos mais sombrios do universo, iluminando tudo, compreendendo tudo, sentenciando tudo e... todos.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Segregação

Deve ter sido o cabelo que primeiro captou a minha atenção - pelos ombros, desgrenhado, dourado-ambar, atraía a luz, capturava a luz, seduzia a luz, acolhia a sombra que se projectava no interior do compartimento à passagem pelas estações intermédias. Sentada na cadeira logo a seguir à janela com as costas direitas, estava uma visão, banhada pelo tom outonal que pairava no exterior, de uma mulher divina, capaz de me fazer abandonar os claustros. Depois, apoiada nos cotovelos sobre a mesa rebatível, a cabeça entre as mãos, vestia um vestido de algodão azul-água, sem mangas. Estava a ler qualquer coisa - algo demasiado extenso e pesado que abria e segurava com dificuldade, a ponto de nas pausas ter de fixar as páginas com a carteira de pele castanha. Buliçosamente, abanava as pernas debaixo da mesa. Não conseguia ver-lhe o rosto, mas o seus membros inferiores estavam destapados, bronzeados e numa proporção tão perfeita com o resto do corpo que até Teciano teria de os alterar, com receio de que quem admirasse a sua obra pudesse não acreditar. Levantou a cabeça, e depois aguardou um instante antes de voltar ao livro - "O Idiota" de Dostoiesvski, verifiquei -  numa espécie de competição consigo própria. 
Sem reservas, admito, fiquei enfeitiçado: puro desejo adultero. Um chuto numa artéria principal.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Isto acontece

Numa sociedade onde há pouco mais de setenta anos o pangermanismo deu origem ao movimento nacionalista, ao racismo cientifico, ao darwinismo social e ao anti-semitismo que viria a redundar no mais abjecto momento da história da humanidade: que foi o mais amplo genocídio em massa contra vários grupos étnicos, políticos e sociais a que a Europa e o Mundo alguma vez assistiram - recordo.

sábado, 23 de setembro de 2017

Outono


A maior parte das pessoas, à medida que vai amadurecendo envelhecendo, descobre que passou a vida a dar explicações, e arrepende-se disso, mas continua a fazê-lo.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Motel

Chegara a um ponto em que percebeu com clareza que se enganara em todos os infinitos conjugáveis. Por isso não lhe restava outro consolo senão aproveitar a dádiva. Seria uma ladra. Iria roubar todos os beijos, todos os cheiros, todos os sabores, todos os segundos, a rolha do champagne e até aquelas notas de piano lentas e cavernosas que se soltavam  pelos altifalantes incrustados na cabeceira da cama queen size.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Donne


Pois.
Sou três vezes doido, bem sei,
Por chamar-te até mim, por prometer-te o céu, e por cantá-lo
nesta prosa plangente.

sábado, 16 de setembro de 2017

Vintage

Voz acetinada pela fadiga, cigarro entalado entre as unhas já pintadas da cor do Outono, mãos finas e compridas, uma franja indefinida estendendo-se em leque sobre a testa, a alça do vestido preto descaída sobre o ombro arredondado. Incrivelmente perturbadora. Sem dúvida uma mulher muito sensual, impregnada de cansaço, lindamente marcada pelas rugas e confortada por alguns quilos a mais. Libertava uma força erótica tão perceptível, tão forte quanto o odor da casta de colheita tardia no seu perfeito estado de maturação. Um vinho das cotas mais altas. Tinto. Encorpado. Mistura de geleia de frutas negras e especiarias. Taninos doces. Um sorriso fleumático e uma certa filosofia.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Fileira

Há dias em que se acorda e parece que estivemos em centenas de lugares todos ao mesmo tempo: estações de caminho-de-ferro, aldeias longínquas, beira-rios, mares salgados. Todos esses sítios tinham nomes, mas não nos lembramos de um único desses nomes. Às vezes parece-nos um vasto prado que se confunde com o céu, outras vezes uma floresta sombria que se prolonga indefinidamente dentro da escuridão, e outras ainda uma fila comprida de pessoas, da qual algumas caem de vez em quando e são pisadas pelos outros todos. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Núpcias

Vaguear pelos meses em doces nostalgias, recusar durante longo tempo a ideia do amor e embriagar-se de amargura. Depois, sem se curar da recordação, descobrir-se diferente, mais vivo, longe das expectativas, interessado na pessoa menos cheia de certezas que sentia fremir dentro de si. Horas maravilhosas de solidão, uma espécie de lua-de-mel consigo mesmo. Uma verdadeira alegria interior a surpreender aquele desgosto que se julgava infinito, naquele momento em que as cores e as emoções ainda não foram devoradas pelo calor. Sentir o desejo de agradar a si mesmo, prelúdio ao prazer. Mergulhar em si próprio, rodeado por uma música interior, construir um abrigo e às vezes elevar-se para observar de longe. Sentir mesmo gosto em frequentar esse universo alargado de pessoa só, sem se atolar em delírios de desgaste lento.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Emulação

Enquanto a geração cabeça baixa tecla, posa, fotografa e volta a teclar fazendo chegar ao Mundo os seus mundos, faço um considerável recuo mental e dou comigo da idade deles, num tempo em que fervilhava em mim a mesma vitalidade que a borboleta deve sentir ao sair da crisálida. Em que o que queria era experimentar a embriaguez permanente que me permitia todas as audácias. Falar com raparigas, caminhar enlaçando-as pelos ombros, beija-las, acariciar os seus incríveis seios, introduzir a mão por baixo das suas saias perturbadoras e, quando a sorte me sorria, atingir realmente o fim, sentir a demasiado breve electrocussão que fazia de mim um homem e me autorizava, chegado o momento, a regressar a casa de cabeça erguida.

Por ora deixo-me com um pé no rio, um livro, dois de conversa para dentro, uma cerveja, a música no ouvido. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Cartilha Oligárquica

Demos graças a Deus por vivermos no litoral, termos nascido e vivermos no melhor destino europeu do ano com a piscina mais bonita da Europa e com a zona ribeirinha mais visitada... ou por actualmente morarmos no sítio onde a Madonna, a Bellucci e o Fassbender se andam a passear e onde os reformados mais ricos do mundo se querem fixar.
O que seria de nós se vivêssemos numa aldeia ou vila do interior, onde além de ficarmos sem tribunais, escolas, bancos, correios ou hospitais ainda corríamos o risco de morrermos assados, perdermos os nossos bens e entes queridos devido à incúria dos que vão governando e desgovernando o país, que ainda teriam a lata de dizer-nos também ser nosso, e que tivéssemos confiança nas instituições sociais?

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Temos então dois grupos

O primeiro grupo, que é extraordinário, é composto por uma espécie de iluminados que defende que a desigualdade de género está na paleta de cores e que por isso urge erradicar o rosa e o azul.
Depois temos um segundo grupo, que não é tão extraordinário nem tão original, que defende que na paleta de cores não há limites e que o vermelho não é uma cor una e por isso permite descrever todo o espectro de cores que vai desde o rosa chã ao azul celeste, mas que nós portugueses não estamos culturalmente preparados para isso. 
Einstein na sua rara genialidade dizia que "há duas coisas sem limite, o universo e a estupidez humana...". Aqui falámos especificamente de estupidez humana.

Naturalmente, há quem (muitos) por especial atributo possa pertencer aos dois grupos em simultâneo. Quem diz em simultâneo diz em menos de um fósforo.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pirose

O ressentimento é uma sopa espessa que se pousa nos lábios, passa pela boca e pelo esófago e vai ancorar-se no estômago. E por ali fica, em ebulição constante.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ponta-de-lança

Não há nada tão excitante como experimentar aquela sensação de ter alguém pela frente sem qualquer capital de ideias mas com os bolsos recheados de euros e, sem hesitar um instante, escrever na toalha que se encontra sobre a mesa uma cifra com seis zeros, provocatória - isto é quanto vale. Cobrir o numero com um risco e acrescentar: mas o projecto é seu. E depois com um impulso repentino, entrelaçar os dedos das mãos, pousar o queixo sobre elas e ficar ali a ver a seta já lançada a voar em direcção ao alvo com a certeza de que lhe imprimimos uma trajectória infalível, mas que ainda assim lá mais para o final do mês o nosso soldo terá uma variável de crescimento incompatível e os vencedores serão outros, os do costume, os palmadinhas nas costas.
É por isso que gosto muito de futebol, o único sector de actividade onde o operário ganha mais que o administrador.

domingo, 27 de agosto de 2017

sábado, 26 de agosto de 2017

Palomar

O Senhor Impontual desperta às oito horas da manhã de um Sábado com o intuito de regar o relvado, sequioso, vitima de seca prolongada. Estende a mangueira, abre a torneira da água e, no momento exacto em que esta jorra a primeira torrente, dos céus tombam lentos e sintonizados uns pingos grossos que por momentos se intensificam, desaparecendo. 
O Senhor Impontual, com o seu olhar invertido, contempla agora as nuvens errantes que se escondem atrás da colina. Mantém-se vigilante, livre de toda e qualquer certeza.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Graça Fonseca

A identidade tal como a mentalidade não necessitam de palavras. A identidade, porque o seu elemento é a dissimulação e a sombra. A mentalidade porque não tem de alardear as suas acções. De resto, tudo certo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Bóreas

Encontrávamo-nos no paredão junto à praia e não seguíamos para o areal, seguíamos para o prado para uma festa muito nossa. O vento de Agosto já baloiçava Setembro. Instalávamo-nos sob a mesma carvalheira, desembrulhávamos os nossos lanches enquanto o vento e a sua cauda de espaços entrava nas nossas bocas e assobiava nos nossos cabelos. Espalhávamos pasta de fígado em grandes pães e bebíamos pelo mesmo copo uma laranjada que, de tão fria, gelava os dentes. Fumávamos um Ritz subtraído ao avô, olhávamos os frémitos juvenis da erva verdejante, os frémitos de velhice do colmo amontoado. O vento, carrossel de gaivotas, volteava por cima do nosso fascínio e do nosso lanche. 
Parece que foi ontem!

terça-feira, 22 de agosto de 2017

E eu ali tão perto


Puxou-me pelo braço para o recato do sofá da sala. Diminuiu a intensidade da luz e do telemóvel para o televisor deu inicio à projecção de alguns vídeos. Queria falar-me do seu primeiro festival de música. Senti-lhe a alma dilatar-se. Começa por mencionar o quão pequena se sentiu no meio de tanta gente. Gente boa, referiu. Depois, descreve-me detalhadamente um tempo que lhe agradou particularmente - o lazer e diversão na zona fluvial enquanto aguardava pela hora dos concertos, a pacatez da paisagem, a inquietude da espera que se afrouxava a cada mergulho nas águas escuras do rio. Recorda a emoção desse momento, reforça o estado de alma, descreve-me a qualidade da música e do ambiente rural circundante. 
-- Ouve a limpidez desta interpretação, dizia-me a cada música que atirava para o televisor. E eu a ouvir Sinatra nas introduções e Nina Simone nas notas mais altas.
-- Repara na interacção com o público e na fidelidade deste a cada nota, a cada verso. Um público convertido, salientou. E eu a ouvir Etta James em At last.
-- Repara na fragilidade e na sensibilidade desta figura imensa, dizia-me com embargo na voz. E eu a ouvir Billie Holiday a interpretar majestosamente o Summertime.
-- Para o ano se calhar vou voltar, preconizou. E eu ali tão perto. 

sábado, 19 de agosto de 2017

Dia Mundial da Fotografia

Ela aceitava a homenagem sem se comprazer. Eu procurava sem isenção o sulco entre os seus seios. E nem o meu olhar hipócrita a fez fechar as bandas do roupão. O portal entre os seus olhos e os meus abriu-se: tínhamos encontrado a liberdade de olhar e querer.

__Diz que temos tempo. Di-lo.

A noite resfriava os nossos lábios juntos. Abraçámo-nos mas não nos pusemos ao abrigo da grande maré das horas, mas a noite no pátio do varandim, a noite na cidade deserta desabaram sobre nós.

__Tenho medo do tempo que passa, disse.

Ouvi um sussurro de uma massa de luto. Eram os seus cabelos negros que ela atirava para trás. Tirei partido do intenso desejo de uma rainha descomposta.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Dança da chuva

Chego à sala de trabalho, ligo o computador, entro na caixa de correio e encontro um email atípico, recosto-me na cadeira e abro-o. As letras são grandes. Arial 16! As frases inseguras. Imprimo-o. Arrasto-me para a claridade do dia. A minha mente inicia um trabalho lento dentro da minha carapaça preguiçosa. O sol, apesar da minha sofreguidão, já não me tenta. O reflexo do céu já não consegue penetrar a minha pele tisnada, vozes doutorais e passos de calibre incerto ecoam pelos corredores, mas não têm a ressonância habitual.
Ó estações vindouras, dai-me os vossos farrapos. Fazei de mim um vagabundo de faces resfriadas pelo vento e de cabelos colados pela chuva. É o que vos peço. Depressa.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Canteiro


O olhar de Impontual, depois de ausência prolongada, pousou na paisagem de parede: nas solanum melongena e nas suas já abaçanadas beringelas, um infindo horizonte isento de terrores, sem problemas humanos, sem nenhum incidente causado pela natureza, sem slogans noticiosos, sem estandartes doutrinais, a confirmar que a Primavera escapou e que o Outono há-de vir quando ele muito bem entender.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Preia-mar


Estranho sentimento este de fim de tarde que por vezes nos invade; de estarmos simultaneamente vazios e cheios a transbordar, tão carentes quanto repletos.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Outra vez Carver



Lentamente, elas vêm vindo.
O céu começa a clarear,
embora a lua ainda paire sobre a água.

Tanta beleza que por um instante
a morte e a ambição, mesmo o amor,
não se intrometem nisso.

Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, na verdade,
de qualquer discurso sonolento.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Carver

Vem e conta-me um conto curto, vem e recita-me poesia, vem e diz-me que, como eu, tens medo. Medo de ter medo.


Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir à noite.
Medo que o passado desperte.
Medo que o presente alce voo.
Medo de não amar e medo de não amar o suficiente.
Medo que esse dia termine com uma nota infeliz.

Ou então, ajuda-me a contar as ondas. Uma a uma.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Bach: Partitas para Violoncelo Solo

A aurora estremeceu nos meus sonhos. Aflorei e voei sobre os seus ombros com as mãos fulvas de Verão. Com grandes dardos lancei a claridade no ar, abanei as caricias, criei desenhos com a brisa marinha, embrulhei de zéfiros os nosso peitos, possuía rumores de lume na palma das mãos. Como era fácil entrar. A carne palpitava, o odor cristalizava. O fermento, as bolhas, o pão. O vaivém não era servidão mas beatitude. Perdi-me no seu peito como ela se perdia no meu. Como sonhou a minha boca aplicada! Que casamento de movimentos! Estávamos reluzentes de luz. A vaga veio como um explorador, embebedou os nossos pés. Arrependeu-se. Houve umas nuvens escuras que se esticaram, uma escuridão que se propagou nos nossos calcanhares. Esse desabar de doçura acabou. Eu tinha os joelhos em cinzas. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Inquérito de Verão

O céu está encoberto de um cinza uniforme e a luz, difusa, faz os contornos das coisas parecerem em ebulição. Não sei se meta o cão de pêlo pardo no carro, ponha o Intermezzo de Mascagni nas colunas de alta fidelidade e vá dar uma volta de mar ao fundo, ou se fique aqui embrenhado nos Almada Negreiros?

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Toda a gente sabe que isto dos blogs é coisa de Inverno...

Um fim de tarde de um calor absolutamente inconcebível, as ondas verdes e espumosas num vai e vem enrolado, repetido, certeiro e demolidor, golpeiam as areias implacavelmente. Constança longe de tudo, incluindo de si mesma, escreve sobre o areal fino e dourado uma e outra vez uma só palavra, um mesmo nome, que as ondas se encarregam de apagar, ou se quisermos de limpar, repetidamente. Será uma questão de tempo para se saber quem ganhará esta batalha interminável, pensava. A luta não é desigual: as ondas são eternas, as palavras também, retorquía para dentro.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Que mania esta!


A de procurar sempre uma desculpa para adiar o momento de saber que o amor não é um pecado nem um milagre, mas um facto tão simples que explica, entre outros prodígios, os obscuros esplendores, os três tristes tigres, as florestas em chamas, os olhares perdidos, as cidades deixadas para trás, as árvores nos jardins, os mares e as secretas travessias, o movimento da terra, os paraísos, a transparência do ar, as paixões perdidas em tempo de cóleras, as flores ocultas da poesia e a história universal da infâmia no reino maravilhoso deste nosso mundo.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Previsão meteorológica para quatro manhãs. Eis a segunda.

Pra que me meteria eu a ver por onde ia a vida
que dei por onde ia
e não em meu favor!

Eu perdi a vez de ser simples,
perdi a vez feliz de ignorar
perdi a sábia ignorância,
perdi a graça de não saber.
Deixei passar a vez de ir na corrente
e de ser como toda a gente
às carambolas da sorte.


Eu perdi a vez de ser analfabeto,
esse segredo para não ser doutor
e para não saber também
o que as letras sabem
do mundo e de mim.

Eu perdi a vez de ser da multidão
(esta comodidade por mim perdida);
já deixei de fazer parte,
inteiro o destino me fez
inteiro a vida me tornou.

Os meus gestos metade são meus
e metade ainda da multidão.

Eu incomodo-me a mim-próprio,
é pequeno o meu corpo para mim!
Sou pior do que eu-próprio
ou eu-próprio não caibo em mim?

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Compósito.

Era sem duvida alguma uma mulher muito elegante, mas o seu rosto ao sorrir parecia ter sido construído a partir de uma série de pessoas diferentes. 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Bernardes Carvalhosa

Esta manhã bem cedo, depois de um abraço bem apertado e em menos de um café tomado ao balcão, Bernardes Carvalhosa dizia-me com alguma mágoa no sorriso sempre aceso que lhe é característico, que poucas vezes terá gostado de mulheres que não tivessem gostado de si. Que nem sabia se isso aconteceu alguma vez, porque geralmente as mulheres, quase todas, gostavam dele. Crê até que tenham gostado de si muitas vezes mais do que as que deviam, às vezes só as que não deviam. Mas que o que sempre lhe interessou não era a impressão que causava nas outras pessoas, mas sim a impressão que elas causavam em si. Que a sua vivência não é, nem nunca foi, apesar de tudo, uma vivência libertina, é uma vivência de sentidos. Mas que o seu problema - talqualmente o meu, diz Bernardes Carvalhosa - é quando se abrem portas entre as nossas e as suas bocas. 

Ainda agora, já para lá do meio-dia, embrenhado cá nos meus aborrecimentos profissionais, continuo a tentar recordar-me se aquele circuito Amesterdão-Berlim-Praga foi em 93 ou 95. Mas creio que foi em 93.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Chegado a este grau de amadurecimento...

 

...julguei bem já estar em condições de, de uma vez por todas, decidir qual destas canções é a da minha vida. Mas não. Ainda estou verde.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

As Quatro Estações para violino e orquestra

Esgueirou-se para dentro da cama. Tinha tido um arrepio. Ia ter calor. Encostou a cabeça ao ombro. Estendi-lhe o rosto. A mão banhou-me o peito do lado do coração. Recitava sonatas de Outono. Os dedos voltearam pela carne entusmecida deixando uma linha de fogo. De onde vinha aquela onda de calor? Desceu. Despiu o meu braço, parou junto da veia, à volta do sangradouro, desceu até ao pulso, até à ponta das unhas, tornou a vestir o meu braço com uma comprida luva aveludada. A mão passeava por entre o balbuciar dos montes brancos, por entre os últimos nevoeiros, por entre a goma dos primeiros rebentos. A Primavera que tinha pipilado de impaciência na minha pele explodia em linhas, em curvas, em arredondados. Beijava tudo o que tinha acariciado e depois, com a mão suave, despenteava e sacudia com a pluma da perversidade. O polvo das minhas entranhas estremecia. Eu bebia com ela, amamentava-me das trevas sempre que a sua boca se afastava. Os dedos regressavam, circundavam, sopesavam o calor do peito, os dedos acabavam no meio do ventre como destroços hipócritas. A sua face hibernou no côncavo da virilha, avistei os seus cabelos espalhados, avistei o meu ventre chovendo estrelas. Como a caricia é magistral! Os meus olhos fechados escutavam a língua que aflorava a pérola. Avançava, recuava, sufocava, zangava o polvo nas entranhas, perfurava a nuvem dissimulada, parava, voltava a partir, esperava junto das vísceras.

Voei, agarrei no bico os flocos de pura lã presos nos espinhos da sebe. Os meus beijos escorregavam uns por cima dos outros. Lancei-me nos escombros da ternura. As mãos tomaram o lugar dos lábios fatigados. Aprendi o aveludado da sua pele, o resplendor da sua carne, o infinito das suas formas. Subi. O céu mendigava. A mão pousou na minha cabeça: um sol tímido de Verão branqueou os meus cabelos. Alisei os seus.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Questiúncula

Como é que se explica a alguém (muitos), a grande diferença que existe entre ética de convicção e ética de responsabilidade: sabendo-se que a primeira nem sempre  é defeito?

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Grinalda

No adro o crepúsculo caía como o véu lhe caía sobre o rosto. Ela avançava, sorridente, amachucada debaixo das dobras do seu vestido de seda selvagem. Aquilo era a minha grinalda, aquilo era o rasgão no véu. Atrás, eu definhava, era fatal, a enorme cauda aumentava as estradas dos meus campos favoritos, o tempo agarrado ao relógio da torre da igreja fazia-se rogado. A brisa imprevisível entrou, acariciou as minhas faces, seduziu a minha memória. Estava consumado.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Poeta negro

Qualquer pessoa tem direito a descer, de forma vertiginosa e assustadora, ao patamar mais profundo da vida e por lá ficar, de olhos bem abertos num exame escuro, tempo suficiente para perceber o que vê, o que toca: o horror, a angustia e a permanente sensação primordial do medo de ser humano, de estar vivo, de ter que viver e dar vida, de ter de morrer. E depois voltar para cima e olhar o fundo do poço como quem olha as estrelas que pululam a céu aberto na noite de hoje.

Análise morfológica

Não há muito mais a acrescentar. Um verbo (fazer), dois pares de substantivos (floresta, incêndios, cidadãos, políticos) e dois advérbios, um de tempo (agora) e outro de negação (nunca).

terça-feira, 20 de junho de 2017

Psycho killer (epílogo)

(...)
Duarte estava agora a aguentar toda aquela cena, completamente virado para dentro, da mesma maneira que aguentava tudo. As palavras "ainda há pouco pedias a Deus por sinais" abriram caminho pela sua mente como grotescas enguias nadando em águas pesadas cheias de algas negras ondulantes, rodopiando e redemoinhando à volta umas das outras. Agarrou com firmeza o último copo, formando com ele uma dupla compacta: solitários, sofredores em silêncio, devoradores de vidas inconsequentes. Era difícil abandonar-se, render-se. No fim do dia tinha sempre vontade de dormir sozinho. Despiu-se e encheu a banheira. Ficou de molho durante imenso tempo, folheando umas revistas que nem teve o cuidado de não molhar. Bebericou as últimas gotas de bourbon que repousavam no fundo do copo. Na boca ficou-lhe um travo a chuva. Quando sentiu que a água quente tinha cumprido o seu papel, aliviando-lhe a tensão das pernas e concentrando-a no sexo, masturbou-se, arqueando o corpo no momento crucial para romper a água e ejacular para o ar. Para espanto seu, uma gota de esperma bateu na lâmpada pendurada no tecto, com um som crepitante, projectando uma sombra trémula e fugidia.

- "Deus queira que Deus não exista, Deus queira que Deus não exista", vociferou de olhos semi-cerrados



A convite/desafio do meu caro Miguel Bondurant, e não sei se agradeça ou peça desculpa, mas a quem deixo um forte abraço. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Trovoada seca

Funda, silenciosa, extensa e dinâmica, a tristeza umas vezes é presente outras já é passado. Hoje é cinza; ar turvo e poderoso, penetrado por densas partículas de fumo, estilhaços imaginários de fogo que furam a pele. Presente habitado por sombras, buraco que se afana no vazio. Hóspede indesejado que fomenta a impotência. Pesado tremor de incompletude, forte pontada no âmago. A memória não a conhece, mas recalca-a, depois tenta apaga-la. É nessa viagem, a demanda dos que sabem o que é a tristeza, que hesito desesperadamente em embarcar. Porém, hoje preciso ficar triste. Deixo-me na tristeza. Amanhã, vou ver se não.

domingo, 18 de junho de 2017

Modus Vivendi

Agora é hora de ajudar, não de arranjar culpados, a força da natureza é imensa e absolutamente destruidora. Depois, se quisermos encontrar responsáveis para tamanha tragédia, que ainda não acabou, teremos de ir muito fundo, mas muito fundo mesmo. Quiçá alterar todo um modelo de vida.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Estarolas

Toda a gente sabe que as pessoas dos blogs não podem ser amigos uns dos outros, porque as pessoas dos blogs raciocinam friamente, inteligentemente, logicamente. Não podem ser amigos uns dos outros, porque as pessoas dos blogs são irrazoáveis e ilógicas. Consequentemente, para serem amigos uns dos outros, deveriam ir ao encontro do terreno de uns e outros -  o terreno do ilogismo. E isso não é para todos. E não sendo para todos, logo não emparelham, logo não podem ser amigos todos uns dos outros. Mas, logicamente, podem divertir-se uns com os outros.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Da moleza da tarde

... e daquele encontro entre os corpos elevar-se-iam os odores frutados da vida. Salpicos de suco lubrificariam todos os (últimos) orifícios. Com os dentes morderia cada vinco da sua pele de carne crua. Enterrar-me-ia até ao fundo, escavando a sepultura que haveria de me conduzir às portas da perdição. E uma vez percorrido todo o caminho, afundar-me-ia no abismo untuoso onde tantos outros, antes, quiseram perecer. E no fim, bastaria que se apagasse um ou outro fio de memória.

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Pungente, doloroso e elegantemente aterrador. Assim foi Pessoa. Até no feminino.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Primavera Sound

Inclinou-se sobre aqueles dedos tépidos subindo até ao pulso com uma caricia imprudente que lhe despertou nos olhos uma surpresa, quase uma réstia de alarme.
-- Nunca imaginei que se pudesse seduzir uma mulher só a tocar-lhe na mão, disse-lhe umas horas mais tarde, já nos braços dele, enquanto o som da tarde quente de Primavera entrava obliquo naqueles aposentos soturnos.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Recalcitrância

Antes de florescer, o tempo é uma pequena semente. Um vulto. Principio de fruto. Um dia, sobe a seiva mesquinha, rompe o galho, surgem os estames, os pistilos soldam-se, abre-se a flor. Em menos de um fósforo desvanece-se a formosura. O tempo instala-se de novo. Cai a flor. A maçã anuncia-se amarela. Não é a mão, não é o vento quem a derruba. É o voo de um insecto na névoa, o sussurro da chuva sobre as folhas, o crepitar da terra que alimenta as raízes.

E agora vou ali ouvir com muita atenção o "life is long" e já volto. Porque - como diz o poeta -  não gastaremos o tempo ele nos gastará.

Encardido

Voltei aos jornais em papel. Compro-os, levo-os para casa, leio-os quando me apetecer. As noticias impressas chegam-me assim sem quaisquer preocupações de pontualidade, muitas vezes já apagadas, de modo que o papel amarelece ao mesmo tempo que os acontecimentos.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Pegada ecológica

Oiço noticias, leio especialistas e fico paralisado. Não creio que seja nostalgia, talvez seja raiva por aquilo que vamos perdendo. A beleza da terra é-nos quase indiferente, como o dinheiro a quem nasce rico, e no entanto faz parte do oxigénio que nos mantém vivos. Passa num abrir e fechar de olhos, o espaço de uma vida, mas a beleza é frágil, morre mais depressa. Para já fica assim. Ainda se respira. Quem vier a seguir que ponha a máscara. Ou que feche a porta. Está visto.

Tríptico



sábado, 3 de junho de 2017

Da problemática do copo meio cheio ou meio vazio


Quando alguém se abeira de nós e nos diz que só quer compartilhar connosco as coisas simples da vida. A que se referirá?

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Por causa daquilo dos pandas bébé



O que eu gostava mesmo era poder derreter uma série de blogs que têm dentro gente incrível e fundi-los num só. Que magnifico seria a profusão de conhecimento do Caríssimo Xilre à mistura com o humor refinado de Don Pipoco Mais Salgado, com o chá da Miss Smile, com a sensibilidade da desafiante Ana, da Susana e da Laura, com a poesia da Maria Eu, com o sentido corsário da Capitã Cuca, com a profundidade nua da Flor, com o altruísmo e a musicalidade do CN Gil, com a praia da Isabel, com a voz meiga da Noname, com o romantismo intermitente do Miguel Bondurant, com o sonho inacabado da Olvido, com as múltiplas faces e tentáculos do Manel Mau-Tempo, com os atalhos da Teresa, com a esquina da Luisa... com muitos, muitos outros. No fim chamar-lhe-ia "Mistifório".

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Pusilânimes?

Há gente cuja fisionomia muda por completo ao vê-las experimentar um sentimento vivaz, próximo do afecto. Talvez a indiferença se tenha tornado no seu território há tanto tempo e seja então um instante de emoção transparente que faz com que o seu olhar liquido não consiga encontrar as palavras que rasguem o silêncio e puxem o fio à conversa circunstancial. Ou então estão apenas a vibrar por questões rudes e pesadas de revoluções intimas em vez de se empanturrarem de incertezas. Ou então é apenas um talento natural que têm de confrontar os outros com a verdadeira medida da vida, esse talento miraculoso que as liberta das pusilanimidades que escomoteiam uma parte de si próprias. 
Não sei. Mas aprecio.

E tu, porque ainda insistes nisto dos blogs?

A cada périplo ainda enfrento dois sentimentos absolutamente complementares: a felicidade e a tristeza retardada. Numa primeira investida, impulsiva, sente-se desde logo uma vontade abrupta de extorquir o máximo de prazer da leitura de cada recanto, como se estivesse para se dar, a todo o momento, a sua delirante destruição. Lê-se tão depressa que parece que se fundem uns nos outros e não nos detemos para destrinçar o emaranhado de histórias que se vai formando a partir dos diferentes blogs. Acaba-se sempre por entrar neles, nuns coroando todas as cenas de amor e noutros abafando todas as tragédias. Às vezes acontece ao contrário.
Há gente que sabe desenhar e aplicar tinta e que consegue fazer dela o que quer. Tem olhos para captar e pintar as coisas simples e belas da vida: a luz matinal, a superfície de um espelho, o som de uma música erudita, a casca de uma maçã, a pele arrepiada, os olhos cintilantes, os ombros brancos e esculturais, peitos proeminentes, espíritos em ebulição permanente.
Outros há que, às vezes, a nuvem vai-se dispersando, deixando um ambiente consideravelmente desanuviado, mas dai a nada ali está ela, outra vez, espessa e cerrada à sua volta a relembrar-lhes que os laços que os ligam ao mundo são extremamente frágeis. E enquanto lá fora não pára de chover, a única coisa que os impede de tentar desaparecer uma segunda vez é o medo de falhar novamente. Até que um dia, assim sem motivo nenhum, lá acordam a sentir-se bem.
Como são admiráveis as pessoas dos blogs! Mas isto, como se sabe, é só isso mesmo - blogs. O mundo há-de ser aquilo que se vê daquela janela para fora.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Registo de propriedade

Que odeia mais a mulher? - O ferro dizia ao iman o seguinte: odeio-te porque tu atrais, mas não és suficientemente forte para me ligar a ti.

__Friedrich Nietzsche In Civilização e Decadência

                                                                                                                                   Gerhard Riebicke

Ninguém atrai ninguém, ninguém se atrai a si mesmo, homens e mulheres atraem-se entre si, moldados pela sobrevivência.

__Impontual, debaixo de um terrível sol de trovada de Maio.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Estava aqui hesitante entre a Serenata nº 13 em Sol maior para cordas e a Serenata Melancólica em Si menor para violino e orquestra...

O problema é continuar haver pessoas que acham que temos obrigação de ter consciência de tudo o que se passa em nosso redor. Esquecem-se, entretanto, que isso seria o mesmo que ouvir o dia nascer, a relva a crescer, a noite a cair, a lua a passar ou mesmo um coração distante a palpitar. E não. Não podemos estar acordados tanto tempo. Eu pelo menos não posso.

Acabei por optar por Schubert ao piano de Lang Lang, que dize(i)s?

Um domingo, uma chuva, uma cigarrilha...

As lágrimas são uma coisa misteriosa. A minha avó dizia-me antigamente que temos uns canais lacrimais para lavar os olhos que são máquinas frágeis e delicadas, mas ninguém sabe porque é que esses mesmos canais se põem a funcionar sozinhos quando estamos tristes. E não adianta perguntarmo-nos qual é a relação entre a tristeza e a água salgada. Embora valha a pena viajarmos pelos meandros da memória, vermos a maneira como a podemos enriquecer ou apagar, dar lugar à amnésia necessária para seguir caminho, não em direcção ao amanhã que esse nunca chega, mas ao dia seguinte.

sábado, 27 de maio de 2017

Escala cinza

Ao fundo, o mar está cinzento e liso como a curva das nuvens da mesma cor. Sento-me a observar as ondas que deixam escorregar, lentamente, as suas línguas estreitas ao longo do areal. Uma luz, ténue, de fim de manhã escapa sobre as densas nuvens negras, dardejando sobre a superfície da água, fazendo com que as ondas cintilem por uns instantes até que lambem as pedras e se tornam cada vez mais escuras, fervilhando pela areia pálida e saibrosa, desaparecendo.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Triagem de Manchester

Frases rutilantes. Ligações perigosas. Rupturas. Flexões. Locuções entusiastas. Sufixos indignados. Silabas em êxtase. Desinências em suspenso. Letras, sem cessar, que por muito que se saiba tomá-las fazem soçobrar. Ecoam e oscilam no além do espírito. Lá onde as palavras são umas bêbedas. É mesmo isso que somos. Perversos. Todos. Desde o nascimento, por assim dizer. Charlies.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Atalhos de vida

Casamento
uma série interminável de divórcios

Teresa Borges do Canto, no Atalhos de Campo

______________

Ou, silogisticamente, a união dialéctica pode comprovar que o contrário também é uma verdade sustentável?

terça-feira, 23 de maio de 2017

Mestrados e doutoramentos

O problema é que as pessoas, abnegadas que são, julgam que o amor se aprende da mesma forma que aprenderam o teorema de Pitágoras, a teoria da relatividade, as leis da termodinâmica e da conservação das massas, os movimentos da bolsa de valores e outras teorias sobre o estado do mundo. E por isso vivem intrigadas por esse rio grande - que é o amor - que parece inundar o universo, mas que não as irriga a elas. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Défice excessivo

Pousar o olhar sobre o outro, vê-lo tal como ele é e dar. Dar amor. Dar, recebê-lo. 
Dar, receber, dar, receber. Um vaivém muito mais perigoso que o acto carnal. Débito-crédito, crédito-débito, débito-crédito. Os números alinhavam-se ameaçadores. A divida amorosa é sempre exorbitante. 

sábado, 20 de maio de 2017

Poeta azul


O silêncio e os nossos corpos nus, um encostado ao outro, eis o nosso domínio, o nosso trono, o nosso reino de turquesa encantado.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Turba

O jornalismo mal-intencionado é hoje uma espécie de turba descontrolada, engrossando e espalhando-se, adquirindo força à medida que se vai disseminando. Apesar de ser impossível controlar por completo qualquer turba, todas precisam de ter o seu cabecilha. Quando o jornalismo mal-intencionado começa a espalhar-se com tal ousadia que chega ao ponto de manchar integridades sem olhar a quem nem a meios, os que são responsáveis pela sua propagação só podem ser pessoas que ocupam cargos de chefia. Que outra espécie de gente agiria desta maneira?
E fico a pensar como é que há directores a fazer, a propagar e a gerir jornalismo desta natureza. Se chegarão ao fim do dia satisfeitos, realizados com o seu trabalho? Se o mostrarão às esposas, aos filhos, às filhas universitárias com orgulho? 

terça-feira, 16 de maio de 2017

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Carmen

A sua dor não pára de aumentar ainda mais por se sentir tão sozinha num arquipélago lento onde tudo incita a partilhar o inefável, a respirar em conjunto. Como pode gritar o seu desgosto no meio de uma tal beleza, de uma tal abundância de flores? As Hortênsias, as Camélias, os Patalugos onde tudo é alegria, as cores saturadas das lagoas, todas aquelas Azáleas lavadas pelo sol falam de identidades, de âmagos recuperados, de horizontes disponíveis, enquanto ela sofre daquela solidão que asfixia os incompreendidos.  Perdida no paraíso da relutância, o matraquear surdo do absoluto chama-a a um encontro não estagnado do amor tecido com verdades perigosas, cheio de risos inacessíveis, a um infinito que desaparecera, a um sentimento desencorajado, ao escândalo da mediocridade.

Guronsan

"O dia é uma dádiva. Se nos der chuva, aproveitemo-la"

__ Salvador Sobral

sexta-feira, 12 de maio de 2017

E tu, qual é a tua versão favorita do Avé Maria ?

Enquanto fumo um Cohiba Behike na varanda entra-me uma música de fundo, alta, vinda algures da janela entreaberta da vizinha, uma fanática de Elïna Garanca, que hoje resolvera brindar-me com “Avé Maria" de Mascagni. Levanto-me e tomo um café, feito esta manhã, frio. Observo-a agora, tal como o café, mais a frio, mais distante.
Semicerrou os olhos, reclinou a cabeça ligeiramente para trás e deixou que no interior do seu corpo forças cegas se interceptassem, se rejeitassem e estrebuchassem até se incendiarem. Deliciosos horrores, grosserias de alcova jorraram então da sua boca como pequenas escórias da alma, cinzas incandescentes expulsas no momento da erupção. A noite, amante obediente, delicia-se agora com aquele ventre acetinado de mulher semi-adormecida.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Perfidus

A lascívia pode ser uma espécie de veneno que corroí a vida. Contudo, a partir do momento em que se compreende que essa mesma vida, pela sua natureza, não dura para sempre e não pode esperar, o veneno passa de uma tentação perigosa à promessa do renascer. Porque não, pois, erguer o copo e brindar? Eis o pensamento pérfido.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Outras vidas

Se eu fosse o Papa Francisco, e viesse à Cova da Iria, faria a minha humilde entrada nessa aldeia, desconhecido, e quase sem ser visto. Todavia, quando os peregrinos que se dizem na sua confissão religiosa, me começassem a conhecer, ficariam mais agradados com a minha presença do que o contrário, mesmo quando lhes dissesse que não era portador da reserva de carácter necessária para sossegar as suas consciências de puro sangue que, por esta altura, vivem agitados, bem como para proporcionar um apoio suplementar à raça mista que entrará na missa de manhã e circundará de joelhos a capela das aparições pela tarde. Mas não sou. E ainda bem.

Baptista-Bastos


In Colina de cristal

terça-feira, 9 de maio de 2017

Leituras

Quando me acompanhou à porta de saída, tive oportunidade de observar a sua figura. Possuía, obviamente, todos os encantos da juventude: leveza, esplendor e energia, mas faltava-lhe a sabedoria, a pátina, o saboroso trato dos quarentas. Acenei com a cabeça. É possível que não tenha conseguido ler-me, nem nos olhos nem no sorriso. Eu li-a de baixo a cima.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Bem dizia Cioran

A França, país que outrora nos mostrou o simbolismo, o impressionismo, o liberalismo, o estilo, os salões, os prazeres da inteligência, a razão, as pequenas perfeições e que sempre serviu como centro irradiador de tendências para o resto da Europa, hoje deu mais uma profícua instrução ao Mundo: - aprendam a ser infelizes, gentilmente.

domingo, 7 de maio de 2017

Bolachas de manteiga

Quando na porta à minha frente soava aquela leve pancada de dois toques e me deparava com uma mulher bem composta, de cabelo escuro, testa ampla e sensata, olhos que me aqueciam e um sorriso que no meio da noite era em si mesmo uma luz sobre a minha alma fruidora, que me perguntava numa voz musical, com uma expressão de doçura nas feições e abanando a porta atrás de si com uma das mãos:
- Sabes guardar um segredo?
- Como um túmulo! dizia eu com fervor.
- Acabei de fazer umas bolachas de manteiga!
...

- Não durmas tarde.

- Obrigado, mãe.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Onde está a verdadeira vida?

É esta a pergunta de um homem que teima em rejeitar as emoções aguareladas. O amor, longe de ser uma recriação, tem sido sempre o único pretexto válido da sua vivência, um dos raros ópios capazes de atenuar um insistente e alegre pessimismo. Apenas a irrevogável tendência para o sexo oposto o consola verdadeiramente. Prisioneiro dessa alegria oficial, durante longo tempo a geografia das suas necessidades, como se esse desejo essencial, juntamente com os seus ressentimentos, fossem os grandes mestres do amadurecimento.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Civilização do espectáculo

Quem sou eu, bem pesadas todas as coisas, para me armar em juiz impassível de uma civilização tão rica como a nossa? Acabaria certamente por ficar afogado em lugares-comuns. Na verdade, bem vistas as coisas, todas as civilizações assentam na ideia de que, de um lado, não há mais que uma horda vagamente humana e, do outro, os iluminados -"nós". O modo como se policia a fronteira entre civilizados e bárbaros pode diferir, mas todos a policiam, desde o Alasca à Tasmânia. No entanto há algo que distingue uma civilização de todas as outras que é, sem dúvida, a colossal e arrogante desumanidade com que policia essa fronteira.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Baleia azul

Fui almoçar à Galiza. Um daqueles bifes que vem naquela caçarola minúscula a transbordar de molho, e que se comem com o talheres em posição vertical. O bife era tão mal passado que ainda falei com a vaca. Claro que esparrinhou. Não havia de esparrinhar! Salpicou-me a gravata toda. Hoje pus gravata. No Porto também se come mal. Ou melhor, opta-se mal. Mas dizia eu, na Galiza as pessoas sentam-se na mesa dos outros como se não estivesse ali ninguém. Tocou-me uma mãe e um filho. A mãe não era velha. O filho já não era novo. Sorri-lhes. Comeram em silêncio. O filho espreitava o telefone inteligente a cada vibração. Desta última vez, a luz acendeu-se de um azul muito forte, era uma mensagem, não pude deixar de reparar: "eu amo-te e quero ser tua eternamente. Ass: Paulinha". O rapaz sorriu. A mãe deu um último travo no copo da água e disse: "as mulheres são serpentes - o que tens de fazer é despreza-las. E depois quando se sentirem desprezadas, amá-las apaixonadamente. Assim devem ser tratadas as mulheres. Não existe outra maneira, meu filho". Comeram rápido. Eu fiquei ali a falar com a vaca.
Agora, enquanto a gravata seca, sou capaz de ir tomar um gin, tónico, com muito limão.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Fumus boni iuris

Juridicamente, a partir de hoje os animais deixam de ser considerados coisas. Agora, é deixar de tratar as pessoas como animais.

sábado, 29 de abril de 2017

Dia Mundial da Dança

E quando a violência dos nossos corpos atravessar o canal da linguagem, passar para além das palavras, para além de tudo o que possam dizer as palavras, ocupar-me-ei do teu corpo, centímetro a centímetro, explorá-lo-ei, acariciá-lo-ei, farei jorrar prazer de cada poro da tua pele. Será a grande ocupação da minha vida: dar-te prazer... tratar-te como uma pequena rainha. Apenas ouvirás o roçar do meu corpo contra o teu, as gotículas de suor que rolam na tua pele, a minha boca que as vai sorver, que subirá à tua orelha e repetirá incansavelmente: "diz-me o que queres". Depois, enxaguarei o teu corpo dessa água que corre, dessa sede que jorra entre a tua e a minha pele, essa sede nunca saciada que encontra mil fontes novas em mil recantos escondidos no teu corpo espantado. Por fim deixaremos a beira-mar, os rochedos, a espuma suja das vagas, afogar-nos-emos naquela água salgada, lamber-nos-emos, respirar-nos-emos, ergueremos a cabeça para recuperar o folgo e partiremos para mais longe dançando no desconhecido caminho marítimo dos nossos corpos ...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Hemisférios


É difícil não esquartejar o tempo quando se reflecte sobre o passado, não o dividir em blocos de acordo com o padrão dos factos que mais nos marcaram, não lhe adjudicar poderes que em si mesmo não tem, não pensar nele como se a chegada de uma nova data tivesse capacidade para nos mudar radicalmente. E não desprovido de menos falta de sentido é o reflexo de um erro maior: o de se acreditar que mudamos de repente e não pouco a pouco, como se simultaneamente não pudessem influir em nós impulsos opostos. 
Somos tão tolos! Mas somos tolos só porque queremos?

Tríptico




In memoriam.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Povoléu

Era uma vez um país, numa época em que a maior parte das pessoas acreditava num qualquer género de universo em três camadas: havia o mundo sobrenatural, o natural e um qualquer lugar povoado por seres humanos. Uma espécie de vácuo nevoento e doloroso onde o Povoléu era a classe dominante. O seu nome do meio era Pobreza e o seu apelido Ignorância.Consequentemente, a sua única hipótese de felicidade estava na escravidão. Escravizem-nos, se for preciso, gritava silenciosamente o Povoléu, mas dêem-nos de comer. E assim, durante quarenta e cinco anos, foi sobrevivendo, matando a fome e passeando-se em ruas mal iluminadas onde ninguém o pudesse escutar - ouvia-se contar o que acontecia aos que erguiam a voz por uma outra liberdade -, mas o Povoléu nunca ficou muito perturbado com esse género de purga. Até que um dia deu-se a revolução de Abril e o Povoléu passou a viver livre mas acossado pela pressão social do sucesso, do poder, da riqueza, da família, da felicidade urgente, da expectativa... e de um mal-estar que lhe percorre o corpo provocando taquicardia, sudorese, respiração acelerada, boca seca, peso no peito, suor nas mãos, sensação de que o coração lhe vai sair pela boca...refém das suas próprias liberdades e sem saber como fazer a contra-revolução. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Allons enfants de la Patrie, Le jour de gloire est arrivé !

São cada vez menos os olhos que vêem o que está escondido. Olhos infelizes, haveis visto de menos! As linhas começam a ter um traçado pouco definido, os extremos tornam-se flexíveis; as cores do mundo esbatem-se e como que flutuam, ficam esbranquiçadas à luz e perdem a sua vitalidade. A sua camada fina distende-se, porque o Homem é frágil e débil, à semelhança da cidade que erigiu em seu redor. Calado avança decisões na noite das perguntas sem resposta. Tese dolorosa e empolgante esta a do Homem a quem o factor medo é necessário para justificar a sua culpa. Estas parecem ser as características do retrato da sociedade futuraDou graças por não estar presente para ver isso.

sábado, 22 de abril de 2017

Google Earth

Eu que também sou frequentador da terra, hoje ponho-me a olha-la de olhos cerrados e o que me é dado a observar de forma evidente, salvo raras clareiras, é o carreiro de formigas: anteontem era o holandês, ontem o busto, hoje as vacinas, amanhã não faltará o futebol e a politica para espraiar convicções.
Eu próprio tenho opinião sobre o holandês, sobre o busto e sobre as vacinas, sobre futebol, sobre politiquices e por isso ao fazer zoom com o monóculo sobre aquelas raras clareiras, questiono-me absurdamente se ainda será possível fazer deste quintal um jardim com outras plantas em lugar desta estufa de fruta em serie.