segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Se houvesse degraus na terra...

Josef Breitenbach

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

__Herberto Helder, "A faca não corta o fogo"

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Presépio

O céu estava intensamente escuro. O espaço repleto de incontáveis estrelas cintilantes. Gabriel pairava à frente dela, transpirado, desejável, atingível. Maria conduziu as mãos e depois a boca de Gabriel no seu corpo, mas já não eram as mãos e a boca de Gabriel, eram as de José, o seu José, o seu verdadeiro amor de sempre. Maria tinha prazer e retribuía, era José que a penetrava, era José que a mordiscava, acariciava, chupava, era José que rebolava na cama e foram José e Maria, Maria e José que caíram adormecidos, o tórax dele contra as costas dela, abraçando-a, as mãos a apertar os seios, as pernas viscosas de sémen e suor, entrelaçadas. Depois foram Jesus, Maria e José.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Apelo ao esforço poético

Minhas Senhoras e meus Senhores, passam os dias, passa o tempo. Sob o firmamento, tudo é mudança. Os nossos dias vão-se, correndo mais depressa que uma torrente. A fugacidade das coisas deste mundo convidam-nos a mais amizade, a mais fraternidade, a mais calor. É nesta ordem de ideias que o itinerante vem aqui ao vosso encontro perguntar-vos o que significa para vossas senhorias o Natal.

Vá, descontraiam-se. Vejo-vos tensos, como o mergulhador que sabe que não pode falhar a entrada na água profunda. Convém ser cortês com o mar, penetrar nele mantendo a cabeça bem direita. Semelhantes aos corpos que mergulham, os homens lançam-se no mundo e aí se abismam. Quereis uma musiquinha? Tomai e bebei deste magnifico hino natalício.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Aritmética Binária

O que é a minha vida? Pensa o itinerante. O que é a minha vida, interroga-se o residente. Ambos se abandonam a uma combinatória do virtual e do reflectido. Que movimento do acaso e das instituições os terá conduzido até ali?

sábado, 9 de dezembro de 2017

Bola d'ouro

Hoje não gosto de mim. E não sei se este momento é daqueles no qual o que não se diz tem tanta importância como o que se possa dizer. Se este silêncio tanto pode significar uma viagem reflexiva em busca da linha de sombra onde as dúvidas habitam, ou se pelas mesmas razões, é um périplo à procura do esquecimento, uma esperança minuciosa de que as certezas vão perdendo paulatinamente a razão de ser e sejam substituídas, como se tratasse de um sonho, pela paragem do tempo. 
Seja como for, não gosto de mim assim. Até lá vou jogar à bola com o cão de pêlo pardo. Bora Fiodor... bora.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Cidade de fora

Estamos em Dezembro, a cidade de dentro enche-se do folgo natalício e sussurra. Do lado de fora, o vento gélido, as árvores nuas, a névoa escura tudo é capaz de me excitar a pele. Deixo-me invadir pela aventura do tempo. O tempo vindouro, aquele que desculpará o tempo passado. O ar recheia-se de partículas imperceptíveis que penetram no corpo, os odores do rio e dos jardins, mini-estruturas orgânicas, a natureza a exportar os seus indícios. Salto fronteiras, encaminho-me para territórios sofredores, voo até à cabeceira das palavras, sem hora fixa, nem lugar privilegiado, onde as bocas falam e desejam revelar-se. Sou uma orelha ambulante, aberta ao rumorejo dos seres, onde os laços rompidos, a solidão e a miséria condenam ao mutismo. Pequenos enclaves onde se desenrolam sonhos e existências falhadas.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Obituário

Em Portugal, quando as pessoas morrem passam a ser uns santos que viveram na terra. 
Deferências!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Retratista

Estamos no fim de Novembro. Tenho de te pedir que venhas posar para mim. Sinto vontade de fazer novamente o teu retrato. Tens um belo cú, não há dúvida, e não há nada como um belo cú diante dos olhos para nos sairmos bem num rosto. Já te disse? É preciso passar a toda a velocidade pelas curvas do desejo, e somente em seguida consagrar-se àquelas onde recai o imaginário, os rostos. Vem.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Termóstato


Não posso ler ou reler Camilo que não seja com calor.  Além de que a leitura, enquanto veia jugular, é idílio de longo folgo e não é no sentir frio da consciência que ela encerra epopeias infinitas.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

...

Não vou agora contar a noite em que o amor se apresentou involuntariamente, direi apenas que fui seduzido pelas maravilhas existentes naquela sala: um candelabro com uma chama que ardia a óleo de madeira de sândalo e que projectava uma luz trémula e opaca nas paredes, iluminando os três Klimt que pareciam autênticos. De um lado o esquisso de "a masturbação feminina", do outro - lado a lado -  "o beijo" e "o abraço".  E também não vou contar se me terei deixado levar pelo momento em que a massa viva se satisfaz na intimidade ou se pelo momento do anseio arrebatado das permutas, por vezes provenientes de lugares fundos, remotos, inóspitos até. Mas posso contar que não devia tê-lo feito...

Jogas?


Eis as regras deste jogo que estou a inventar à medida que vamos andado. Nada de ter pena. Aliás, nada de comentários. Eu conto uma história e tu tentas contar uma ainda pior e depois eu tento superar a tua e por aí fora. Todas as histórias têm de ser verdadeiras. Tenta não exagerar. Começa.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A cidade, o mundo e a dor

Corredor de hospital, oitavo andar, secção F, serviço da enfermeira Amélia. Ali, a vida resume-se a duas palavras: sofrimento e desesperança.
Amélia, de bata azul e branca, distribui medicamentos. Olhares expectantes, meios-sorrisos, uma distracção, breve relâmpago do exterior que penetra no interior dos quartos. Amélia sabe-se mensageira, portadora dos rumorejos do mundo, como se a ela se atrelassem, aos seus cabelos ou à pele do rosto, os pequenos odores e partículas da cidade e do mundo, difundindo micro-organismos e miasmas que cada qual açambarca como pode. Por ora, é prenda urbana oferecida por Amélia. Para já não falar nos ansiolíticos, analgésicos e morfinas que lhes injecta nas veias.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Tríptico




Pode ser do género ópera, cançoneta ou peça de jazz, Händel, Piaf ou Mingus, o importante é a música que entra na cabeça, igual a uma recordação, e que se instala até suplantar o desassossego. Abram-se as portas do labirinto.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

omnia pro patria

Se não é o governo é o desgoverno, se não é a direita é a esquerda, se não é a demissão é a admissão, se não é o Panteão é a Agência Europeia do Medicamento, se não é o Outono soalheiro são os senhores da meteorologia que não fazem chover, se não é a carreira congelada é a carreira de estatuto automático , se não é o assédio é o pénis viral, se não é o Pinto da Costa é o Bruno de Carvalho, se não são as pedras da calçada é a alcatifa do hotel...

Sempre atrás das redes hertzianas, ligados por cabo, satélite e fibra óptica, quais atendedores automáticos de chamadas, mentes miserandas de sinapses de fraca carga, recolhendo os versículos do quotidiano onde o licencioso se mistura com a pequena luxuria e os tráficos de toda a espécie, uma pobreza sem bandeira, um submundo perdido dos lugares de fronteira, a cavalo entre o passado comezinho e o presente mesquinho.

Que puto de país! Que puta de gente!

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Linha editorial


Posso contar aventuras pessoais com um século, com um ano, com uma estação, com um mês, com um dia - o dia em que se viram as coisas estilhaçarem-se. Transformar em lenda o meu bairro, um passado, ou ainda uma vida que não seria vivida. Deixar-me dias a fio a ver, emudecidas, perpetrar-se as exacções nos ecrãs da minha sala ou de outras choças feitas de adobe por esse mundo fora. O corruptor que corrompe, o corrompido que mete ao bolso. Ficar impotente perante o que poderia ser e o que não é, a indigência das respostas, uma civilização que se vai perdendo. Saber isso, repisando-o, litanias lancinantes do quotidiano. Lançar-me no vazio, nomeando-me a mim mesmo o chefe territorial dos degredos do mundo. Sobreviver. Deixar o mundo ditar o seu descontentamento. Ouvi-lo, desgrenhado. 
Ou então inflamar a vida, pedindo ao mundo, com jactância, uma miríade de êxtases: sidera-me exalta-me, deslumbra-me, atordoa-me, e que isso não tenha fim.
Também poderia ser um encantador de serpentes. Em cima da cama uma maçã: "atentamente, a cobra".

Mas, não sei. Tenho de pensar.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Da tristeza que advém da polenta


«Estou triste porque passei o dia todo a contemplar pratos de polenta. Têm um aspecto tão monótono. Em tempos de jejum, não basta que um prato tenha uma aparência tristonha; também o gosto deve provocar tristeza. E que combinação é mais triste à vista e ao gosto do que a polenta de véspera, servida fria, sem adição de quaisquer outros temperos?» 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Se eu fosse uma mulher?

Evitar-me-ia. Porque eu sou um homem do momento, um homem que procura continuamente persuadir-se daquilo em que pretende crer, um homem cujas palavras há que rasgar ao fim de uns dias, sobretudo se forem grandiosas e definitivas, um homem que sempre quis e sempre quererá todas as mulheres, sim todas, para conhecer por elas a inteira verdade da vida e uma boa parte das figuras do que existe, para não se fechar, não se embalsamar num eu já definitivo. Nunca encontrei uma mulher que fosse todas as mulheres. 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

1951

 

O ano em que, muito possivelmente, Marlon Brando apalpou o rabo a Vivien Leigh nos bastidores de "Uma rua chamada pecado".

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Necromancia

Lá fora o ruído da urbe, cá dentro a presença atabalhoada das opiniões desordenadas. Tudo me impele para o interior dessas palavras, onde sinto que estão alapadas maneiras de viver e de pensar. Como desencantar a resposta, indago a mim mesmo, aquilo que calaria o bico a estes pequenos pretensiosos que se julgam bem-sucedidos. Bem-sucedidos em quê? É caso para perguntar.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

# Inteligência artificial

Ir ao encontro do mundo sem se ferir. Avançar nu, com uma pequena carapaça de ingenuidade moldada pela bruma, as palavras de uma língua que irão esburacar os ouvidos de uma outra língua. É disto que importa falar - não da ânsia de sucesso -, do tempo que passa, das erecções falhadas, voltar ao principio, ao agenciamento das coisas quando houve que erradicar as primeiras baforadas de infelicidade. O confronto com o outro, com a sua história, eis onde se aprende em situações extremas o nosso próprio valor e aquilo que, através dele, pode dar sentido à existência. O ser humano não se encontra a si mesmo senão com um outro ser, e jamais pelo simples saber estar lig@do ao mundo.
Nascemos engelhados, morreremos engelhados. Passar a vida armado em esperto e a tentar esquecer o axioma de base é uma burrice. Mas os tempos estão para @ssim.

sábado, 4 de novembro de 2017

Palomar


O Senhor Impontual tem sorte numa coisa: passa a maioria dos fins de semana num sítio onde pode plantar árvores. O Senhor Impontual gostaria de ficar a vida toda a ver as árvores medrar, e as árvores ali imóveis, caladas, mudas, surdas, cálidas e enchendo-se das cores da tarde uma e outra vez, até à brancura de um novo amanhecer, mas ainda não pode. O Senhor Impontual tem sorte ainda numa outra coisa: tem um pacto com o S. Pedro - portanto, tem quem lhe regue as árvores na sua ausência.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Pina


Como quem, caído de outras galáxias fora de si, tomba aonde sempre esteve, encontrando tudo nos mesmos lugares: o passado dentro do passado, o presente no presente e o futuro sem futuro.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Ainda sobre a desertificação do interior

Momentos antes de transpor a circular, enxergo pelo retrovisor uma fila de automóveis como que varridos pelo vento de altitude. Seguem lentamente para as pequenas localidades ao encontro dos cicios nos cemitérios, das genuflexões nas igrejas, dos odores e dos silêncios suspensos nas piras. Olho de novo o retrovisor e tenho à minha esquerda a via central livre. Desmarco-me. Não acuso o mundo desta espécie de cortejo da morte, deste culto aberrante da saudade e da tristeza a indiciar que os seus mortos possam gostar de exibições, ressequidas, de luto e dor. Os meus não gostam de certeza.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Desertificação do interior

É quando não fica ninguém capaz de escutar as palavras que exprimem os nossos desejos, as nossas esperanças, as nossas paixões? É isso?

Alerta amarelo

Cuidado. Podemos não estar preparados para as inundações. Oremos uns de cada vez.

domingo, 29 de outubro de 2017

Rückert

Acabo de despertar para este Domingo de cores douradas que me oferece mais uma hora... mas só me quero morto para os tumultos do mundo, repousar no silêncio e na música, abeirar-me do amor, perpetuar-me nesse paraíso que é a paragem espontânea do tempo.  

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Molenga

Estes meus ouvidos nocturnos são um queixume ininterrupto, onde se acumula o arfar dos bairros, o estralejar de camas, os suspiros pós-sincronizados de vozes e corpos sufocados, os ferrolhos que se correm em quatro pontos e bloqueiam as entradas. Uns ouvidos nocturnos que atravessam mares, margens de rios, ruelas e avenidas antes de tombarem na alcofa da noite. Se a caricia suave de uma mão sobre o granulado de uma auréola somente é audível para os amantes, o mesmo não pode suceder quando milhões despem e afloram, quando os saltos altos tombam estrondosamente dos canapés, quando as ligas estalam, quando as rendas e fitas da amargura estremecem, quando os corpos aos milhões produzem as idas e voltas molhadas do amor, quando outras tantas bocas se humedecem da saliva de uma outra boca, de uma outra língua, quando as fruições irrompem da noite e se apaziguam. Eu, que de ouvidos adestrados, sou um perito em localizar os decibéis amorosos do mundo e em misturar o tumulto dos motores de explosão mecânica dos prazeres, todas as noites escuto a banda sonora de um mundo invisível da qual gravo pulsões e respirações - qual estetoscópio avisado -, acordo com a sensação de que o amor anda um bocado parado. Não?

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Quitéria

Possuída pelos rancores intactos que acabaram por lhe roubar o sorriso, ostenta agora um olhar fugidio, um rosto fechado. À noite, muito ausente nos seus braços, ainda lhe vai fazendo a esmola do seu corpo, mas sem nada entregar de si própria. No leito, cheia de negligências apressadas, já não o arrasta para aquelas sessões que outrora os faziam arquear de volúpia. O amor físico atamancado, praticado com desdém, é a última ferida que lhe pode infligir, a sua maneira de o censurar por não ser mais homem. Sempre que ele se aplica a interromper aquele lento naufrágio, através de iniciativas funambulescas que satisfazem mais as suas prioridades que as dela, responde com dietas de silêncio, olhares ociosos que formam uma cortina. Patinha na proximidade longínqua, na recusa da lentidão, num atoleiro de egoísmos. Já não acredita nos seus beijos; murcha de decepção. Adúltera.

Sem legendas

sábado, 21 de outubro de 2017

Palomar

O Senhor Impontual marcou presença esta tarde na praça do município e, de pé, misturado na concentração humana que se foi formando lentamente, observou a superfície. O Senhor Impontual tinha conhecimento do objecto do ajuntamento. No entanto, a fim de evitar sensações vagas, procedeu à busca daquilo que se encontrava por baixo da sua superfície, levando em linha de conta os aspectos que estiveram na sua génese assim como os aspectos mais complexos a que daria consequentemente ensejo. O Senhor Impontual já sabia que prestar atenção aos aspectos faz com que estes saltem para o primeiro plano, invadindo o quadro, como em certos cenários diante dos quais basta que se fechem os olhos e ao reabri-los a perspectiva já mudou. As coisas nem sempre são como são, mas a sua superfície é inexaurível.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Moção de censura

Aos escribas que nas suas mãos direitas seguram as penas, e nas esquerdas os canivetes. Trabalham em silêncio e, por vezes, o único som que se ouve é o da sua respiração inconstante e o arranhar das penas no velino. Apesar da sua aparente elevação, a luz é ténue.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Doctiloquia

Era uma vez um país onde o povo estava perturbado pela tragédia, pela morte, pelo terror e os políticos perturbados pelo desejo por coisas, lugares e estatutos que não conseguiam alcançar e o resultado era o medo, a insegurança e a frustração. Não é assim?
Até que um dia o grande líder desenvolveu um medicamento que curava as pessoas do desapontamento e permitia que os homens, as mulheres e os políticos fossem felizes com o mundo que tinham.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Um post com mais de vinte anos

Primeiro foi um beijo que se prolongou no entrelaçar das línguas. Depois a mão direita a subir pelas costas em busca dos colchetes superiores. Outros beijos se foram perdendo no pescoço à medida que se desapertavam os fechos dourados. O qipao tombou aos seus pés, revelando um busto de belos seios firmes, uma cintura delgada, descrevendo uma curva suave que se alarga nas ancas e se prolonga harmoniosamente pelas pernas. Abraçamo-nos com outra intensidade.

(claramente alicerçado no conceito de deslumbre de D. Pipoco - O Mais Salgado)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sem foto pouco vale

Mas...hoje vi um pôr-de-sol maravilhoso. Foi na marginal de Moledo. Uma imensa bola de fogo tombando sobre o horizonte, ardendo lentamente até desaparecer lá nos confins do mar que era azul cobalto. Mais ao fundo, Sinatra interpretando majestosamente "Fly me to the moon".

Não sei se estão a ver?

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Trinta e um

Apesar de tudo ainda há quem se preste a tentar transformar, e isso é que é importante, um caso de corrupção e aldrabice numa coisa, se não extraordinária, pelo menos poética; que é o desempeno e consequente funcionamento definitivo e livre do sistema (judicial). 
Esperai sentados.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Na moleza da tarde: de Picasso a Pina, num ápice.

__O Acrobata - Pablo Picasso, 1930

Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,
nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
na ausência das palavras calar-se.

__Manuel António Pina, Todas as palavras, Poesia reunida 1974-2011

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A insustentável leveza

Passaram-se alguns dias. Mais concretamente cinco dias. Sei-o pela proeminência de um ou outro pêlo que se manifesta mais branco na minha barba. Ando nas nuvens. Em geral, quando as pessoas dizem que andam nas nuvens, querem significar com isso que a felicidade as torna mais leves, mas para mim é o contrário, é a indiferença que me torna leve, como um farrapo de nevoeiro em vias de ser queimado pelo sol.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

República

Não há nada como vir ao pôr-do-sol, quando as aves regressam aos ninhos para dormir. É o som do mundo antes do homem existir.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Demissão

Qualquer um chega ao ponto de querer lançar-se no vazio com um nó no estômago e uma generosa dose de má adrenalina cavalgando fugitiva pelas suas veias afora, mas como todos carecemos de instinto suicida apegamo-nos à segurança dos pés bem assentes na terra como último intento para determos essa ousadia. Acontece que, muitas vezes, precisamos de fazê-lo e sem pensar duas vezes, aproveitamos esses escassos segundos de valor e saltamos com tal ímpeto que chocamos contra o colchão, compartilhando-o com a nossa má sombra. Foi o que fez Passos Coelho - o obstinado.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Canícula

Quantas e quantas vezes a memória e a imaginação andam assim de mãos dadas. Quantas e quantas vezes competem entre si. A memória a apresentar-se real e sólida na medida do possível. A imaginação a bater as asas. A memória a inclinar-se para o conhecido, a imaginação a voar em direcção ao desconhecido. A memória a inspirar-me prazer e paz. A imaginação a fazer-me andar de um lado para o outro acabando por me enfraquecer.
Um dia, mais tarde, não precisa de ser já, ainda hei-de aprender a viver exclusivamente pela imaginação.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Se o Outono fosse meu...*

Começaria por mover-me dentro dela. Seria diferente de tudo o que experimentara até então. Ela abrir-se-ia a um nível não físico que aumentava a intensidade da sensação física dos corpos a moverem-se em simultâneo. Eu estaria consciente de me encontrar dentro dela, mas era como uma experiência extra-corporal. Numa palavra: comunhão.

* baseado numa belíssima ideia que vem daqui.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Então?

 Pawel Kuczynski 

Gente empenhada no bem comum, portadores da indignação partilhada, que  estais ali entre os brandos agitadores de rua e a pequena burguesia estabelecida, sofredores em silêncio, amortecedores da nação, donos dos votos oscilantes, já escolhestes o molho com que quereis ser comidos nos próximos quatro anos?

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Procrastinação

Continua a haver um ínfimo momento naquela música do Fausto, “Foi por ela", em que o desejo assume um determinado contorno, ganha forma e odor, voz e vida própria. Há um trecho de história que continua a acontecer ali naquele instante, naquela fracção de segundo e que eu sei perfeitamente qual é porque continuo a apanha-lo num voo planado, capto-o num movimento pendular e porque dele me continuo a escapar numa estúpida, por vezes absurda, diria mesmo irracional miscelânea de amarga e doce saudade. Só que depois o sol, esse, até nem me faz falta.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Hoje vesti um blazer azul marinho...

Mas... há gente que de manhã quando carrega no interruptor e o seu quarto se enche de luz, fica iluminada, alerta, electrificada, cabeça e corpo prontos a andar. Acordei, sou um génio. O seu cérebro enche o mundo e o mundo enche o seu cérebro. Têm o controlo e o domínio de cada parcela sua. São uma onda de luz instantânea, invisível e omnipresente, que se espalha sem esforço pelos recantos mais sombrios do universo, iluminando tudo, compreendendo tudo, sentenciando tudo e... todos.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Segregação

Deve ter sido o cabelo que primeiro captou a minha atenção - pelos ombros, desgrenhado, dourado-ambar, atraía a luz, capturava a luz, seduzia a luz, acolhia a sombra que se projectava no interior do compartimento à passagem pelas estações intermédias. Sentada na cadeira logo a seguir à janela com as costas direitas, estava uma visão, banhada pelo tom outonal que pairava no exterior, de uma mulher divina, capaz de me fazer abandonar os claustros. Depois, apoiada nos cotovelos sobre a mesa rebatível, a cabeça entre as mãos, vestia um vestido de algodão azul-água, sem mangas. Estava a ler qualquer coisa - algo demasiado extenso e pesado que abria e segurava com dificuldade, a ponto de nas pausas ter de fixar as páginas com a carteira de pele castanha. Buliçosamente, abanava as pernas debaixo da mesa. Não conseguia ver-lhe o rosto, mas o seus membros inferiores estavam destapados, bronzeados e numa proporção tão perfeita com o resto do corpo que até Teciano teria de os alterar, com receio de que quem admirasse a sua obra pudesse não acreditar. Levantou a cabeça, e depois aguardou um instante antes de voltar ao livro - "O Idiota" de Dostoiesvski, verifiquei -  numa espécie de competição consigo própria. 
Sem reservas, admito, fiquei enfeitiçado: puro desejo adultero. Um chuto numa artéria principal.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Isto acontece

Numa sociedade onde há pouco mais de setenta anos o pangermanismo deu origem ao movimento nacionalista, ao racismo cientifico, ao darwinismo social e ao anti-semitismo que viria a redundar no mais abjecto momento da história da humanidade: que foi o mais amplo genocídio em massa contra vários grupos étnicos, políticos e sociais a que a Europa e o Mundo alguma vez assistiram - recordo.

sábado, 23 de setembro de 2017

Outono


A maior parte das pessoas, à medida que vai amadurecendo envelhecendo, descobre que passou a vida a dar explicações, e arrepende-se disso, mas continua a fazê-lo.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Motel

Chegara a um ponto em que percebeu com clareza que se enganara em todos os infinitos conjugáveis. Por isso não lhe restava outro consolo senão aproveitar a dádiva. Seria uma ladra. Iria roubar todos os beijos, todos os cheiros, todos os sabores, todos os segundos, a rolha do champagne e até aquelas notas de piano lentas e cavernosas que se soltavam  pelos altifalantes incrustados na cabeceira da cama queen size.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Donne


Pois.
Sou três vezes doido, bem sei,
Por chamar-te até mim, por prometer-te o céu, e por cantá-lo
nesta prosa plangente.

sábado, 16 de setembro de 2017

Vintage

Voz acetinada pela fadiga, cigarro entalado entre as unhas já pintadas da cor do Outono, mãos finas e compridas, uma franja indefinida estendendo-se em leque sobre a testa, a alça do vestido preto descaída sobre o ombro arredondado. Incrivelmente perturbadora. Sem dúvida uma mulher muito sensual, impregnada de cansaço, lindamente marcada pelas rugas e confortada por alguns quilos a mais. Libertava uma força erótica tão perceptível, tão forte quanto o odor da casta de colheita tardia no seu perfeito estado de maturação. Um vinho das cotas mais altas. Tinto. Encorpado. Mistura de geleia de frutas negras e especiarias. Taninos doces. Um sorriso fleumático e uma certa filosofia.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Fileira

Há dias em que se acorda e parece que estivemos em centenas de lugares todos ao mesmo tempo: estações de caminho-de-ferro, aldeias longínquas, beira-rios, mares salgados. Todos esses sítios tinham nomes, mas não nos lembramos de um único desses nomes. Às vezes parece-nos um vasto prado que se confunde com o céu, outras vezes uma floresta sombria que se prolonga indefinidamente dentro da escuridão, e outras ainda uma fila comprida de pessoas, da qual algumas caem de vez em quando e são pisadas pelos outros todos. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Núpcias

Vaguear pelos meses em doces nostalgias, recusar durante longo tempo a ideia do amor e embriagar-se de amargura. Depois, sem se curar da recordação, descobrir-se diferente, mais vivo, longe das expectativas, interessado na pessoa menos cheia de certezas que sentia fremir dentro de si. Horas maravilhosas de solidão, uma espécie de lua-de-mel consigo mesmo. Uma verdadeira alegria interior a surpreender aquele desgosto que se julgava infinito, naquele momento em que as cores e as emoções ainda não foram devoradas pelo calor. Sentir o desejo de agradar a si mesmo, prelúdio ao prazer. Mergulhar em si próprio, rodeado por uma música interior, construir um abrigo e às vezes elevar-se para observar de longe. Sentir mesmo gosto em frequentar esse universo alargado de pessoa só, sem se atolar em delírios de desgaste lento.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Emulação

Enquanto a geração cabeça baixa tecla, posa, fotografa e volta a teclar fazendo chegar ao Mundo os seus mundos, faço um considerável recuo mental e dou comigo da idade deles, num tempo em que fervilhava em mim a mesma vitalidade que a borboleta deve sentir ao sair da crisálida. Em que o que queria era experimentar a embriaguez permanente que me permitia todas as audácias. Falar com raparigas, caminhar enlaçando-as pelos ombros, beija-las, acariciar os seus incríveis seios, introduzir a mão por baixo das suas saias perturbadoras e, quando a sorte me sorria, atingir realmente o fim, sentir a demasiado breve electrocussão que fazia de mim um homem e me autorizava, chegado o momento, a regressar a casa de cabeça erguida.

Por ora deixo-me com um pé no rio, um livro, dois de conversa para dentro, uma cerveja, a música no ouvido. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Cartilha Oligárquica

Demos graças a Deus por vivermos no litoral, termos nascido e vivermos no melhor destino europeu do ano com a piscina mais bonita da Europa e com a zona ribeirinha mais visitada... ou por actualmente morarmos no sítio onde a Madonna, a Bellucci e o Fassbender se andam a passear e onde os reformados mais ricos do mundo se querem fixar.
O que seria de nós se vivêssemos numa aldeia ou vila do interior, onde além de ficarmos sem tribunais, escolas, bancos, correios ou hospitais ainda corríamos o risco de morrermos assados, perdermos os nossos bens e entes queridos devido à incúria dos que vão governando e desgovernando o país, que ainda teriam a lata de dizer-nos também ser nosso, e que tivéssemos confiança nas instituições sociais?

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Temos então dois grupos

O primeiro grupo, que é extraordinário, é composto por uma espécie de iluminados que defende que a desigualdade de género está na paleta de cores e que por isso urge erradicar o rosa e o azul.
Depois temos um segundo grupo, que não é tão extraordinário nem tão original, que defende que na paleta de cores não há limites e que o vermelho não é uma cor una e por isso permite descrever todo o espectro de cores que vai desde o rosa chã ao azul celeste, mas que nós portugueses não estamos culturalmente preparados para isso. 
Einstein na sua rara genialidade dizia que "há duas coisas sem limite, o universo e a estupidez humana...". Aqui falámos especificamente de estupidez humana.

Naturalmente, há quem (muitos) por especial atributo possa pertencer aos dois grupos em simultâneo. Quem diz em simultâneo diz em menos de um fósforo.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pirose

O ressentimento é uma sopa espessa que se pousa nos lábios, passa pela boca e pelo esófago e vai ancorar-se no estômago. E por ali fica, em ebulição constante.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ponta-de-lança

Não há nada tão excitante como experimentar aquela sensação de ter alguém pela frente sem qualquer capital de ideias mas com os bolsos recheados de euros e, sem hesitar um instante, escrever na toalha que se encontra sobre a mesa uma cifra com seis zeros, provocatória - isto é quanto vale. Cobrir o numero com um risco e acrescentar: mas o projecto é seu. E depois com um impulso repentino, entrelaçar os dedos das mãos, pousar o queixo sobre elas e ficar ali a ver a seta já lançada a voar em direcção ao alvo com a certeza de que lhe imprimimos uma trajectória infalível, mas que ainda assim lá mais para o final do mês o nosso soldo terá uma variável de crescimento incompatível e os vencedores serão outros, os do costume, os palmadinhas nas costas.
É por isso que gosto muito de futebol, o único sector de actividade onde o operário ganha mais que o administrador.

domingo, 27 de agosto de 2017

sábado, 26 de agosto de 2017

Palomar

O Senhor Impontual desperta às oito horas da manhã de um Sábado com o intuito de regar o relvado, sequioso, vitima de seca prolongada. Estende a mangueira, abre a torneira da água e, no momento exacto em que esta jorra a primeira torrente, dos céus tombam lentos e sintonizados uns pingos grossos que por momentos se intensificam, desaparecendo. 
O Senhor Impontual, com o seu olhar invertido, contempla agora as nuvens errantes que se escondem atrás da colina. Mantém-se vigilante, livre de toda e qualquer certeza.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Graça Fonseca

A identidade tal como a mentalidade não necessitam de palavras. A identidade, porque o seu elemento é a dissimulação e a sombra. A mentalidade porque não tem de alardear as suas acções. De resto, tudo certo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Bóreas

Encontrávamo-nos no paredão junto à praia e não seguíamos para o areal, seguíamos para o prado para uma festa muito nossa. O vento de Agosto já baloiçava Setembro. Instalávamo-nos sob a mesma carvalheira, desembrulhávamos os nossos lanches enquanto o vento e a sua cauda de espaços entrava nas nossas bocas e assobiava nos nossos cabelos. Espalhávamos pasta de fígado em grandes pães e bebíamos pelo mesmo copo uma laranjada que, de tão fria, gelava os dentes. Fumávamos um Ritz subtraído ao avô, olhávamos os frémitos juvenis da erva verdejante, os frémitos de velhice do colmo amontoado. O vento, carrossel de gaivotas, volteava por cima do nosso fascínio e do nosso lanche. 
Parece que foi ontem!

terça-feira, 22 de agosto de 2017

E eu ali tão perto


Puxou-me pelo braço para o recato do sofá da sala. Diminuiu a intensidade da luz e do telemóvel para o televisor deu inicio à projecção de alguns vídeos. Queria falar-me do seu primeiro festival de música. Senti-lhe a alma dilatar-se. Começa por mencionar o quão pequena se sentiu no meio de tanta gente. Gente boa, referiu. Depois, descreve-me detalhadamente um tempo que lhe agradou particularmente - o lazer e diversão na zona fluvial enquanto aguardava pela hora dos concertos, a pacatez da paisagem, a inquietude da espera que se afrouxava a cada mergulho nas águas escuras do rio. Recorda a emoção desse momento, reforça o estado de alma, descreve-me a qualidade da música e do ambiente rural circundante. 
-- Ouve a limpidez desta interpretação, dizia-me a cada música que atirava para o televisor. E eu a ouvir Sinatra nas introduções e Nina Simone nas notas mais altas.
-- Repara na interacção com o público e na fidelidade deste a cada nota, a cada verso. Um público convertido, salientou. E eu a ouvir Etta James em At last.
-- Repara na fragilidade e na sensibilidade desta figura imensa, dizia-me com embargo na voz. E eu a ouvir Billie Holiday a interpretar majestosamente o Summertime.
-- Para o ano se calhar vou voltar, preconizou. E eu ali tão perto. 

sábado, 19 de agosto de 2017

Dia Mundial da Fotografia

Ela aceitava a homenagem sem se comprazer. Eu procurava sem isenção o sulco entre os seus seios. E nem o meu olhar hipócrita a fez fechar as bandas do roupão. O portal entre os seus olhos e os meus abriu-se: tínhamos encontrado a liberdade de olhar e querer.

__Diz que temos tempo. Di-lo.

A noite resfriava os nossos lábios juntos. Abraçámo-nos mas não nos pusemos ao abrigo da grande maré das horas, mas a noite no pátio do varandim, a noite na cidade deserta desabaram sobre nós.

__Tenho medo do tempo que passa, disse.

Ouvi um sussurro de uma massa de luto. Eram os seus cabelos negros que ela atirava para trás. Tirei partido do intenso desejo de uma rainha descomposta.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Dança da chuva

Chego à sala de trabalho, ligo o computador, entro na caixa de correio e encontro um email atípico, recosto-me na cadeira e abro-o. As letras são grandes. Arial 16! As frases inseguras. Imprimo-o. Arrasto-me para a claridade do dia. A minha mente inicia um trabalho lento dentro da minha carapaça preguiçosa. O sol, apesar da minha sofreguidão, já não me tenta. O reflexo do céu já não consegue penetrar a minha pele tisnada, vozes doutorais e passos de calibre incerto ecoam pelos corredores, mas não têm a ressonância habitual.
Ó estações vindouras, dai-me os vossos farrapos. Fazei de mim um vagabundo de faces resfriadas pelo vento e de cabelos colados pela chuva. É o que vos peço. Depressa.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Canteiro


O olhar de Impontual, depois de ausência prolongada, pousou na paisagem de parede: nas solanum melongena e nas suas já abaçanadas beringelas, um infindo horizonte isento de terrores, sem problemas humanos, sem nenhum incidente causado pela natureza, sem slogans noticiosos, sem estandartes doutrinais, a confirmar que a Primavera escapou e que o Outono há-de vir quando ele muito bem entender.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Preia-mar


Estranho sentimento este de fim de tarde que por vezes nos invade; de estarmos simultaneamente vazios e cheios a transbordar, tão carentes quanto repletos.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Outra vez Carver



Lentamente, elas vêm vindo.
O céu começa a clarear,
embora a lua ainda paire sobre a água.

Tanta beleza que por um instante
a morte e a ambição, mesmo o amor,
não se intrometem nisso.

Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, na verdade,
de qualquer discurso sonolento.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Carver

Vem e conta-me um conto curto, vem e recita-me poesia, vem e diz-me que, como eu, tens medo. Medo de ter medo.


Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir à noite.
Medo que o passado desperte.
Medo que o presente alce voo.
Medo de não amar e medo de não amar o suficiente.
Medo que esse dia termine com uma nota infeliz.

Ou então, ajuda-me a contar as ondas. Uma a uma.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Bach: Partitas para Violoncelo Solo

A aurora estremeceu nos meus sonhos. Aflorei e voei sobre os seus ombros com as mãos fulvas de Verão. Com grandes dardos lancei a claridade no ar, abanei as caricias, criei desenhos com a brisa marinha, embrulhei de zéfiros os nosso peitos, possuía rumores de lume na palma das mãos. Como era fácil entrar. A carne palpitava, o odor cristalizava. O fermento, as bolhas, o pão. O vaivém não era servidão mas beatitude. Perdi-me no seu peito como ela se perdia no meu. Como sonhou a minha boca aplicada! Que casamento de movimentos! Estávamos reluzentes de luz. A vaga veio como um explorador, embebedou os nossos pés. Arrependeu-se. Houve umas nuvens escuras que se esticaram, uma escuridão que se propagou nos nossos calcanhares. Esse desabar de doçura acabou. Eu tinha os joelhos em cinzas. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Inquérito de Verão

O céu está encoberto de um cinza uniforme e a luz, difusa, faz os contornos das coisas parecerem em ebulição. Não sei se meta o cão de pêlo pardo no carro, ponha o Intermezzo de Mascagni nas colunas de alta fidelidade e vá dar uma volta de mar ao fundo, ou se fique aqui embrenhado nos Almada Negreiros?

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Toda a gente sabe que isto dos blogs é coisa de Inverno...

Um fim de tarde de um calor absolutamente inconcebível, as ondas verdes e espumosas num vai e vem enrolado, repetido, certeiro e demolidor, golpeiam as areias implacavelmente. Constança longe de tudo, incluindo de si mesma, escreve sobre o areal fino e dourado uma e outra vez uma só palavra, um mesmo nome, que as ondas se encarregam de apagar, ou se quisermos de limpar, repetidamente. Será uma questão de tempo para se saber quem ganhará esta batalha interminável, pensava. A luta não é desigual: as ondas são eternas, as palavras também, retorquía para dentro.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Que mania esta!


A de procurar sempre uma desculpa para adiar o momento de saber que o amor não é um pecado nem um milagre, mas um facto tão simples que explica, entre outros prodígios, os obscuros esplendores, os três tristes tigres, as florestas em chamas, os olhares perdidos, as cidades deixadas para trás, as árvores nos jardins, os mares e as secretas travessias, o movimento da terra, os paraísos, a transparência do ar, as paixões perdidas em tempo de cóleras, as flores ocultas da poesia e a história universal da infâmia no reino maravilhoso deste nosso mundo.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Previsão meteorológica para quatro manhãs. Eis a segunda.

Pra que me meteria eu a ver por onde ia a vida
que dei por onde ia
e não em meu favor!

Eu perdi a vez de ser simples,
perdi a vez feliz de ignorar
perdi a sábia ignorância,
perdi a graça de não saber.
Deixei passar a vez de ir na corrente
e de ser como toda a gente
às carambolas da sorte.


Eu perdi a vez de ser analfabeto,
esse segredo para não ser doutor
e para não saber também
o que as letras sabem
do mundo e de mim.

Eu perdi a vez de ser da multidão
(esta comodidade por mim perdida);
já deixei de fazer parte,
inteiro o destino me fez
inteiro a vida me tornou.

Os meus gestos metade são meus
e metade ainda da multidão.

Eu incomodo-me a mim-próprio,
é pequeno o meu corpo para mim!
Sou pior do que eu-próprio
ou eu-próprio não caibo em mim?

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Compósito.

Era sem duvida alguma uma mulher muito elegante, mas o seu rosto ao sorrir parecia ter sido construído a partir de uma série de pessoas diferentes. 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Bernardes Carvalhosa

Esta manhã bem cedo, depois de um abraço bem apertado e em menos de um café tomado ao balcão, Bernardes Carvalhosa dizia-me com alguma mágoa no sorriso sempre aceso que lhe é característico, que poucas vezes terá gostado de mulheres que não tivessem gostado de si. Que nem sabia se isso aconteceu alguma vez, porque geralmente as mulheres, quase todas, gostavam dele. Crê até que tenham gostado de si muitas vezes mais do que as que deviam, às vezes só as que não deviam. Mas que o que sempre lhe interessou não era a impressão que causava nas outras pessoas, mas sim a impressão que elas causavam em si. Que a sua vivência não é, nem nunca foi, apesar de tudo, uma vivência libertina, é uma vivência de sentidos. Mas que o seu problema - talqualmente o meu, diz Bernardes Carvalhosa - é quando se abrem portas entre as nossas e as suas bocas. 

Ainda agora, já para lá do meio-dia, embrenhado cá nos meus aborrecimentos profissionais, continuo a tentar recordar-me se aquele circuito Amesterdão-Berlim-Praga foi em 93 ou 95. Mas creio que foi em 93.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Chegado a este grau de amadurecimento...

 

...julguei bem já estar em condições de, de uma vez por todas, decidir qual destas canções é a da minha vida. Mas não. Ainda estou verde.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

As Quatro Estações para violino e orquestra

Esgueirou-se para dentro da cama. Tinha tido um arrepio. Ia ter calor. Encostou a cabeça ao ombro. Estendi-lhe o rosto. A mão banhou-me o peito do lado do coração. Recitava sonatas de Outono. Os dedos voltearam pela carne entusmecida deixando uma linha de fogo. De onde vinha aquela onda de calor? Desceu. Despiu o meu braço, parou junto da veia, à volta do sangradouro, desceu até ao pulso, até à ponta das unhas, tornou a vestir o meu braço com uma comprida luva aveludada. A mão passeava por entre o balbuciar dos montes brancos, por entre os últimos nevoeiros, por entre a goma dos primeiros rebentos. A Primavera que tinha pipilado de impaciência na minha pele explodia em linhas, em curvas, em arredondados. Beijava tudo o que tinha acariciado e depois, com a mão suave, despenteava e sacudia com a pluma da perversidade. O polvo das minhas entranhas estremecia. Eu bebia com ela, amamentava-me das trevas sempre que a sua boca se afastava. Os dedos regressavam, circundavam, sopesavam o calor do peito, os dedos acabavam no meio do ventre como destroços hipócritas. A sua face hibernou no côncavo da virilha, avistei os seus cabelos espalhados, avistei o meu ventre chovendo estrelas. Como a caricia é magistral! Os meus olhos fechados escutavam a língua que aflorava a pérola. Avançava, recuava, sufocava, zangava o polvo nas entranhas, perfurava a nuvem dissimulada, parava, voltava a partir, esperava junto das vísceras.

Voei, agarrei no bico os flocos de pura lã presos nos espinhos da sebe. Os meus beijos escorregavam uns por cima dos outros. Lancei-me nos escombros da ternura. As mãos tomaram o lugar dos lábios fatigados. Aprendi o aveludado da sua pele, o resplendor da sua carne, o infinito das suas formas. Subi. O céu mendigava. A mão pousou na minha cabeça: um sol tímido de Verão branqueou os meus cabelos. Alisei os seus.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Questiúncula

Como é que se explica a alguém (muitos), a grande diferença que existe entre ética de convicção e ética de responsabilidade: sabendo-se que a primeira nem sempre  é defeito?

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Grinalda

No adro o crepúsculo caía como o véu lhe caía sobre o rosto. Ela avançava, sorridente, amachucada debaixo das dobras do seu vestido de seda selvagem. Aquilo era a minha grinalda, aquilo era o rasgão no véu. Atrás, eu definhava, era fatal, a enorme cauda aumentava as estradas dos meus campos favoritos, o tempo agarrado ao relógio da torre da igreja fazia-se rogado. A brisa imprevisível entrou, acariciou as minhas faces, seduziu a minha memória. Estava consumado.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Poeta negro

Qualquer pessoa tem direito a descer, de forma vertiginosa e assustadora, ao patamar mais profundo da vida e por lá ficar, de olhos bem abertos num exame escuro, tempo suficiente para perceber o que vê, o que toca: o horror, a angustia e a permanente sensação primordial do medo de ser humano, de estar vivo, de ter que viver e dar vida, de ter de morrer. E depois voltar para cima e olhar o fundo do poço como quem olha as estrelas que pululam a céu aberto na noite de hoje.

Análise morfológica

Não há muito mais a acrescentar. Um verbo (fazer), dois pares de substantivos (floresta, incêndios, cidadãos, políticos) e dois advérbios, um de tempo (agora) e outro de negação (nunca).

terça-feira, 20 de junho de 2017

Psycho killer (epílogo)

(...)
Duarte estava agora a aguentar toda aquela cena, completamente virado para dentro, da mesma maneira que aguentava tudo. As palavras "ainda há pouco pedias a Deus por sinais" abriram caminho pela sua mente como grotescas enguias nadando em águas pesadas cheias de algas negras ondulantes, rodopiando e redemoinhando à volta umas das outras. Agarrou com firmeza o último copo, formando com ele uma dupla compacta: solitários, sofredores em silêncio, devoradores de vidas inconsequentes. Era difícil abandonar-se, render-se. No fim do dia tinha sempre vontade de dormir sozinho. Despiu-se e encheu a banheira. Ficou de molho durante imenso tempo, folheando umas revistas que nem teve o cuidado de não molhar. Bebericou as últimas gotas de bourbon que repousavam no fundo do copo. Na boca ficou-lhe um travo a chuva. Quando sentiu que a água quente tinha cumprido o seu papel, aliviando-lhe a tensão das pernas e concentrando-a no sexo, masturbou-se, arqueando o corpo no momento crucial para romper a água e ejacular para o ar. Para espanto seu, uma gota de esperma bateu na lâmpada pendurada no tecto, com um som crepitante, projectando uma sombra trémula e fugidia.

- "Deus queira que Deus não exista, Deus queira que Deus não exista", vociferou de olhos semi-cerrados



A convite/desafio do meu caro Miguel Bondurant, e não sei se agradeça ou peça desculpa, mas a quem deixo um forte abraço. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Trovoada seca

Funda, silenciosa, extensa e dinâmica, a tristeza umas vezes é presente outras já é passado. Hoje é cinza; ar turvo e poderoso, penetrado por densas partículas de fumo, estilhaços imaginários de fogo que furam a pele. Presente habitado por sombras, buraco que se afana no vazio. Hóspede indesejado que fomenta a impotência. Pesado tremor de incompletude, forte pontada no âmago. A memória não a conhece, mas recalca-a, depois tenta apaga-la. É nessa viagem, a demanda dos que sabem o que é a tristeza, que hesito desesperadamente em embarcar. Porém, hoje preciso ficar triste. Deixo-me na tristeza. Amanhã, vou ver se não.

domingo, 18 de junho de 2017

Modus Vivendi

Agora é hora de ajudar, não de arranjar culpados, a força da natureza é imensa e absolutamente destruidora. Depois, se quisermos encontrar responsáveis para tamanha tragédia, que ainda não acabou, teremos de ir muito fundo, mas muito fundo mesmo. Quiçá alterar todo um modelo de vida.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Estarolas

Toda a gente sabe que as pessoas dos blogs não podem ser amigos uns dos outros, porque as pessoas dos blogs raciocinam friamente, inteligentemente, logicamente. Não podem ser amigos uns dos outros, porque as pessoas dos blogs são irrazoáveis e ilógicas. Consequentemente, para serem amigos uns dos outros, deveriam ir ao encontro do terreno de uns e outros -  o terreno do ilogismo. E isso não é para todos. E não sendo para todos, logo não emparelham, logo não podem ser amigos todos uns dos outros. Mas, logicamente, podem divertir-se uns com os outros.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Da moleza da tarde

... e daquele encontro entre os corpos elevar-se-iam os odores frutados da vida. Salpicos de suco lubrificariam todos os (últimos) orifícios. Com os dentes morderia cada vinco da sua pele de carne crua. Enterrar-me-ia até ao fundo, escavando a sepultura que haveria de me conduzir às portas da perdição. E uma vez percorrido todo o caminho, afundar-me-ia no abismo untuoso onde tantos outros, antes, quiseram perecer. E no fim, bastaria que se apagasse um ou outro fio de memória.

129



Pungente, doloroso e elegantemente aterrador. Assim foi Pessoa. Até no feminino.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Primavera Sound

Inclinou-se sobre aqueles dedos tépidos subindo até ao pulso com uma caricia imprudente que lhe despertou nos olhos uma surpresa, quase uma réstia de alarme.
-- Nunca imaginei que se pudesse seduzir uma mulher só a tocar-lhe na mão, disse-lhe umas horas mais tarde, já nos braços dele, enquanto o som da tarde quente de Primavera entrava obliquo naqueles aposentos soturnos.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Recalcitrância

Antes de florescer, o tempo é uma pequena semente. Um vulto. Principio de fruto. Um dia, sobe a seiva mesquinha, rompe o galho, surgem os estames, os pistilos soldam-se, abre-se a flor. Em menos de um fósforo desvanece-se a formosura. O tempo instala-se de novo. Cai a flor. A maçã anuncia-se amarela. Não é a mão, não é o vento quem a derruba. É o voo de um insecto na névoa, o sussurro da chuva sobre as folhas, o crepitar da terra que alimenta as raízes.

E agora vou ali ouvir com muita atenção o "life is long" e já volto. Porque - como diz o poeta -  não gastaremos o tempo ele nos gastará.

Encardido

Voltei aos jornais em papel. Compro-os, levo-os para casa, leio-os quando me apetecer. As noticias impressas chegam-me assim sem quaisquer preocupações de pontualidade, muitas vezes já apagadas, de modo que o papel amarelece ao mesmo tempo que os acontecimentos.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Pegada ecológica

Oiço noticias, leio especialistas e fico paralisado. Não creio que seja nostalgia, talvez seja raiva por aquilo que vamos perdendo. A beleza da terra é-nos quase indiferente, como o dinheiro a quem nasce rico, e no entanto faz parte do oxigénio que nos mantém vivos. Passa num abrir e fechar de olhos, o espaço de uma vida, mas a beleza é frágil, morre mais depressa. Para já fica assim. Ainda se respira. Quem vier a seguir que ponha a máscara. Ou que feche a porta. Está visto.

Tríptico



sábado, 3 de junho de 2017

Da problemática do copo meio cheio ou meio vazio


Quando alguém se abeira de nós e nos diz que só quer compartilhar connosco as coisas simples da vida. A que se referirá?

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Por causa daquilo dos pandas bébé



O que eu gostava mesmo era poder derreter uma série de blogs que têm dentro gente incrível e fundi-los num só. Que magnifico seria a profusão de conhecimento do Caríssimo Xilre à mistura com o humor refinado de Don Pipoco Mais Salgado, com o chá da Miss Smile, com a sensibilidade da desafiante Ana, da Susana e da Laura, com a poesia da Maria Eu, com o sentido corsário da Capitã Cuca, com a profundidade nua da Flor, com o altruísmo e a musicalidade do CN Gil, com a praia da Isabel, com a voz meiga da Noname, com o romantismo intermitente do Miguel Bondurant, com o sonho inacabado da Olvido, com as múltiplas faces e tentáculos do Manel Mau-Tempo, com os atalhos da Teresa, com a esquina da Luisa... com muitos, muitos outros. No fim chamar-lhe-ia "Mistifório".