terça-feira, 21 de março de 2017

Se eu fosse cego amava toda a gente


Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemitérios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

__Almada Negreiros

13 comentários:

  1. Boa tarde, tudo que Almada Negreiros escreveu é profundo, é belo, dá a oportunidade de fazer duas interpretações.
    AG

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Múltiplas interpretações, diria.
      Senão repare-se no inicio do poema "Encontro":

      Que vens contar-me
      se não sei ouvir senão o silêncio?
      Estou parado no mundo.

      Boa tarde, AG.

      Eliminar
  2. Almada Negreiros foi um homem de inúmeros talentos!

    Beijinho
    (^^)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Absolutamente talentoso. Um agitador de modernidade desde sempre.

      Abraço

      Eliminar
  3. ...o "amor" vive na simplicidade do sentir.
    Beijo primaveril ;)

    ResponderEliminar
  4. E eu amei ter vindo aqui! O Impontual deu-me a conhecer um texto que eu desconhecia, que mais poderia eu almejar?
    Obrigada.
    Tenha uma boa noite.

    ( se hoje não estiver embirrento, posso deixar um abraço? )

    ResponderEliminar
  5. Este desenho é lindo. Fiquei-me a olhar para ele um bocado para ver se absorvia aquela sensação de tranquila intimidade. Mas há encontros que só se têm de olhos fechados.
    Boa noite, Impontual

    ResponderEliminar
  6. "A sesta" do mesmo Almada Negreiros da poesia. Um artista completo e muito à frente no tempo.

    Bom dia, Olvido.

    ResponderEliminar
  7. O pior cego, é aquele que não quer ver... mas provavelmente será feliz...
    Com os olhos abertos, a poesia e a beleza do mundo, esvai-se num ápice... é um facto!
    Um belíssimo texto, sem dúvida, muito à frente da sua época!
    Bjs
    Ana

    ResponderEliminar