quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Parlenda

A televisão. O país. O Mundo. A dissecação de uma pandemia. A queda da civilização livre. A falsa justificação da responsabilidade. A confrontação entre um certo tipo de destruição e de ascese. Palavras, palavras e mais palavras.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Cratera Jazero

A escuridão dos céus serve de cenário ao corpo a corpo. Jogam, fazem tenção de tudo, já. Ele persegue-a, empurra-a, levanta a saia, retira o que estorva, espanta-se silencioso da pele suave das nádegas, atarda-se, prova com os dedos o acetinado, ela puxa a sua cabeça para entre as coxas, ele obedece à determinação, coloca as mãos atrás das ancas, oscila a cabeça, aplica-se com doçura, ali onde tudo está à flor de tudo, avança sem forçar, afloramento, saliva e humores amalgamados. Ela cala-se, de olhos fechados, pensa na terra que se esvai para os confins do universo, foguetão projectado no firmamento, espera, ri-se, emociona-se, goza cada segundo, o tempo estira-se, a luz brota por todos os lados. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Janela edénica

Passam os dias, aprendes a pandemia, aprendes as doenças da liberdade e da falta dela, aceitas a honra do exílio. Observador atento, perscrutas o céu, o horizonte vazio, a lenta cronologia das horas, os rabiscos gigantes das nuvens. Na cabeça, palco dilatado, frases sarcásticas sobre inoculação em massa não devem ser pronunciadas com ligeireza. Estás vivo, dizes de ti para ti mesmo, no presente vivo, e não no passado vivo. Parou de chover, acolhe-te a tarde serena. Uma quietude hospitaleira, sem pensamentos nem perguntas, apenas a magnificiência do dia cinzento. O presente, ou seja, aqui e agora.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Entrudo

A aparência é a forma que Amélia encontra para que as outras pessoas não a vejam. Não adivinhem o seu mal-estar interior. Por isso criou para si mesma um personagem alegre, voluntário, enérgico, simpático, pimpão, sempre pronto a dar o exemplo, a dobrar-se à vontade de uns e outros a fim de afastar os raios que sente sempre prestes a brotar. O seu corpo contorce-se numa roda endiabrada, a sua boca deforma-se em sorrisos automáticos, os seus braços desenham anéis que lança em volta do pescoço daqueles cujas tempestades receia. Ignora a sua cólera, a raiva que a invade contra aqueles que se dilaceram diante de si. O tempo de um armisticio. Aprendeu a intervir como um bombeiro apressado, atirando baldes de bom humor sobre os rostos em chamas. Representa tão bem aquele personagem em perpétuo movimento, receando que se instale uma calma ameaçadora, um silêncio perturbador entre duas feras à espreita, degenerando em gritos, insultos, lágrimas, envio de projecteis e depois um bater de portas.
Amélia sabe misturar humor, folia e dor com uma extraordinária simplicidade.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Valentinos

Nenhum amor é perfeito. Mas a perfeição também é sempre detestável. Aquilo que adoramos mesmo são os defeitos.
A questão é: de todas as falhas, qual é que amas em especial?  E dizê-lo, dizê-lo devagar e em silêncio para que o possamos apreciar juntos durante a longa noite.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Palomar

O Senhor Impontual, um homem vencido pela contemplação e que nunca gostou de páthos, que sabe que todas as honras e as palavras elogiosas com que nos cobrem não passam de palha e que o que permanece é a voz destituida de ambiguidade, esperteza ou ironia, a voz herdada dos tempos vividos. Essa é a voz autêntica. Os disfarces e os artifícios não passam, afinal, de uma roupagem provavelmente necessária para cativar o ouvido, mas não são o essencial. O essencial grava-se no corpo e não na memória. As células do corpo lembram-se melhor do que a memória que foi feita para recordar. O Senhor Impontual gosta da contemplação porque esta não o sujeita a qualquer geografia estática. Mais ainda: permite-lhe alargar os seus limites ou elevar o objecto às alturas. Sem que para tal tenha de dizer uma única palavra. 

O Senhor Impontual esta manhã rompeu o confinamento e foi olhar o mar de perto. Era um mar plúmbeo, agitado, coberto de nuvens grávidas. Tão bonito, tão azul...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Escala cinza



Hoje abriu uma nesga de sol. Enquanto faço uns rabiscos em escala maior e nos ouvidos tenho os The Cure com Lullaby, reparo que o casal de pombos voltou à tangerineira. Já tinha dado conta da chegada do pombo macho. Esteve por ali durante uns dias, só, calado, mudo, cinzento. Hoje, pela aurora, chegou o outro - a femea. Penugem luzidia. Igualmente cinzento. Cabeça bem levantada: eu sou a saudade toda-poderosa, deves tremer diante de mim, dar-me tudo porque sou insaciável, um ogre, um vampiro, uma assassina em serie de felicidades confessadas e anunciadas em voz baixa
As suas cantorias ainda são vãs e inábeis. Tentam elevar-se à altura da sua catedral, mas apenas conseguem volitar uns sons guinchantes e ocos, escarrados por goelas fatigadas. O silêncio e os seus corpos cinzentos, um encostado ao outro, monogâmicos, eis o seu dominio, o seu reino encantado onde inimigo nenhum conseguirá penetrar.
Entretanto apareceu o arco-iris.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Maiores e vacinados

Sempre atrás das redes hertzianas, ligados por cabo, satélite e fibra óptica, quais atendedores automáticos de chamadas, mentes miserandas de sinapses de fraca carga, recolhendo os versículos do quotidiano onde o licencioso se mistura com a pequena luxuria e os tráficos de toda a espécie, uma pobreza sem bandeira, um submundo perdido dos lugares de fronteira, a cavalo entre o passado comezinho e o presente mesquinho. 
Que puto de país! Que puta de gente! Era os alemães enviarem também a Gestapo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Do livro da sabedoria

Depois da violencia dos nossos corpos atravessar o dique da linguagem, passando para além das palavras, para além de tudo o que possam dizer as palavras. E então só se ouvir o roçar da minha pele contra a tua, as goticulas de suor que rolam da tua pele para a minha, a tua língua que vem lamber essas mil goticulas, que sobe à minha orelha e repete incansavelmente: quero-te, já.
Depois de me pôr de joelhos entre as tuas pernas e enxugar o teu corpo dessa água que corre, dessa sede que jorra entre a tua pele e a minha, essa sede nunca saciada que encontra mil fontes novas em mil recantos escondidos dos nossos corpos espantados.
Depois de deixarmos a beira-mar, os seixos, os rochedos e andarmos à deriva na espuma suja das vagas, afogarmo-nos naquela água salgada, lambermo-nos, respirarmos, erguermos a cabeça para recuperar o folgo e partirmos para mais longe no desconhecido caminho maritimo dos nossos corpos, curto e cheio de tédio será o tempo das nossas vidas sem rememoração.