segunda-feira, 19 de outubro de 2020

A máscara e o mascarado

É ridículo ser um ser que foge. Alguém que tenta esquecer, mas que não sabe o que fazer com a recordação. Alguém que se furta e esconde e do seu esconderijo observa e engana, que desconfia, que recorre a miragens, alguém tão incoerente ou tão frágil o suficiente para se entregar aos dias deixando-os passar. Alguém que não sabe como enfrentar a vida e tão estúpido ou tão inconsciente o suficiente para não se sentir derrotado. Alguém a quem não falta a esperança, mas incapaz de a construir por si mesmo, alguém que prefere esperar apesar das incertezas da espera, alguém que confia que se encontrem as soluções sem a sua intervenção. Alguém que sente medo. A quem atemoriza a passagem do tempo, mas que permite que ele decorra vazio. Alguém incapaz de se esquecer de si mesmo, e suficientemente fátuo para se deleitar com a temeridade.

É ridícula esta inata catarse aristotélica da teatralidade da limitação e do renascimento, da mascara e do mascarado.
Mas...
quid faciemus?

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Observatório

Ele, tudo o que desejava era sentir-se um pouco mais próximo e com essa intenção levantou o braço e acariciou-lhe a nuca que o cabelo apanhado com duas trajectórias deixava a descoberto. Ela, deixou-se acariciar, e pouco depois ele culminou a caricia colhendo entre as polpas dos seus dedos o lóbulo da sua orelha esquerda. Notou-se o seu estremecimento pelo eriçar com que a pele do pescoço respondeu. Até aí tinha mantido o olhar baixo, mas então levantou-o sorridente e, por entre o barulho dos talheres das mesas vizinhas, julguei ouvir um ligeiro suspiro de aprovação ou de rubor que aspirava pelo nariz. Que espectáculo comovente o de um corpo a ceder a uma caricia! Surpreende-me a rapidez com que uma caricia persuade. Onde as palavras fracassam basta um toque da pele. Uma caricia significa o que é, busca uma emoção imediata e poucas vezes se presta a ser mal interpretada, mas pode ser cruel se os actos posteriores não acompanharem a calidez que a caricia iniciou.

sábado, 3 de outubro de 2020

Palomar

Neste contingente estado novo, o Senhor Impontual adquiriu um hábito, uma espécie de passatempo favorito para os seus dias de feriado: viajar nas viagens dos outros, conjecturar sobre os seus percursos, os seus destinos, tentar adivinhar o sentido banal de conversas soltas, decifrar aquele sorriso invulgar, desvendar o significado daquela sombra, descortinar um trejeito ténue e insurgente ou o que contém a flexível doçura daquela voz, acompanhar com os olhos umas pernas com um passo de sessenta centímetros, observar uma ou outra alma a perder as rédeas, dar espaço ao esquecimento, mas também à recordação - esse imenso território branco, sentir a textura do silencio enquanto decide para que lado vai dormir.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Quino (1932-2020)

 


Continuaremos sem saber se o mundo é realmente bonito, mas continuaremos seguros que é extenso.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Também já posso deixar de me importar com as coisas



 Acabei de cortar a erva cidreira. Por mim, está tudo bem.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

A finalidade oculta

Qualquer relato tem consequências, e suscitar a hilaridade ou o desprezo no seu destinatário não é a mais grave. Contamos para compreender e para que nos compreendam, contamos por motivos diferentes, mas persegue-nos sempre um propósito, quanto mais não seja o de descarregar o peso. E é aí, sempre na finalidade oculta, onde reside o sentido de cada relato. As palavras e as diferentes peças discursivas que o formam, não têm valor separadamente. A prova disso é que inclusive no relato mais simples é possível encontrar duas verdades que se contradizem ou que às vezes para expressar uma verdade é necessário recorrer à mentira. Nisso não se diferenciam da vida, por isso de pouco servem as palavras se os actos as não corroboram e por isso frequentemente não há só duas verdades simultâneas que contradigam, mas sim uma legião. Nunca mentimos, portanto. Excepto no sentido de que sempre que uma dessas verdades em luta se impõe, nega implicitamente a existência das outras. O nosso problema é termos demasiadas ideias absconsas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Estulto

Fala com segurança, é arrogante, orgulhoso e depreciativo, presume da sua força e acusa, quando pode, os desvalidos. Chora. Pede aplausos aos indolentes. Intimamente não consegue sentir-se aquilo que representa. É o débito, suponho, de quem conhece os ordinários anseios onde todo o mal se origina: não acreditar em si mesmo, ter medo de vaguear mudo e com vergonha, esfumar-se numa névoa de impulsos distintos, tapar os olhos, perder o norte, perder o palco. 
Um verdadeiro idiota. Rodeado de idiotas - como diz o Jumento. E bem.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Outono

Os dias sucederam-se tão rapidamente de um equinócio ao outro. Já nada é novo, já nada no novo mundo é novo. Amanhã, não é uma palavra urgente. Talvez seja uma amostra compassiva de esperança. Outro tempo, outra estrada, outra água. Sol branco, lua triste, noite onde talvez os deuses se encontrem. Tudo embate, reflui ou tomba como matéria retalhada. Não são dias de começo, mas sim dias terminais. Envolvidas no buliçoso silêncio imposto, as pessoas existem sem perceber que permanecem no hoje. Ainda há jacarandás, choupos e oliveiras; claro que há. Não há é amanhã. O amanhã não é visível, tacteável. O amanhã encheu-se das pessoas e as pessoas encheram-se do amanhã. Cheios de uma eterna insuficiência. Digladiaram-se toda a vida, talharam-se de uma só dor.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Das expressões modernas

És uma orelha ambulante, aberta ao rumorejo do mundo, onde os laços rompidos, o isolamento e o medo condenam ao mutismo. Pequenos enclaves onde se desenrolam perspectivas e existências falhadas. És um novo normal. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Das expressões clássicas

Se há coisas que a pandemia podia aclarar era que a liberdade de uns acaba quando começa a dos outros. Mas, não.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Whistleblowers

Esta época não é propicia ao entendimento de valores rudimentares nem à vital aceitação da generosidade. É uma época que manifesta repetidas vezes que, em certas ocasiões, um homem que rouba outro homem é um ladrão, e, em outras, é um cruzado - embora nenhuma guerra seja santa ou cavalheiresca.

(não é um post sobre Rui Pinto)

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Camp (style)


Por estes dias de regresso à velocidade e violência o primeiro estranho aparece-me logo pela manhã, no espelho de pé alto.
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Atentai no polimento irrepreensível dos sapatos tendência retro.

sábado, 5 de setembro de 2020

Pré-época


É lamentável que se misture dois sentimentos tão diversos: o ressentimento, a insatisfação e a névoa que o final de toda a infância convoca. É lamentável, como o é que o erro se tenha perpetuado. O que se passou a seguir não podia ter corrido bem porque estava construído sobre alicerces muito frágeis. 
Pés de chumbo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Eles aí estão...

Estimulando o funcionamento zeloso de uma corte de indivíduos dedicados à cegueira, suspensos do olho frio e do sorriso breve desse homem que nunca se enganara e raramente tivera dúvidas e que sempre convocara Deus como sua testemunha abonatória.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

A resposta que Marcelo quis dar, mas não conseguiu

Não há nada mais humilhante do que ser um assalariado. O teu destino é ser livre. Mas a servidão do assalariado é perversa: dá-te a falsa sensação de que és livre porque ainda vais dispondo de dinheiro para as tuas necessidades mais elementares. Não te queixes. Quem se queixa está a empurrar os seus problemas para os demais. Vai chatear outro!

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Dickinson

Há quem seja fútil de propósito. 
E profundo por mero acaso.

(reconheço-me, mas não me sossega.)

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Marginal



Neste belo fim de tarde de Agosto adivinha-se, embora vagamente, que estes passeios contristados são uma facilidade enfadonha e debilitante para banir sôfregas solidões; fazer uma outra medição do tempo, um outro sentido do lugar. Os caminheiros parecem sobreviventes. Mas impõe-se-lhes a dolorosa ideia de que sobreviveram a algo pouco definido: passaram de lado pela vida, afinal não a sorveram, não a absorveram, não aceitaram os seus riscos, as suas ciladas, os seus perigos, o carácter persuasório dos seus encantos. Sobreviventes de quê, afinal? De um tempo que recusaram, anulando-se? E agora, é a remissão, passeiam-se com voracidade, como quem quer beber o mar, engolir as ruas, comer o mundo que deles se afasta progressivamente.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Um homem...

... que é um vigoroso animal insatisfeito, que pressente que a consciência dos outros homens está adormecida, reclusa numa passividade que não lhes permite, de momento, intentar ideias claras sobre a sua própria singularidade e identidade. Um homem que sabe que todo o ser humano é uma criatura única, irrepetivel e preciosa, com crescente predisposição para o espanto, mas que, todavia, nem sequer resolve a sua própria individualidade, vai agora atentar na insidiosa escalada populista que floresce a céu aberto... é um homem perigoso. Não é? 

sábado, 15 de agosto de 2020

Deusa


Veja-o subir a rua com o pescoço resoluto, a cabeça erguida, embora o tronco ligeiramente curvado; o movimento dos braços dessincronizado, as mãos abertas, à defesa. Vejo-a e parece uma deusa a subir a calçada. Mas, repare-se, uma deusa também altiva e sobranceira, talvez irada com o que em seu redor ocorre, a ira encoberta porém, o olhar apertado, os músculos faciais tensos e compridos, a boca desdenhosa, passos firmes cujo ruído, o silêncio circundante logo absorve. Uma deusa mas occasionatus. Limitada como eu, claro.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Palomar


O Senhor Impontual andou pelo mundo ou por aquilo que se considera ser o mundo, e sabe não haver qualquer tipo de engano: tudo é um curso ininterrupto de sentimentos e de acções consequenciais. O lugar onde o Senhor Impontual se encontra agora - em casa - constituiu alguma excepção, mas não deixa de agudizar inquietações. Como é possível nascermos, vivermos (e morrermos) num mundo assim feito, frágil e instável? Mas nada existe de estoicamente definitivo; obscuros clarões de uma ambígua esperança surgem em grandes paradas citadinas, em ajuntamentos de rua onde se fala de um Estado empenhado na sanidade e nas liberdades individuais dos cidadãos, de estabilidade no trabalho e de tranquilidade nas consciências, quando na realidade o que se vê é um desfile de pessoas num movimento pendular entre a fuga e a nostalgia, como se cada um e todos tivessem o corpo e a alma desgovernados.