sábado, 25 de março de 2017

Lei de Aldrin

As horas, sôfregas, cansadas da terra, das árvores e de mim deixam-se cair no horizonte, transformando o céu numa longa faixa de nuvens vivas que sangram lentamente. Depois é a noite que resvala agarrada à transparência do ar frio. Uma brisa ainda mais forte levanta-se fazendo rumorejar as copas mais altas dos cedros e quando chega ao chão já elas partiram. As horas. Caminham ao encontro da noite, olhos abertos à escuridão povoada de insectos e bichos rastejantes. Até agora, elas estão a deixar-me não de imediato, o que seria bastante penoso, mas através de uma amarga sucessão de separações. Numa determinada altura estão presentes e depois vão novamente embora, a cada viagem afastam-se um pouco mais do meu alcance. Não posso segui-las, e interrogo-me sobre onde é que elas irão quando partem. As horas.

15 comentários:

  1. Não vão a lado algum, morrem - nascendo outras que voltarão a morrer mas, antes disso, nos trarão alvoradas e crepúsculos e, entre uma e outra, estaremos nós.

    Tudo isso só porque muda a hora (Im)pontual ?

    :-))
    Boa noite

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    1. Boa noite, noname.
      Quer falar sobre a demanda das horas?

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    2. Sou boa leitora e melhor ouvinte (aquela coisa do vê mal tem ouvido de tísico) se me quiser falar dessa demanda, eu lerei com atenção, o seu ponto de vista, e não ficará sem resposta :-))

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  2. já nem me lembrava que muda a hora...que seca...
    boa noite Impontual

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    1. Não vai, acho que esta, repõe a verdade - quando diminui, é que não sei onde a guardam :-))

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    2. eu não sei nada de horas. sei que o tempo se molda com o coração.
      bom domingo Impontual

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  3. Tão belo este texto poético, Impontual.
    Sente-se mesmo assim, sentindo de verdade essa sensação de abandono, pelas horas que partem sem que se saiba para onde? Ou é apenas um deixar falar mais alto, e levar mais longe, essa maravilhosa veia poética que existe dentro de si?
    Fez-me lembrar "As Horas" e Virgínia Woolf, nessa apatia depressiva e interrogativa.
    Mas sabe? Eu gosto quando a hora avança. Já não gosto nada quando recua! Comigo, é tudo para a frente. Mas, pobre de mim, quem me dera saber escrever assim...Parabéns, Impontual, por esta bela Ode às Horas.
    Adorei.
    Tenha uma boa noite.

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    1. Maria Antonieta, boa noite.
      Sabe onde é o corredor da horas e dos dias perdidos? Diz que deambula por lá gente alegre. Sabe?

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    2. Sei. De quando em vez deambulo por lá e, paradoxalmente, não encontro horas perdidas.

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  4. É como a maré aquando fica baixa.
    Kis :=}

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  5. A hora, esta hora, não vai a lugar nenhum. Simplesmente fica em estado de estivação, até finais de outubro. :)

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