quarta-feira, 19 de julho de 2017

Bach: Partitas para Violoncelo Solo

A aurora estremeceu nos meus sonhos. Aflorei e voei sobre os seus ombros com as mãos fulvas de Verão. Com grandes dardos lancei a claridade no ar, abanei as caricias, criei desenhos com a brisa marinha, embrulhei de zéfiros os nosso peitos, possuía rumores de lume na palma das mãos. Como era fácil entrar. A carne palpitava, o odor cristalizava. O fermento, as bolhas, o pão. O vaivém não era servidão mas beatitude. Perdi-me no seu peito como ela se perdia no meu. Como sonhou a minha boca aplicada! Que casamento de movimentos! Estávamos reluzentes de luz. A vaga veio como um explorador, embebedou os nossos pés. Arrependeu-se. Houve umas nuvens escuras que se esticaram, uma escuridão que se propagou nos nossos calcanhares. Esse desabar de doçura acabou. Eu tinha os joelhos em cinzas. 

7 comentários:

  1. Gosto deste texto.
    Boa tarde, Impontual!

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    1. Obrigado, Isabel.
      Hoje, o céu está pardacento. :)

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  2. Um sonho que acabou em pesadelo, Impontual?
    Andou a rezar? A amassar para fazer pão?
    Pronto, gostei!

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  3. Respostas
    1. De vez em quando ainda se vai acordando para dentro.

      Como vai, JT?

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  4. E Bach já serviu de banda sonora para tantos dos meus sonhos...

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