sábado, 26 de maio de 2018

You'll Never Walk Alone

Que o destino tenha sempre aquela singular preferência pela repetição. Não sei se é o destino ou a natureza. A vossa natureza. Mas deve ser por aí que se explica a curiosa persistência no ontem: o passado a voltar sempre como presente. Quantas e quantas vezes como futuro. Assim seja mais logo à noite.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

De Ingres a Pomar, num ápice

Pele branca e resplandecente de mulher deitada em sofá de tecido aveludado. O silêncio quebrado pelo som da sua respiração suave e compassada. Devagar, em movimentos brandos, deixar os dedos deslizar pelas suas costas, contornando os ombros, descendo pela linha da coluna até às nádegas arredondadas de odalisca, onde pousar os lábios em beijos repetidos até senti-la estremecer. Vê-la voltar-se, devagar, ainda entorpecida pelo sono e sorrir. Excitado pelo corpo nu e quente, beija-la na boca, sofregamente, as mãos à solta pelas curvas dos seios, pelo baixo-ventre, entre as coxas, acariciando, esfregando, penetrando…

Ela

Entre um “nunca” e um “quem sabe”, via sempre um fio de esperança. Era aí que se apegava. Com devoção. Como faz a jibóia ao abraçar a sua presa. E ainda hoje, já depois do tempo, não quer deixá-lo ir até que os seus lábios moribundos lhe sussurrem ao ouvido: “quero-te”.

Evocação

"Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso - estão com sorte." 

Philip Roth, in "Pastoral Americana"

terça-feira, 22 de maio de 2018

São as flores do meu jardim

Naturalmente, detalhar arbitragens intimas e obscuras deixará a quem não nos conhece a sensação de que somos, no mínimo, estranhos; mas não somos mais que os homens e as mulheres que, do Porto a Sidney, ziguezagueiam todos os dias entre os seus receios. Os seres humanos são assim, hábeis em dissimular as restrições invisíveis que criam, a calar os precipícios irreais que o seu espírito doente lhes faz ver, de tal forma estão convencidos de que existem as impossibilidades em que acreditam. Nesse aspecto, sou uma pessoa vulgar, penetrada por demências não inferiores àquelas que dominam a espécie no seu conjunto. E depois?

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Locução

"Burro"!
Não há palavra como esta para se vociferar para dentro. "Burro". Que sonoridade!
Provoca uma implosão interna dos sentidos, depois induz um sono profundo e restaurador. Não tem contra-indicações. Não deixa ressaca. Embora não elimine a causa da insónia. "Burro". Que palavrão!

Património

Perdeu-se hoje, talvez, a maior reserva moral deste país. 
António Arnaut (1936-2018).

sábado, 19 de maio de 2018

Palomar

O Senhor Impontual, homem impaciente e pouco dado a este tipo de acontecimentos, não pode deixar de indagar sobre a importante temática que envolve o casamento do Valete britânico.
Mas não lhe basta indagar por indagar, fruir da beleza envolvente, da azafama televisiva  que assaltou o mundo e todo o seu glamour. É necessário compreender os aspectos complexos que concorrem para que assim seja. Se não fosse esta sua impaciência por alcançar conclusões definitivas, o tomar conhecimento destes eventos seria para o Senhor Impontual um exercício muito repousante e poderia, inclusive, salvá-lo da neurose que é estar retido em casa com uma forte constipação à conta de uma magnifica aragem marítima que tomou a noite passada. Agora assim, talvez depois da sesta o Senhor Impontual volte a terras de sua majestade - desta vez a Wembley.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Não olvideis a recuperação da espada*

A mente a vibrar - uma corda -, as palavras, tal como as ideias, a ressoar entre si, harmonizando-se, amplificando-se, desunindo-se. Velocidade, tempo real, tudo pulula de toda a parte no único fito, não confessado, de tentar o desprendimento: já não ser, já não fazer parte, aniquilar, aniquilar-se, experimentar ainda uma vez e outra os corpos, a sua resistência, ir à beira do abismo, admirá-lo e, como se a terra estivesse a cessar de existir, lançar-se nele para saber uma e outra vez, quiçá uma derradeira vez, o que será um fim em beleza. Acolhendo-o, cadáver irremissível. Recolhendo-a, baça e ímpia.

* claramente baseado numa ordem de uma capitã de mar e terra.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Não sei se já tinha dito isto?

Ter um tipo a presidente de um clube grande, como é o Sporting, mais fanático que o mais boçal dos adeptos é um perigo à solta.

Acho que já. Já de certeza. Absoluta.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Falsete II

Agora de regresso, e ao encontro da noite, olhos abertos à escuridão povoada de insectos e bichos trovadores, enquanto vou queimando quilómetros de estrada numa cadência acima do permitido, a Antena 2 impinge-me uma cantata de Monteverdi: "tornate, o cari baci"tentando convencer-me que quando a tristeza junta os olhares de dois amantes é porque estão prestes a separar-se. E eu aqui mortinho por chegar a casa.

Falsete

Acordar com música sempre foi para mim uma verdadeira aflição. A música tem vida, tem histórias, tem peripécias em todos os seus recantos e gosta de se me imiscuir nas entranhas, de me revolver o tempo passado e presente, de me precipitar o futuro, de me infectar as veias, de me afectar, de me deixar ali morto por fora mas muito vivo por dentro. Então há momentos, como naquela estrofe "When it's Summer in Siam And the moon is full of rainbows", que são como um fragmento de história que acontece ali naquele segundo, precisamente naquele instante e que por vezes não identifico qual é, porque ali, naquela fracção mínima de tempo, cabem dias e noites, meses e anos, conversas imaginadas, corpos tombados, desejos incontornáveis. Mas depois fica tarde, muito tarde... e já não há margem para mais atrasos. Que magnifico dia está hoje!

sábado, 12 de maio de 2018

Palomar

Numa época em que todos se esforçam por parecer o que não são, o Senhor Impontual, que adquiriu o hábito de aos sábados de manhã passar os olhos pela blogosfera em geral e ler os atrasados em particular, não pode deixar de formular um pensamento, precedido de forte convicção, de que não há-de ser fácil viver incrustado na própria estupidez, flagelando-se, retocando ali e acolá a maquilhagem social que esconde as equimoses da alma, impedindo-se a si mesmo de experimentar o que sente, como que para melhor evitar a decepção de se ver apenas como ele próprio: a náusea que oculta sob um exterior animado, o riso forçado ou a fixação na preservação das suas feições de perpétuo jovem e de todo um simulacro geral de entusiasmo. 
Mas pior ainda há-de ser aceitar as vertigens e os remorsos do espírito, mesmo apresentando-se no instante crucial, convenientemente, diante do abismo como se este fosse insondável - que não é.
O Senhor Impontual tencionava esta manhã fazer um corte e uma rega geral nos relvados circundantes, mas esta noite choveu. Talvez vá dar banho ao cão.  

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Passei a manhã toda a fotografar árvores velhas


Oitenta anos de respirações e rebentamentos de estames, tem que se lhe diga! Exclamo. Como bons e leais servidores da máquina humana, a ONU ou Unesco deveriam condecorar estas árvores, medalha do Grande Mérito, em nome do planeta inteiro, a humanidade reconhecida. Saltaram de um século para o outro sem perjúrio, nem transtorno de maior e contornando toda a espécie de humilhações. Pequenas promessas não cumpridas, amores desfeitos, o olvido. Terão produzido mais lágrimas do que sorrisos, passado mais tempo a sair ilesas das garras da melancolia do que refasteladas em camas de rede ao sol. E nós, aqui e agora, a batermo-nos cheios de volúpia com a matéria humana, o orgulho, a vaidade, o que impele sem descanso a tentar ser aquilo que se não é.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Asseio

Os solitários sabem que a auto-imposição de tarefas tão simples como passar uma hora a esfregar uns sapatos reluzentes, trinta minutos a pentear o cabelo ou uma manhã agarrado ao estojo de blush, demonstra, se alguma dúvida houver, que a fome de companhia ou a sede da solidão se transformam numa angustia física, porque o seu alivio nunca depende do esfomeado ou do sedento mas de outro, de alguém, de um semelhante que ofereça um bocado de amizade, um gole de carinho, uns minutos de silêncio... vá lá, um laivo de tesão.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Coaching

De dentro do tailleur de corte sóbrio sobressai um ar decidido e uma presença de certo modo marcante. Encarna com bastante facilidade e perfeição a personalidade de mulher segura, independente, aventureira e destemida. Impele-se no aproveitamento de todo o seu potencial, monitoriza o seu desempenho, respira e inspira confiança. Até brincou em analogias: «amar nas margens do Douro é muito fácil, difícil é amar à segunda-feira à noite em casa». Indicia um carácter indomável e ao mesmo tempo um sorriso fácil e caloroso. Chega com propósito e facilidade à gargalhada contagiante. Gosta de estar de bem com a vida, mas de forma fulgurante. 
Não fosse aquele detalhe do cachecol do FCP, também ele de fino recorte, atado na asa da carteira e até se teria ultrapassado o facto de ter chegado atrasada. Agora assim...

sábado, 5 de maio de 2018

Lusque-fusque

O mar ao fundo, mais ao fundo ainda o sol cansado da sofreguidão da terra despede-se em queda livre numa longa faixa de carne viva sangrando lenta e distante no horizonte, o ar rarefeito deixa a noite resvalar, um breve momento de quatro olhos que se entrelaçam num milésimo de segundo infinito, um leve toque de dedos sob a mesa de vime envernizado, palavras que se convertem em sussurros, lábios que se confundem entre si. Por ora o que há a fazer é olhar. É olhar e cheirar, que depois, logo mais, numa insónia demorada, lembraremos o resto das nossas vidas.

(Tirei uma fotografia com a Nikon F70 analógica, mas queimou-se. Peço desculpa.) 

A suprema beleza da matemática

Ao invés de os vermos concentrados a treinar e a prepararem-se para carimbar aquilo que se apresenta como mais que certo - que é a conquista do campeonato, vemos um grupo de jogadores de futebol, de chinelos nos pés, entretidos em churrascos no mais profundo desrespeito pela aritmética, pelos ainda concorrentes ao titulo e pelo adversário do próximo jogo que ainda tem as suas próprias pretensões. Às vezes era preciso uma hecatombe. Não direi o dilúvio.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Equilibristas

Pode alguém julgar-se suficientemente armado e capaz para se ajudar a resolver os seus problemas se abdicou do essencial: o sexo, a pele, o que constitui a alma das nossas vidas, onde cada homem e cada mulher perde o equilíbrio? Não percebo!
Se os únicos e verdadeiros segredos das pessoas giram em torno dos seus sexos. Entrepernas e entrecoxas, no extremo sul do coração e do cérebro. A intimidade. É aí que se urdem vilanias e mentiras, o ciume, a paixão, é aí que nos sentimos míseros e grandiosos com um minuto de intervalo. Feridos e deslumbrados. Não percebo!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Semblante

Aquele rosto era uma fortaleza, acudia ao mais imediato, divulgava mensagens da urgência, o decoro, mas permanecia mudo acerca do tormento.
Nada explorando das funduras do seu pensamento, tive vontade de dizer-lhe que tanto se pode sofrer de não encontrar como de perder. Há pessoas que jamais conseguirão encontrar o reconforto, o amor, a beleza, o prazer, um ideal. Encontrar, sereno, o tempo em que vivem. Eis a doença universal que corroí por ser invisível e provocada por nada.
Mas não. Fiquei calado. Também tenho outras caras.