O Homem é frágil e débil, à semelhança da civilização que erigiu em seu redor.
Dou graças por não estar presente para ver o resto.
Há alturas em que a ausência é tão pesada como uma criança sentada sobre o meu peito. Noutras alturas, mal consigo recordar os traços exactos da fisionomia de quem me falta e tenho de ir buscar fotos que guardo em envelopes velhos dentro dos gavetões das cómodas. Os piores dias são aqueles em que, sem os procurar, os encontro nos sítios mais improváveis.
O tempo não cura nada, só fabrica cicatrizes... com uma habilidade sublime.
Como não admirar esta mulher?
Arrastada de forma vertiginosa e assustadora para o patamar mais baixo da dignidade humana e lá voltar, depois, de olhos bem abertos num exame escuro, perceber o que vê, o que toca: o horror, a angustia, a humilhação e a sensação primordial de justiça.
Acelerar, passar para o outro lado do rio e, já na margem das pessoas sem história, apagar alguns traços de memória e nada daquilo terá acontecido.
Sabes que um date correu bem quando, o Risotto de espargos não saiu no ponto, o Chardonnay não estava à temperatura certa, a agulha do gira-discos Denver saltou do "Glad to be unhappy" para o "Strangers in the night", te perguntam se preparas o pequeno almoço de amanhã.
Dizia a do tailleur preto, de bom corte, para a de cabelo preso que quanto mais se realçam as diferenças mais elas são usadas contra as mulheres, e em benefício dos homens. E que os homens se atêm mais aos seus ódios, aos seus ressentimentos do que as mulheres. E que é precisamente quando os níveis de estrogénio baixa nas mulheres que a sociedade considera conveniente aplicar-lhes uma terapia de reposição hormonal que mantém as fêmeas femininas, suaves, simpáticas e sorridentes, mas que a mesma sociedade considera anti-social ministrar ao homem, a envelhecer, injecções de testosterona - porque se o faz, ele sai por aí a violar mulheres e a esmurrar outros homens.
Parecia que tudo tinha desabado de repente. Não passara nem sequer um minuto que ele lhe batia e gritava violentamente e agora estava ali, teso e vazio, sobre o chão da sala. De pé, imóvel, encostada ao aro da porta abraçava a almofada e esperava que alguém aparecesse e rompesse aquele silêncio horrível. Quando chegaram todos e tentaram reanima-lo, deu um passo atrás em direcção ao corredor, apertou a velha almofada contra a sua cara, limpou a única lágrima que derramara e disse em voz baixa: "eu nunca te gritei, incompetente".
Um ano volvido, ao invés de aparecer para posar no local do costume, telefonou a sugerir que fosse a sua casa. Na falta sistemática do treino da fantasia, o proponente fica numa posição desvantajosa quando as picadas da saudade lhe estrangulam o gasganete. Então paga caro o desprezo pela ficção: é obrigado a fantasiar e não sabe como. A mim, apesar de só me ocorrerem cenas de péssima qualidade dramática, o simples exercício da recriação acaba por fascinar-me. A experiencia resulta excitante. Mas...algo mudou. Os vestidos dela riem, trocistas, no roupeiro. As almofadas cheiram a fêmea. A escova do cabelo tem forma fálica. Os champôs da banheira, os boiões de cremes, os frascos de fragrâncias leves, o gorro para o cabelo são cumplices mudos da mudança. As sandálias de camurça, caídas no corredor, não dizem em que pista dançaram na noite anterior. A madrugada fica mais funda. O uísque que sabe a chuva. O filme continua a rodar e os amantes bebem o molho do proibido. Amam-se sobre a alcatifa, sob o chuveiro. O proponente bate a porta. Assoma à janela, desvia levemente a cortina. Deixa-se cair na cama. Finge-se adormecida. À dor da partida junta-se a mágoa inconsolável de não ter imaginação.
Não percebendo que neste mundo já há demasiadas prisões sem grades de onde é muito difícil fugir: o cárcere da desconfiança, a ratoeira dos preconceitos, a cela da resignação, o calabouço da indiferença, a galé do desamor ou mesmo a masmorra da solidão.
Se as pessoas do Twitter abandonassem o frontispício caligráfico: "Crónicas das Minhas Conquistas" e escrevessem mais sobre o Amor, talvez o dono daquilo tudo trespassasse o tasco.