quinta-feira, 27 de junho de 2019

Coetzee, invertido

Primeiro o pensamento, depois o crânio: as duas partes mais duras do meu corpo.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Osvaldo

Do amor, almeja apenas os golpes, as contorções dos corpos, o prazer carnal que esquece logo que é saciado, as traições, as águas turvas e densas onde nada como um peixe ágil que produz bolhas de felicidade. Tudo o que mantém a distância e impede a reunião dá-lhe ardor, apetite. Os elogios, as palavras doces, as atenções, a ternura que jorra dum coração para outro, provocam-lhe uma repugnância petrificante. 

terça-feira, 25 de junho de 2019

Frontispício

O tempo passa pelas pessoas, mas o seu rosto reencontra-se sempre num vinco eterno. Os dias, as agruras, a fadiga, o encarceramento porventura, atenuaram-no, mas o essencial está intacto. O aspecto não é coisa que mude verdadeiramente. Há traços que as pessoas não perdem, que trazem consigo toda a vida, apesar do amadurecimento, apesar da deformidade, apesar das provações. Pode ser a doçura. Ou a infância. Ou a desgraça. Ou a culpa a perfurar o pensamento. Ou o áspero sorriso em silêncio. Mas está lá. Sempre. Para sempre. 
Há mais de dez anos que não via o Osvaldo.

sábado, 22 de junho de 2019

Solstício

©Jacques Henri Lartigue

(...)
uma fornalha, uma cavidade sofrendo dores até à cisão;
um vazio,
uma mulher, à espera de ser cheia
a luminosidade dos elementos, 
a corrente que avança! 
(...)

__William Carlos Williams,  Alguns rastos de "Paterson".

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Bernhard

... no fundo quero estar sempre onde não estou, exactamente de onde acabo de zarpar.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Cinéreo

Tudo nele é cinzento: o fato, a armação dos óculos, os olhos, os cabelos, a gravata, os sapatos. Por mais que me esforce não lhe noto o mínimo vestígio de uma outra cor qualquer. Fala e eu escuto. Nunca faz uma pausa de controlo para perceber se aquilo que está a dizer me apaixona de algum modo; está habituado a ser escutado. Não anda, pavoneia-se, não se senta, sobe ao trono, não telefona, a sua secretária marca os números por ele. 
Demora-se entre duas garfadas de comida requintada que saboreia com o ar contido do conhecedor exigente que reflecte sempre antes de se abandonar ao prazer das coisas. Deixa cair palavras, pomposo e lento. Sujeito, verbo, complemento directo, e uma série de subordinadas eloquentes. Ignora-me e continua a pontificar, limpando a comissura dos cantos dos lábios com o guardanapo de pano branco que, em seguida, coloca sobre a barriga arredondada. Estende o copo e faz o vinho rolar devagar na boca e atira: "aceita pegar no projecto nestas condições?"
Lancei-lhe um multicolorido "tenho de pensar". Certo de que hoje ele não ia aguentar o rotundo "não", cinzento como chumbo, que tenho para lhe deixar amanhã à mesma hora sobre a mesma mesa de pé de galo estilo inglês. Espero que não se coma pior.

sábado, 15 de junho de 2019

Contra-luz


Fatigado por uma semana inteira, sentir perfeitamente que esta informação de que poderá chover me proporciona uma onda de prazer, não deixando de ser embaraçosa, mas ainda assim deixar-me levar totalmente por essa emoção ambivalente. À minha volta a paisagem começa a desaparecer num crepúsculo precoce. Mordiscado pela sombra cinza suspensa num céu prestes a apagar-se na noite que chega inquieta e cuja negrura é a própria expressão das expectativas, dou comigo a pensar que ainda há quem saiba alumiar os outros enquanto outros não possuem, nesse particular, qualquer talento especial, e que isso também faz parte das coisas ocultas que ainda não sabia que sabia.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

1888-2019

Cento e trinta anos depois, "sentir continua a ser uma maçada."

Santo António Pequenino

Diz-me, sem hesitar, que o casamento é a forma mais difícil de se viver com outra pessoa. Faz desaparecer os enigmas da relação, junta aquilo que talvez nunca devesse juntar, compartilha coisas que não deveriam ser compartilhadas, vai emudecendo subtilmente os cônjuges porque as palavras vão perdendo o seu antigo brilho, o que anteriormente parecia uma ideia original acaba por parecer uma ideia mil vezes repetida, mais que sabida, velha, com o passar dos anos as pessoas começam a não se ver e já não se aborrecem, mas também não provocam fúrias entre si, nem paixões, nem há motivos para reconciliações. Já não há despedidas do lado de fora da porta, nem partidas de madrugada, nem beijos furtivos nas escadas. Deixa de haver ruas por onde se deambula à noite, a sonhar. Do casamento em diante os beijos tornam-se cada vez mais conhecidos e menos húmidos e aquilo que vem depois da noite é mais do mesmo do dia de ontem, acaba o amor louco, romântico, mágico e começa a rotina do papel higiénico e do pagamento das contas e faz-se sexo a pensar no que se há-de comprar para o almoço do dia seguinte porque o marido tem o colesterol alto e não come isto e aquilo... 
Senti uma espécie de pânico. Borges é que tinha tinha razão. "O casamento é um destino demasiado pobre para uma mulher".

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O acaso é intrigante!

Sempre me intrigaram as coisas que acontecem por casualidade. Não consigo deixar de me maravilhar perante as consequências de um encontro fortuito, um homem entra num café e vê uma mulher muito bonita e nessa mesma noite volta a encontrar-se com ela e, no dia seguinte, telefona-lhe e convida-a para tomarem um copo e acabam por se tornarem amantes. Ou um avião que não se conseguiu apanhar porque um despertador se avariou e o avião cai e morrem todos os passageiros. Não vos parece esmagador que algo tão improvisado como não acordar ou ir tomar um café possa mudar a vida inteira de uma pessoa? Assim, sem qualquer determinação?

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Feira do Livro

Aproximo-me do stand. A rapariga que está de pé atrás do balcão, folheia um livro, não se apercebe da minha aproximação. Observo-a sem que ela dê por mim. Gosto desta atitude das mulheres que viram distraidamente as páginas de um livro, que têm aquele ar falsamente concentrado, ausente do mundo, que tresvariam mais do que lêem, que vagueiam por onde nenhum homem está em condições de se lhes juntar, que são belas porque não estão arranjadas, que têm encanto porque não procuram seduzir, que são indefesas porque são desatentas.
No balcão ao lado, uma mulher - que me parece ser a gerente do stand, da editora - tenta atrair-me com o olhar. Só com o olhar. Os seus lábios mantém-se ostensivamente selados. Também se os entreabrisse, dar-se-ia pela peçonha nas suas comissuras. Detenho-me sobre o seu fácies estriado de rugas, o carrapito cinzento, a sua pele quase transparente onde finas veias azuis desenham formas monstruosas. Estou certo de que aquele ar de malvadez não veio com a idade, que tudo já lá estava no começo, que os anos mais não fizeram do que acentuar este traço do seu carácter. Ao lado dela, a tez fresca e rosada da rapariga acorda subitamente: "ai desculpe estava aqui a deitar os olhos sobre o "Eu Confesso" do Jaume Cabré. Já leu? Olhe que está barato". Não li, mas vou ler - retorqui.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Pintar Junho

Vem posar de dois em dois meses. Sempre no inicio do mês, sempre no inicio do dia, sempre a uma quarta-feira. Estamos em Junho e no ar paira a fragrância do jasmim, do alecrim, da madressilva e das mimosas. Os botões da catalpa rebentam nas árvores, parecendo estrelas, o seu perfume a leite-creme espalha-se delicadamente pelo ar. 
Estou impedido de lhe mentir. Tudo deve ser dito, posto na tela. Observo a sua cara bonita, os lábios tingidos de vermelho pelo refresco de framboesa, a tez diáfana pontuada de sardas, o cabelo ruivo e aquela espécie de esgotamento, esse estigma da vida, apesar de toda a sua frescura. Está imóvel na banqueta, impõe a si mesma essa inércia, essa anquilose. É patente. Usa as suas feridas com elegância, com desenvoltura. 
Na tela, deslizo o carvão pelo seu sorriso imperceptível. Na paleta, ensaio o carmesim que será o respingo nos seus lábios. Nada mais.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Chumaço

Nessa terra cujos céus eram límpidos, as madrugadas húmidas, as manhas frescas, e onde as silhuetas se dobravam contra os ventos ruins, tu era uma espécie de contra-mão, a prova de que a bruma não vence todas as resistências. Sorriso gratuito, franco, livre, quase involuntário, eras como um bálsamo. Assumias a expressão do triunfo.
A principio não falávamos. Havia somente o ruído dos nossos passos sobre o asfalto húmido, o sopro do vento da tarde que se embrenhava nos nossos pescoços; havia as nossas cabeças curvadas, os nossos narizes avermelhados, o frio dos corpos, a companhia muda do outro, a marcha silenciosa. E depois, sem que nada o deixasse prever, tu tomaste a palavra. Acreditei que irias fazer uma alusão ao tempo. Mas não, foi outra coisa, dessas coisas que não se dizem quando as pessoas não se conhecem, mas que contudo tu disseste, pois tu não eras uma mulher como as outras.
Disseste que eu era um homem como tu gostavas. Não era teu desejo deixar-me embaraçado, apenas tinhas necessidade de o dizer. Disseste que não tiveste de vencer uma única reticência, não tiveste que te conter. O que tu notaste antes de mais em mim foi o ar distante, a indiferença, a displicência. Não te terias aproximado de um homem que te tivesse cobiçado, que se tivesse exibido. Desses homens que trazem a virilidade a tiracolo.
Hoje pensei em ti. Fiquei com um alto nas calças.

"Fim - o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa."

[Agustina Bessa-Luís]