sábado, 14 de abril de 2018

Palomar


O Senhor Impontual passa as vistas pelas palavras do dia retendo, varado e com algum desalinho, a seguinte afirmação: "dos quandos e dos porquês"
As pessoas atravessam continentes para ir ao encontro de paisagens e de rostos. Batem com os pés inúmeros caminhos rochosos, trepam flancos de montanhas, navegam em rios tumultuosos, mares insuperáveis, botas de montanha, bicicletas, caiaques, barcos de grande porte, voos transatlânticos. Avançam, avançam inquietos com a intensidade da novidade. O novo, que grande alimento do ego, que magnifico ingrediente em resposta ao desejo de regalo sem fim, à excitação dos sentidos. Gastam-se energias e somas incríveis para deslindar o que se terá passado ali há quatro mil milhões de anos e ainda não se sabe o que pensa a pessoa sentada ao nosso lado, cogita.

O Senhor Impontual tem a expectativa de que hoje não chova.

11 comentários:

  1. Aí, choverá lá para o final do dia. Aproveite.

    ResponderEliminar
  2. Bem verdade senhor Impontual. Há mesmo quem percorra o mundo em busca de ver tudo e saber tudo e pouco ou nada sabe de si....

    Espero que a expectativa se concretize. Estou cansada de chuva e por aqui os campos já estão cheios de água.
    Seja como for, desejo um bom fim de semana!

    ResponderEliminar
  3. Espero bem que o S Pedro ouça as suas palavras. Entretanto, leia-me, kkkkkk :))

    Hoje:- Sou a flor que renasce na primavera.
    -
    Bjos
    Votos de um Óptimo Sábado

    ResponderEliminar
  4. «O senhor Palomar decide que, de agora em diante, fará como se estivesse morto, para ver como corre o mundo sem ele. Há já algum tempo que se apercebeu de que entre ele e o mundo as coisas já não correm como antigamente; se antes lhe parecia que esperavam ambos alguma coisa um do outro, ele e o mundo, agora já não se lembra do que havia de esperar, de mal ou de bem, nem porque é que este esperar o mantinha numa perpétua agitação ansiosa.
    Portanto, agora, o senhor Palomar deveria experimentar uma sensação de alívio, não tendo que continuar a perguntar-se que coisa lhe prepara o mundo, e deveria igualmente sentir o alívio do mundo, o qual já não tem de se preocupar com ele. Mas é exactamente a expectativa de saborear esta calma que torna ansioso o senhor Palomar.
    Em suma, estar morto é menos fácil do que perecer. Em primeiro lugar, não se deve confundir o estar morto com o não estar, condição que ocupa também a interminável extensão de tempo que antecede o nascimento, aparentemente simétrica da outra, igualmente ilimitada, que se segue à morte. De facto, antes de nascer fazemos parte das infinitas possibilidades às quais acontecerá, ou não acontecerá, realizarem-se, ao passo que, uma vez mortos, não podemos realizar-nos, nem no passado (ao qual pertencemos agora inteiramente mas sobre o qual já não podemos influir) nem no futuro que, apesar de influenciado por nós, nos permanece vedado. O caso do senhor Palomar é uma realidade mais simples, porquanto a sua capacidade de influir sobre alguma coisa ou sobre alguém foi sempre desprezível; o mundo pode muito bem passar sem ele e ele pode considerar-se morto com toda a tranquilidade, sem sequer alterar os seus hábitos. O problema é a modificação, não aquilo que ele faz, mas sim aquilo que ele é, e mais exactamente aquilo que ele é em relação ao mundo. Dantes, por mundo, ele entendia o mundo mais ele; agora, trata-se dele mais o mundo menos ele. (CONT.)»

    é bom ler o Sr. Palomar daqui :)

    ResponderEliminar
  5. roubei a transcrição aqui:http://assobiodasarvores.blogspot.pt/2009/02/como-aprender-estar-morto-italo-calvino.html

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O Senhor Impontual não sabe se deve concordar com o Senhor Palomar quando este invoca que prestar atenção a determinado aspecto faz com que este pule para o primeiro plano, mas vai fechando os olhos na expectativa de quando os reabrir a perspectiva já tenha mudado.

      Obrigado e um abraço.

      Eliminar
  6. Deixe chover, Senhor Impontual!
    Tomara que chova três dias sem parar. Só para ver se se aquietam e deixam de andar por montes, vales e montanhas em busca de emoções fortes. Calcem os chinelos, vistam o roupão de flanela...fiquem em casa, olhem para quem está ao vosso lado. Estendam-lhe a mão, perscrutem o seu olhar e se nele virem dor, dêem-lhe muito amor e tudo o que preciso for...

    :)

    ResponderEliminar
  7. Monsieur tem razão, isto é, emoção:)

    ResponderEliminar
  8. Passando a fim de conferir mais uma sedutora publicação.
    Pode não se gostar mas a chuva faz muita falta. Dá vida à vida.
    .
    *Mulher; Flores e Borboletas, em sintonia poética (Poetizando) *
    .
    Votos de um dia feliz.

    ResponderEliminar
  9. O interessante Sr. Impontual, é que muitas vezes até tentamos, falo por mim, claro, que dou muita importância a quem está sentado a meu lado, mas depois, numa dessas viagens, verifico que são caixas de Pandora. Todas essas pessoas a meu lado. Por mais anos que viva... nunca vou saber.

    ResponderEliminar