sábado, 29 de dezembro de 2018

Balanço do ano civil

Todas as manhãs, na altura em que acordava, o sono pesava fortemente sobre si, quase como uma força física a prende-lo à cama, mas teve de libertar-se dele como de um atacante, e arrastar-se até à casa de banho. A feiura dos dias manifestou-se repetidamente através das janelas, uma fealdade opressiva, a exigir de si uma espécie de resignação, e a deixá-lo com uma vaga sensação de culpa. 
Às vezes era sábado. 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Balanço do ano religioso

Queixou-se todas as noites e sabe Deus que tinha bastantes razões para isso. Nas suas lamentações nocturnas todos os infortúnios se tornaram iguais, por isso conseguiu entrelaçá-los a todos como fios da mesma oração contínua, a pedir a Deus que lhe perdoasse e que tivesse misericórdia, amén.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Epicurismo


Parou de chover, acolhe-me a noite serena. Uma quietude hospitaleira, sem pensamentos, sem sobressaltos, apenas a noite calada e fria. O presente, ou seja, aqui e agora. Um lume que me aquece triunfalmente, e eu, por mim, ávido do livro que aguarda os meus olhos e as minhas silenciosas questiúnculas, não me quero implicado em contrariar minimamente esta efémera felicidade que o mundo vive por estes dias. Nem sequer do mundo que está aqui mesmo ao meu lado.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Palomar

O Senhor Impontual recebeu esta manhã, na volta do correio, um cartão de Natal manuscrito com letra de traço espesso e adornada à direita, e está agora a lê-lo encostado ao parapeito da varanda do seu local de trabalho, de onde vai observando os terraços apinhados com os seus inúmeros vasos para as plantas, pires para gatos, cordas de roupa, antenas de televisão por satélite, algumas cadeiras encostadas e uma série de chaminés já a fumegar. Os cabos eléctricos e telefónicos estendem-se por todas as direcções. No fim da rua, os automóveis param e arrancam nos semáforos a um ritmo alucinante. Na praça central do bairro de fronte, dois catraios correm numa perseguição sem tréguas atrás um do outro. O Senhor Impontual dá por si a recordar a mestria com que ele com a sua bicicleta subia três lanços de escadas e sorri ao pensar o quanto chorava a bola quando chegava aos seus pés.

Os amigos feitos na orla do tempo são diferentes dos outros. Fazem gracejos. Tiram uma história velha da algibeira, dão-lhe uma trinca e oferecem-na aos outros - como uma maçã verde. Aparecem de maneiras diferentes. Mesmo que tenham viajado milhas e milhas, aparecem sem se anunciarem e sem nenhuma explicação. E têm a certeza de que são bem-vindos.Têm a sua maneira própria de decidirem quando se devem referir a qualquer coisa séria. Sempre num momento inesperado - ao entrarem para o carro, com o banco puxado para a frente, ou quando estão a dar a última tacada numa partida de snooker. E são muito meticulosos com os sinais. Com os olhos, rabiscam a mensagem essencial.

O Senhor Impontual ao ler este cartão de Natal sentiu toda a oxitocina da elasticidade do tempo e teve vontade de se meter ao caminho, mas o Senhor Impontual está tão farto de aviões e aeroportos...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Camilo


O mês é Dezembro, a pouco mais de uma semana do Natal.
A gente das cidades pergunta-me em que lugar do mundo florescem, em Dezembro, as árvores nas bouças e montados. Respondo que é no Minho, esse perpétuo jardim do mundo. Onde os falsos poetas, como eu, se engasgam de tanta beleza.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Quarenta natais depois

É impressionante como os impulsos humanos mais ancestrais  a vaidade, o quero que tu te fodas e a ganância  se continuam a agitar permanentemente sob o verniz da sociedade. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Plaza Nueva

É estranho, como o carácter de um espaço publico se modifica quando está vazio, o campanário abandonado, a ópera fechada, a esplanada deserta. No cinema isto é muitas vezes utilizado como pano de fundo de cenas que pretendem assustar ou manipular o espectador. O mesmo acontece com este local onde me encontro agora: os visitantes como eu reduziram-se a apenas alguns, a praça assumiu contornos bastante ominosos. Talvez isso tenha algo a ver com o céu nublado por cima de nós, através do qual ocasionalmente se consegue antever uma pequeníssima nesga de sol, ou talvez às sombras cada vez mais escuras no emaranhado de becos que daqui partem em todas as direcções, mas eu sugiro que é talvez o medo da solidão aquilo que mais os inquieta, o facto de estarem sós, apesar de se encontrarem no coração da cidade.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O Retratista


Voltou da sua sessão de ontem chupado até à ultima gota, como um limão usado, com pedaços de tinta espalhados pelas mãos dando-lhe um aspecto doente, e caiu na cama sem dizer nada. Uma palavra que fosse. É um homem magro que parece ter-se alimentado daquele esquisso, e que, agora, sem ele, está a desaparecer. Até a estrutura óssea que mantém o seu rosto se está desmoronar.
Esta manhã ergueu-se por instantes mirou o espelho da cómoda Luís XIV. Olhou-se por uns segundos arrepiantes, deitou-se para trás novamente, muito rígido, como alguém que estivesse a ser baixado para dentro de um túmulo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O Dono Disto Tudo

Vem de uma sociedade onde, há pouco mais de uma década, mais de mil milhões de pessoas tinham o mesmo corte de cabelo e se vestiam com o mesmo fato azul-acinzentado para reprimir a individualidade de cada um, recordo.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Pintar Dezembro

Vem posar de dois em dois meses. Sempre no inicio do mês, sempre no inicio do dia, sempre a uma terça-feira. Estamos em Dezembro. Sorri, o olhar é agudo, gelado, isso mesmo um olhar gelado, como se, lá dentro, no interior do olhar, houvesse um registo de uma memória coberta de névoa que um vento glaciar faz emergir: um espelho com a devolução de precárias e lacónicas imagens. Nunca um silêncio, porque aquela tropelia de lembranças arrasta-se com gritos lancinantes, suplicas veementes, resignações, uma teia laboriosamente tecida, um meandro, um labirinto.
Pela primeira vez reparo que a sua beleza é assimétrica, que cada metade do seu rosto terá de ter uma atenção separada. O seu perfil visto de lados opostos é diferente, como as deusas tradicionais de duas faces.
Abro subitamente o caderno de esboços, numa folha em branco, tentando não olhar para os desenhos anteriores, e com o lápis de carvão desenho as suas formas. Os contornos são conhecidos e esperados. Posso ser honesto com ela, dentro daqueles contornos encontro novos sinais que o seu espírito mandou imprimir na pele - rugas, vincos e laivos de amargura. Registo todos eles. E, curioso, a sensação que me invade, à medida que a minha mão segue o seu instinto, é de indulgência. Indulgência plenária. 
Preciso preparar uma mistura equilibrada entre o vermelho e o azul. Púrpura. Não sei se um magenta ou um anil. Se mais vermelho, se mais azul.  

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Teoria corpuscular

É absolutamente notável o quão teatral a luz feita pelo homem pode ser quando a luz do sol começa a desaparecer! A forma como nos pode afectar emocionalmente, mesmo hoje em dia, em pleno século XXI, em cidades tão grandes e tão luminosas como as nossas, chega a ser ridícula.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Catapulta

Hoje, neste país, mesmo atardadamente, ouve-se centos de vezes o proferir de palavras gratuitas, com destino, mas sem presente, sem passado, sem final, sem sentido. Como se as palavras atiradas pudessem explicar sempre tudo. Excepto o ter-se chegado atrasado, claro.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Sessão da Meia-Noite



"Mónica e o Desejo" - Ingmar Bergman,1953

Com a Miss Smile, porque a admiração tanto advém dos mergulhos no escuro como dos mergulhos na alma. Portanto, uma assinatura sóbria, com letras pequenas e inclinadas e uma pequena laçada, por vezes ridícula, no fim do nome.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Palomar

O Senhor Impontual esteve fora, num desses países com pouco sol e muita noite, e está feliz por ter voltado num fim de tarde magnifico como o de hoje! Enquanto percorria a auto-estrada do aeroporto até casa, o Senhor Impontual veio acompanhado pela lua. A cada mudança de direcção lá se ia escondendo atrás das nuvens, depois lá aparecia de novo no topo dos montes, imponente. Foram cinquenta quilómetros a observar no horizonte uma lua ora fugidia, ora omnipresente e luminosa. De vez em quando o Senhor Impontual ia fazendo um tubo com a mão e encostava-o ao olho e aí ela diminuía de tamanho, mas o seu interior ficava ainda mais encantador - a lua e quase todas as suas crateras.

Em tempos o Senhor Impontual conheceu uma mulher que também fazia com que o seu mundo ficasse agradavelmente mais reduzido, pelo que não tinha necessidade de mais nada para ficar numa felicidade extrema a não ser olhar para ela imersa na banheira com o corpo refractado pela água, ou observa-la enquanto dormia, ou mesmo quando se levantava da cama num gracioso movimento arqueado. Ela era o tipo de mulher que nunca nos cansamos de olhar, pois era reservada e tinha uma vida interior intensa que dava muito que fazer ao Senhor Impontual. Olhar para ela enquanto estava concentrada em alguma coisa - num livro, a fazer uma mala, a atar os atacadores dos ténis - era maravilhoso demais. 

O Senhor Impontual está agora no alpendre, distendido na poltrona de orelhas com os pés sobre o escabelo, a ouvir Sinatra em "fly me to the moon" enquanto toma um copo de vinho tinto e, de repente, sentiu vontade de montar a árvore de Natal. Mas já se sabe, o Senhor Impontual não responde a impulsos subliminares.

O Senhor Impontual teve pena de não poder estar presente na festa do Jazz que acontece todos os anos em Novembro numa cidade que ama muito.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

LH2086 - Seat 6A

"Sabe, as pessoas não imaginam o que significa envelhecer. Um homem não tem nada a perder quando envelhece, desde que não faça um mau negócio com a lei da gravidade. Mas não é isso, sabe. Não é o peso, não são as rugas, não é a falta de cabelo. O problema é que ninguém nos avisou que passaríamos a ter de urinar 5 vezes por noite. Com a sua licença..."

No regresso dos lavabos, mais aliviado, conta-me que vai visitar a filha - que resolveu vir viver para um destes países com pouco sol e muita noite -  e o quanto tinha adorado a mulher, que morreu quando a filha era ainda um bebé. Amava-a completamente, e depois, de repente, o seu pâncreas deixara de funcionar e ele ficou com a criança pequena, como única lembrança dela. À medida que ela foi crescendo, começou a parecer-se estranhamente com a mãe, e ele deu consigo a olhar para ela fixamente, à mesa da ceia, observando aquela rapariga a transformar-se à sua frente, em etapas definidas, numa mulher há muito tempo falecida. Isto acabou por leva-lo à loucura: começou a pensar que ela tinha voltado para ele, e que ele tinha de novo trinta anos e a cortejava...

"Sabe, eu acho que a doença mental é um luxo de que a maioria das pessoas não pode usufruir. Eu pude..."

sábado, 27 de outubro de 2018

Bolsonaros

Acredito que desejem, tão-só, respostas práticas, caminhos e direcções onde o particular ceda vez ao geral. Talvez se odeiem uns aos outros. A miséria possui formas subtis para degradar a lucidez humana. E os aspectos singulares do desespero confundem-se, frequentemente, com o desdém da própria solidariedade colectiva.

Sempre ouvi dizer que uma história começa quando a própria história nos surpreende. Não há-de ser o caso. Mas não é certo.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Questiúncula

As pessoas humildes sabem que são humildes, ou aquilo nem se nota?

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Toucador


Envelhece, mantém-te inteligente, educa os teus filhos para que sejam bons escuteiros e amantes fieis, ensina-os a usar a confiança com prudência, diz-lhe que acreditem, mas não os deixes viver pendurados na esperança, deixa o teu cabelo embranquecer, deixa que as tuas ancas aumentem de volume e ocupem toda a cadeira, deixa que os teus seios fiquem descaídos, permite que quem te ama não seja o último. Não fiques só. Não faz nada bem viver só. Regenera. Regenera-te em cores abstémias.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Sessão da Meia-Noite


      Viver - Akira Kurosawa, 1952

Com a Alexandra G

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Orçamento do Estado

Tenho evitado pensar sobre a razão que me despertou para isso. Nunca dei grande atenção à politica; se há uma coisa a que não sou obrigado, enquanto criador é, sem dúvida, saber em profundidade o que o governo está a fazer. Para mim é muito mais interessante saber como transformar um pensamento numa imagem e depois a imagem em paredes que serão fortalezas e janelas largas que serão monóculos virados para o mundo, saber como pintar o céu sem usar o azul, erigir um jardim sem usar o verde, ali e acolá obter intencionalmente uma falsa perspectiva... alheando-me dos arrebatamentos insignificantes da política remodelada à força. Todavia, algo me está a incomodar, um ruído de angustia sob os sons nocturnos, vozes de burro a jogarem às escondidas, vozes de burros que se abeiram dos céus. Dos céus sem azul...

domingo, 14 de outubro de 2018

Espuma da noite

Centenas de pássaros a passear pela praia, gaivotas velhas, gaivotas novas de penugem cinzenta e luzidia, parece um salão de baile. No mar jaz todo o ruído do mundo.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Consensus omnium

Eis que num crepúsculo de um fim de tarde de Outono, a campainha toca e ao portão que se abre instantaneamente assoma uma Senhora loura, soberba, elegante. Podia vir de Moscovo, Estocolmo ou mesmo de Berlim. Mas vinha com certeza de Hollywood. O peito desnudado, as ancas amplas, a pele bronzeada, o cabelo louro e os olhos muito azuis. Sapatos de salto alto, um vestido que pertencia a outro mundo. Uma aparição triunfal e uma voz, uma voz incomparável. Em lugar de boa tarde ou boa noite, anunciou dramaticamente: tem de ver a situação do seu Fiodor que não pára de tentar pular a cerca e isso está a amedrontar a minha Mimi. Olhe que se algo acontecer, vou processa-lo e pedir uma indemnização. Veja lá o que se passa com o seu canídeo, vizinho.
Assenti e descansei a Senhora loura, elegante, soberba, assoberbada. As coisas estão como estão.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Lapalissada

Quando um crime sexual é divulgado na comunicação social mata o inocente, o culpado e o público.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Pintar Outubro

Vem posar de dois em dois meses. Sempre no inicio do mês, sempre no inicio do dia, sempre a uma quinta-feira. Desta vez estamos em Outubro, as flores caídas dos jacarandás jazem brilhantes sobre o pavimento do lado de fora, apanho-as às mãos-cheias e espalho-as sobre o Chesterfield de veludo alemão onde ela se irá sentar, ou deitar, ou recostar, para o retrato. Magnificas pétalas roxas, fazei-a sentir-se como uma rainha.
Antes de ela chegar, misturo sempre as cores da minha paleta. Conheço a tonalidade da sua pele, a cor do seu cabelo, o cor de rosa da meia-lua nas unhas. Depois de ela chegar ajusto levemente as cores, de acordo com o seu aspecto: se vier de tempos maus o tom de pele precisa de mais amarelo; se estiver com ar benevolente, acrescento uma camada de azul ao branco dos olhos.
Começo com um esboço a carvão do seu rosto. Na primeira vez que posou, favoreci-a na tela. Hoje sou implacável nos pormenores e registo cada ruga ou mudança de cor, ou sinal oblongo. Observo-lhe o busto. Um dilúvio de entusiasmo pela sua pele, aquela seiva provocante que anima os meus olhos, faz-me antever horas sublimes. Mas acabo por esquivar a minha própria rendição, prolongar o tempo em volta de um corpo nunca vazio, dar-lhe vontade de se mostrar nu, fazê-lo encontrar em si essa volúpia. Para que consiga deleitar-se com esse exercício é preciso que goste de si mesma, do seu corpo, mas também da personalidade que sofre dentro dele. A imagem das formas fragmentadas que a compõem, aquele esboço reconstituído na sua mente, é aquilo que terei de retocar para desvanecer aquele olhar severo. Não tenho talento.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Cardápio

Estamos em Outubro e nisto dos Weblogs que ainda por aí proliferam, o que aborrece, seguramente, não é a falta de imaginação, não é a panóplia de interesses apresentados, nem sequer a confusão entre o real, que é somente aquilo que os dias trazem e a imaginação, que mais não é que aquilo que os dias não trazem. O que aborrece, verdadeiramente, é a fria lubricidade daquilo que é anunciado como interessante.

O que nos vai valendo é a qualidade do obituário!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

sábado, 29 de setembro de 2018

Opróbrio

Diz-me o Nobel da Literatura 2018 - eleito por mim -, num dos capítulos do tal livrinho que me faltava na prateleira, que muitas vezes estamos zangados connosco próprios ao ponto de aproveitarmos todas as ocasiões para nos sentirmos culpados. Mas que isso não é grave. E que sentirmo-nos culpados ou não tudo se resume a isto: a vida é uma luta de todos contra todos. É sabido. Mas numa sociedade mais ou menos civilizada, as pessoas não podem atirar-se umas contra as outras assim que se veem. Em vez disso, tentam lançar sobre o o outro o opróbrio da culpabilidade. Ganhará aquele que conseguir tornar o outro culpado. Perderá quem confessar o seu erro.

Também Agustina, em Antes do Degelo, defendia a tese dolorosa e empolgante que é o facto do homem, a quem o factor culpa é necessário para provar a sua humanidade, não poder viver senão com o sacrifício do seu destino.

Já eu e o Cão de pelo pardo que estamos aqui sentados em frente a este mar de putas, liso como a curva do céu da mesma cor, observando as ondas que deixam escorregar, lentamente, as suas línguas estreitas ao longo do areal, fervilhando e desaparecendo pela areia pálida e saibrosa, não entramos nessas lutas. Mas temos pena dos rapazes que esperam desesperadamente pela ondas ascendentes. Estamos em crer que as pranchas vão ficar espetadas na areia a tarde toda. Mas não estaremos cá para ver. Bora Fiodor, bora.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Alinhamento dos astros

Tenho estado a ler a "Festa da insignificância", um pequeno livro em falta na minha prateleira onde o autor me brinda, na pele de quatro indivíduos na Paris destes tempos novos, com uma fabulosa narrativa sobre um mundo desprovido de sentido onde a insignificância é a essência da existência humana. Magnifico, como sempre, na sátira e na escrita clara e directa. 
Este ano, decorrente do processo em curso que recai sobre Jean-Claude Arnault, não haverá oficialmente prémio Nobel da Literatura. Embora tenha sido criada uma qualquer academia, não oficial, para atribuir o prémio a titulo alternativo, não se esperam novidades. Em 2019, depois da conclusão do processo Arnault, a eleição volta às mãos da academia sueca. E novidades não haverá, certamente.
Por isso, eu que durante anos a fio apostei em Milan Kundera e nunca tive o prazer de o ver galardoado, aproveito este excepcional hiato para lhe atribuir desde já o Prémio Nobel da Literatura 2018. 
Até que enfim.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Solidão

Tanta solidão! Tanta solidão mal resolvida! A solidão mal resolvida é uma experiência corrosiva. A pessoa fica ali no rodopio do seu próprio furacão, cercado pelas visões de um mundo exterior, sempre centrifugo, do qual lhe chegam fragmentos voláteis, vozes distorcidas, rostos passageiros. Dito por outras palavras, a solidão mal resolvida assemelha-se a um parque de diversões onde todos os aparelhos estão em funcionamento: o carrossel, os carrinhos de choque, a roda gigante, os patos nos carris do tiro ao alvo, os vagões da montanha russa, mas não há viv'alma. O algodão doce, em redor na máquina, a inchar até inundar o parque.

sábado, 22 de setembro de 2018

Serralves em festa

 Robert Mapplethorpe

Quando uns lábios, uma boca, por instantes enlouquecidos, encontram no alto de uns seios aquela cálida temperatura e a doce recepção da carne abundante de sabor e aroma bem definidos e, inquietos, deslizam ultrapassando a superfície levemente abobadada do ventre sem ali descansar, caindo entre as coxas redondas, descobrindo num instante vertiginoso o suave declive em que o sexo encrespado e oculto se avoluma palpitante, transformando-se num órgão vital, não há nada nem ninguém que o possa interditar

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Projecto de alvenaria

Às vezes, no exercício de funções, confrontado com memórias descritivas, fico a pensar que, do mesmo modo, a edificação humana deveria ter sido iniciada, desde os primórdios, com um anteprojecto que desse outra atenção aos gabaritos, que tivesse outro cuidado com a armadura estrutural das pessoas, outra interligação das sapatas, outro baldrame, outra argamassa, um pé-direito mais folgado, outra prumada, um reboco mais fino, mais material refractário, zarcão.

Ou então, privar os humanos do dote da ambição. O que, provavelmente, faria de mim um desempregado.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Angina pectoris

É uma atitude de coragem, e estúpida, uma coisa bela, desperdiçar o coração por amor.

domingo, 16 de setembro de 2018

Fotodepilação

De olhos semicerrados, não conseguia ver o seu rosto corado e excitado. Contudo, já se deixara arrastar pelo seu próprio e arrebatado desejo. Esboçou um aceno de cabeça com um orgulhoso sorriso. A mão moveu-se ao longo das suas costas e correu o fecho. O vestido deslizou-lhe pelos ombros e ancas. Um puxão e um torcer de corpo e caiu-lhe aos pés. Como era seu hábito não usava soutien. Mantinha-se de costas e a espinha desenhava qual linha direita traçada por um pincel. Com um só movimento, as mãos colocaram-se na cintura e fizeram deslizar as cuecas pelas nádegas. Ergueu uma perna e quando lhe caíram aos pés, atirou as sandálias e a roupa para o lado -- tudo isto no espaço de um movimento. Virou-se bruscamente e enfrentou a audiência. À semelhança de um raio laser, o meu olhar fixou-se nos seios, deslizou até ao umbigo, às partes privadas, apreendendo todo o corpo. Os seios eram suaves, redondos e firmes, de mamilos orgulhosamente erectos. Os pêlos púbicos seguiam a curva da coxa, convergindo no recôndito sob o estômago, à semelhança dos veios de uma folha que se unem no caule. 
Deixei-me levar pelo som queixoso do saxofone de Coleman Hawkins em time on my hands. Aquela peça lenta parecia expressar a pungência da sua vida. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Nocturno em C menor, opus póstumo

Esta foi a noite serena e auspiciosa. Única. E quando mais uma aurora boreal estava a desaparecer e um cardume de peixes prateados voltou a nadar rumo às profundezas do oceano, abraçou-me de olhos semicerrados, com os lábios húmidos e vermelhos. Escapei-me dos seus braços e dobrei um dos joelhos diante dela. Ergui-lhe a saia, beijei-lhe as pernas, as coxas e, em seguida, premi a cabeça contra a suave saliência triangular. As minhas mãos agarraram as dela. Ondas de um azul-celeste formaram-se com uma cadência irregular. Sentimo-nos lançados no espaço por um baloiço celestial...

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Imanências

Das "Memorias de Raul Brandão", Volume 3
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... e depois este arranhar suave, mas profundo, da pena no velino, deixa-me tão inerme. Oh, como eu me sinto indefeso! Oh, imanências de Setembro!

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Acontece sempre nos primeiros dias de Setembro

... começa com um fervilhar de rins ao inicio da tarde, uma substância amorfa que se instala nas entranhas como um incómodo parasita, um veneno adocicado que tem a cor opaca do vazio e a espessura remota da névoa, um desejo inconsciente que embriaga a lucidez, uma chama, um acorde indefinido, uma sonolência mais pesada, a repulsa e simultaneamente a fascinação. Um teclado, uma tentação, uns gatafunhos e a pergunta sacramental. Um suspiro, uma fraqueza. Só espero que não me levem à risca.

domingo, 2 de setembro de 2018

Palomar

Noite tropical. Em cima da mesa baixa de teka envernizada uma garrafa e dois copos desirmanados. Ao fundo um veado, com os chifres prateados pelo luar, desce até ao rio para beber água. Na água ouve-se o chapinhar de um peixe com insónias. O Senhor Impontual deixa-se sentado e quieto a olhar o céu, estrelado como nunca, e não tem duvidas nenhumas - o mundo é redondo, mas só há dois tipo de pessoas: as que fogem e as que colam.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sessão da Meia-Noite

"Viagem a Tóquio" - Yasujiro Ozu, 1953

(na magnífica companhia da Tétisq)

Grand Hotel (epílogo)




Quanto àquela noite, bem leitor lascivo, a minha mãe pode estar a ler isto e ficará corada, portanto, tenho de abrir um biombo por cima desta página. Imaginem o que quiserem, por detrás dele: um ar nevoeirento a cobrir um corpo com gotas de suor, a recordação de um perfume com notas de sândalo, a prece de um homem atendida, um sussurro de um nome amado, belíssimo, uma exaltação de andorinhas, e por aí fora.
O resto já imaginei contei abaixo. O toucador está pronto a ser pintado, como podeis verificar a cima.

domingo, 26 de agosto de 2018

Grand Hotel III

Reparei nos casais que desciam a escadaria preparados para o jantar, os homens talhados de negro, as mulheres cobertas de folhos. Ocorreu-me que aquela era a cena em que, nos romances góticos, o corcunda rapta a sua donzela. Ali, com o candelabro, o brilho da lampada do pilar das escadas em caracol, os diamantes e a carne nua. Aquela era a hora do monstro. Depois de a ter seguido, de a ter enganado, estava agora pronto a raptá-la - sem nada para oferecer-lhe em troca, para além da sua vida envenenada, dos seus carnudos e sedentos lábios.
Não demorou mais de um segundo. Trazia um vestido branco, comprido, salpicado de bordados e renda, as mangas, meros véus que cobriam os seus braços, uma espécie de cinto prateado que descia abaixo da cintura, e uma longa cauda, caída atrás dela pelas escadas abaixo numa espiral cintilante; um vestido que se ajustava a ela como um delicado gérmen agarrado à sua pálida semente. Não usava nada em volta do pescoço, absolutamente nada, apenas a sua pele clara, ondulando como uma pequena vaga, quando engolia e olhava para baixo com a grandiosidade de uma mulher sem preocupações de juventude, sem confusões nem piscar de olhos, uma mulher de paixões, ali, naquela escadaria, com uma mão pousada no corrimão. Havia estrelas no seu cabelo...

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Grand Hotel II

...se fosse eu, talvez sentado naquela cadeira branca de vime, iria pegar-lhe na mão, ouvi-la suspirar, e ficar a saber que ela me queria muito. Ou no quarto dela, quando estivesse sentada à janela a admirar os relvados e os pinheirais que se estendiam até à orla do oceano, quando ela abrisse a janela da varanda de par em par para deixar entrar no quarto o ar salgado e começasse a inspirá-lo às lufadas. Era ali que ia acontecer. Num daqueles quartos, eu iria tomar o rosto dela nas minhas mãos e beijá-la em ambas as faces, depois iria sussurrar-lhe ao ouvido enquanto desapertava os botões do seu casaco, da blusa, os atilhos do corpete e de todas as desnecessárias e ridículas peças de vestuário que usavam as mulheres daquela época. Soltaria todas as esperanças que havia conservado num frasco e guardado na prateleira mais alta da minha vida. Mas aquela tarefa requeria um espírito delicado que a minha vida raramente tinha exigido. Como diria a minha avó: pode levar-se uma rosa a fazer quase tudo, até a crescer dentro de uma jarra de vidro, mas temos de o fazer com carinho, e era assim que eu teria de proceder. Ouvi-la sorrir e cortejá-la, tratá-la não como uma deusa, mas como uma mulher inteligente, demasiado esperta para se deixar levar pela lisonja. Tinha de ser cuidadoso. Teria de ir introduzindo muito lentamente os espinhos da minha vida nas espirais do seu coração. Uma mulher complexa tem de ser amada de uma forma mais elaborada.

Mas... não estou certo se seria exactamente assim. Vou mas é polir o toucador consola que hoje está um pouco mais fresco.

Torga


A vida podia ser só isto o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre este areal coberto de um sol intenso, um manto ondulado de água azul resplandecente, de onde esvoaça uma gaivota solitária, e mais dois seres silenciosos, escancarados, pasmados, a olhar e a ouvir o arrulhar das ondas. Mas não é. Temos pena. Eu e o Cão de pêlo pardo.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Grand Hotel

Ainda agora, enquanto me entretinha vagarosamente no restauro de um toucador muito antigo - que há-de vir a ser uma consola -,  olhava uma fotografia e a sua história também ela muito antiga e fico com a firme impressão de que o Grand Hotel mantém exactamente o mesmo aspecto de há quase um século atrás; a longa avenida de ciprestes que corta o sol em tiras, o próprio edifício do hotel semelhante a um enorme navio, cravejado de portadas verdes e varandas, os mastros com bandeiras esvoaçantes, o terraço com cadeiras de vime, onde certamente à noite uma orquestra, com fatos de corte militar em azul e branco tocava valsas, a sucessão alternada de guarda-sois que resguarda as mesas, as pessoas, pavões e estátuas oxidadas. Estou certo que noutros tempos os cronistas sociais escrevinhavam artigos, enquanto apreciavam as chegadas das celebridades, e que donas de bordel passavam por baronesas e empregadinhas do comércio, por debutantes.
Na piscina, certamente, existia uma rede que separava os homens das senhoras, uma espécie de véu, e era aí que raparigas e rapazes solteiros se conheciam. Ou nas varandas, muito tranquilamente, enquanto bebiam limonadas e observavam as tias velhas solteironas a chilrearem enquanto jogavam croquet. Imagino a calma estudada destas personagens de outrora. Que sitio mais engraçado para duas pessoas se apaixonarem!

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Conflagração


Eis senão que o meu olhar pousou na paisagem de fundo, um infinito horizonte sem problemas latentes, sem nenhum dos acidentes causados pela humanidade. Não isento de fogo, é certo. Mas sem terror, sem tragédias, sem inépcias, sem culpas. Sem desculpas...

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Refrigério

Aquela poderia ter sido a hora mágica das nossas vidas - a única altura em que poderíamos ter sido exactamente aquilo que gostaríamos de ser - e os deuses tinham-nos trazido, naquele momento dourado, o prémio mais desejado: descobrimos uma pequena loja de chã, onde entrámos, um lugar com paredes forradas a papel de veludo azul índigo com relevo e com cortinas corridas até meio, de modo que os vultos das pessoas que passavam na rua formavam uma espécie de jogo de sombras balinês no tecido amarelo dos maples onde estávamos sentados, silenciosos, cara a cara, olhos nos olhos, espectro no espectro...

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

E tu Impontual, o que vês da tua janela?

Caiu a canícula sobre a cidade, os citadinos caminham mais rígidos que de costume, ombros direitos, passo rectilíneo, carregam o peso de uma fatalidade impensável. As guitarras eléctricas calaram-se, está-se agora em Mozart e na sua perfeição tensa que atapeta as ruas. Instalou-se uma névoa que emite vagas calorificas muito acima do suportável. As horas invadiram a atmosfera para aí se desfiarem mais lentamente, pousando as suas voltas sobre as pedras ardentes dos edifícios. Gotas de suor, gargantas secas, a canícula estendeu os seus tentáculos sobre a cidade e impôs a sua disciplina. Gestos comedidos. Respirações contidas. Vive-se em poupança. Crânios abrasados, entre-pernas suados, desejos amolecidos, os corpos reagem e crepitam brandos. Enquanto os pensamentos se revestem de gelo e de cristais glaciares, cada qual segue como um ladrão de sombras, rasando paredes sem sol.

Mas, ainda há quem trabalhe em Agosto.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Prólogo

São cada vez menos os olhos que vêem o que ainda está escondido. Olhos infelizes, haveis visto de menos! A verdade é que as linhas começam a ter um traçado pouco definido, os extremos tornam-se flexíveis; as cores esbatem-se e como que flutuam, estão a ficar esbranquiçadas à luz e a perder a sua vitalidade. A sua camada fina distende-se. A Natureza fala, chora, pede socorro. O Homem é frágil e débil, à semelhança da civilização que erigiu em seu redor. Calado ainda avança decisões na noite escura das perguntas sem resposta. Estas parecem ser as características do retrato do mundo futuro. Está em marcha o processo de óxido-redução e da transformação dos haletos. Para já fica assim. Ainda se respira. Quem vier a seguir que ponha a máscara. Ou que feche a porta. Dou graças por não estar presente para ver essa fotografia.

Hoje arranca a volta a Portugal em bicicleta. Esta tarde temos um curto prólogo, seguem-se doze longas etapas. Abri os olhos.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Questiúncula

Mas... é só na politica que o Mal, a obra tenaz de Lucifer, consiste em fazer cair a sombra sobre homens e mulheres? numa imagem estável de si próprios, mas não necessariamente mortífera visto não estar cristalizada num eu definitivo que os impeça de ser outras figuras de si próprios, progredindo? Mas... e só na politica que, do pavor da cova dos falhados ao pavor encolhido, dilatado e novamente encolhido, adormecido mas não muito, à estratégia da esquiva, à retractilidade, à solução de reserva, ao coeficiente de segurança é um ápice? 

Sessão da Meia-Noite

Morte em Veneza - Luchino Visconti, 1971

 Ao ar livre, com a Teresa

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Telegrama para a Grécia

Querido Kostas,
Saber-te desesperado com a ideia terrivel de que as cinzas que tombam dos céus sãos os restos mortais dos vossos entes queridas, é para nós uma reminiscência recente muito forte. Por isso, é na mais elementar das solidariedades que te dirijo estas parcas palavras de conforto: ajudem-se uns aos outros, não exasperem à procura de culpados. 
Daqui por um ano vão perceber que a culpa afinal é vossa, e só vossa.
Ajudem-se uns aos outros.

Um abraço. Sincero.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Palomar

O Senhor Impontual, acompanhado do Senhor Palomar, aguarda ansiosamente a passagem do Senhor da Boliiinhas.


Logo, logo... nos debruçaremos sobre a observação das ondas e dos aspectos complexos que concorrem para a sua formação. A seu tempo obrigaremos os nossos pálidos olhares a percorrer a praia com imparcial objectividade, de modo a que, mal o peito nu de uma mulher entre no nosso campo visual, se note uma descontinuidade, um desvio, um mero sobressalto na paisagem em torno daquelas dunas aureoladas.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Herberto



Nem sempre me incendeiam o acordar do sol atrás dos montes e a lua despenhada nos confins dos mares.

- Todavia, tu sempre me incendeias.

Mas de certo sou eu, numa ardente confusão de água e terra.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Motel

Não digamos nada. Não vale a pena... mesmo na privacidade do nosso quarto, quando estivermos deitados, submergidos na luz listada, preta e branca, da meia-noite. É preciso muita imaginação para reconhecermos as mágoas das pessoas que consideramos felizes. As suas verdadeiras batalhas travam-se, como as das estrelas, num qualquer reino de luz, imperceptível para o olhar humano. Seria um feito demasiado da nossa inteligência adivinhar o que se passa no coração de outra pessoa.  Fodamo-nos. Apenas e só.

sábado, 14 de julho de 2018

Inadimplência

Miss Jayne Mansfield nas bancadas dos HotSpurs, anos 60

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Palomar


De todo o movimento do Sol na esfera celeste, há um momento que o Senhor Impontual gosta de apreciar com particular delicadeza - que é aquele momento em que o Sol diz para a Lua: vem. 
O Senhor Impontual, por breves instantes, consegue colocar-se no lugar do Astro-Rei e saborear a delicia de saber-se compreendido, trespassado por um olhar inteligente que parece evitar-nos obstinadamente. Aquela observação recheada de subentendidos a dizer, sem impor, toda a sua verdade, sem que tenhamos que delinear quaisquer subtilezas. Eis o mais embriagador de todos os prazeres: ser adivinhado, observado escrupulosamente, reconstituído a partir de deduções e por fim reconhecido na sua sinuosa complexidade. 
O Senhor Impontual gosta de acreditar que um dia a Terra travará de súbito naquele preciso momento e por ali ficará, estática, durante um instante mais alongado.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Agapanthus


As pessoas insistem continuamente em exigirem-nos a tarefa, hercúlea, da  consciência absoluta de tudo o que se passa com o mundo à nossa volta, esquecendo que isso seria o mesmo que ouvir o sol nascer, o coração dos pássaros bater, a sombra das flores crescer. E que isso nem sempre é possível.

sábado, 7 de julho de 2018

Sessão da Meia-Noite


Uma Mulher Sob Influência - John Cassavetes, 1974

(Com a flor)

terça-feira, 3 de julho de 2018

Palomar

O Senhor Impontual, um indefectível do mundo em movimento, de há uns tempos a esta parte quando abre o feed do blogger não pode deixar de se questionar sobre o que é feito daquela blogosfera que engordava, fazia regimes, deixava crescer a barba, apanhava aviões para todo o lado, comprava bugigangas que lhe enchia a casa, lia livros que lhe enchia o ego, escrevia histórias que lhe enchia a vida. Que a cada episódio, o critico, salientava a violência das imagens imiscuídas nas palavras, das relações homens-mulheres, da sua misoginia, da sua misantropia. Aquela blogosfera que mostrava o cão. Aquela blogosfera em que o sangue jorrava, os golpes ferviam, a traição vencia as melhores amizades, a carnificina parecia inevitável, os corpos explodiam em mil pedaços, o mundo sofria um abalo a cada publicação. Que é feito?

Não achando resposta tão imediata como gostaria o Senhor Impontual decide que, doravante, fará como se estivesse sozinho na blogolãndia, para ver como roda o universo apenas puxado por si. O Senhor Impontual ainda acredita que entre ele e o mundo as coisas continuam a ser como são e por isso ainda esperam algo um do outro. Que a vida continuará um campo de observação infinito onde os pormenores recolhidos permitem continuar a viagem dentro de si próprio, esclarecendo horas e infelicidades, mais eficazmente que um qualquer doutor de almas sobre os seus distúrbios.


O Senhor Impontual já acolhe dentro de si uma certa sensação de acalmia. Mas é exactamente a expectativa de saborear esta calma que o torna ansioso. 

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Cesariny


Rejúbilo
Por arder de mansinho junto ao mar
rejúbilo
porque uma coisa é certa: ninguém me ouve
rejúbilo
porque outra é indubitável: eu não oiço ninguém

Rejubilemos

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Perguntem ao Carlos

O ressentimento é uma sopa espessa que se pousa nos lábios, passa pela boca e pelo esófago e vai ancorar-se no estômago. E por ali fica, em ebulição constante ao longo de anos, até regurgitar.

Palomar

Está-se no final do mês de Junho e no ar paira a fragrância do jasmim, do alecrim, da madressilva e das mimosas. Os botões da catalpa rebentam nas árvores, parecendo estrelas, o seu perfume a leite-creme espalha-se delicadamente pelo ar. O Senhor Impontual olha para aquela mulher dentro do seu vestido de linho cor purpura. Olha para ela e pergunta-se como como será a sua roupa interior, pergunta-se como será nua. O linho até uma certa idade acrescenta dez anos, depois de uma certa idade retira dez anos. O Senhor Impontual, numa rápida incursão mental pelo seu closet, afere que não tem uma única peça de linho. Mas não vê nisso inquietação de maior.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Às vezes acontece a vida acontecer

Num cair de noite assim, sob esta luz de vermelho ao mar, puxá-la para mim, abraçá-la fortemente, acariciar-lhe o cabelo e, peito com peito, capturar o pulsar do seu sangue, deixar-me levar no percurso ondulante da sua circulação. A lua, ali de guarda, pendente acima da linha do horizonte, como um sopro de ar suspenso. Um ambiente crepuscular interminável a fazer acreditar na elasticidade do tempo. Ele a espalhar-se diante de nós, e o amanhã a tornar-se tão vago que deve estar mesmo muito longe. Depois... o tempo retrai-se e faz ricochete, o relógio repica, paira uma luz acinzentada e sopra uma aragem fresca...

Não vos acontece, acontecer?

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Inturgescência


Os aviões sempre exerceram sobre mim um efeito analgésico e euforizante. Talvez em consequência da rarefacção do oxigénio, a não ser que seja o facto de voar a vinte mil pés de altitude que me transmite a inebriante ilusão de me encontrar fora do alcance das contrariedades e das preocupações terrestres. Refastelado no assento, de cabeça apoiada no vidro da janela, apalpo-me por dentro e questiono-me. Aos vinte anos, não temos coração. Julgamos que temos; estamos convencidos de que fomos amaldiçoados com uma coisa sagrada, inchada, que estremece ao ouvir os nomes que adoramos, mas não é um coração, porque ainda que abdique de tudo no mundo - da mente, do corpo, do futuro, até da ultima hora solitária que tem - não se sacrifica a si próprio. Não é um coração, aos vinte anos, é uma rainha gorda que murmura na sua colmeia.
Quando é que nos nasce o coração? Quinze, vinte anos anos depois de precisarmos dele?

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Questiúncula

Sabendo-se da sua natureza egocêntrica, dos seus narcisismos desastrados que à medida que as suas obsessões aumentam se tornam mais febris, o que é que aquelas duas criaturas, lá no meio daquela testilha sem história, terão para dizer uma à outra? 

Carrego eu ou carregas tu?

Com cumprimentos ao Cão Grande


Nestes tempos em que o existencialismo anacrónico ousa pisar o terreno do romantismo desacreditado, Fiódor - o cão de pêlo pardo - não acredita no amor convencional, mas também ainda não encontrou um substituto para esse sentimento. É a metafísica paradoxal. Deixa, porém, um aviso intemporal:  cuidado com os subterrâneos dos desejos, que as suas janelas estão sempre escancaradas.

sábado, 9 de junho de 2018

Insónia

Bocarra aberta que aspira o vivente para depois expelir miséria. Sorvedouro. Tudo ali se transforma, o ar, o ruído, o grito. Tudo se apresenta, tudo se exalta. Indiferente, sem pudor, caminha sobre a sombra dos transeuntes como se tudo se espezinhasse. Lugar sem meio, migrante, flutuante ao sabor dos terminais do pensamento, ao sabor das horas e picos de reflexão, campo aberto onde se extasiam fragmentos. Queixume ininterrupto. Às vezes noite-encontro, os amantes nas suas caçadas esgueiram-se pelos becos sem saída, caricias dóceis, o esperma jorra, o prazer é tão curto.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Quando vier a Primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira *


* Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa - Poemas Inconjuntos

terça-feira, 5 de junho de 2018

Polinómio

O facto de termos a mais baixa taxa de natalidade da Europa, representada numa média de 1,3 nascimentos por mulher, aliado ao facto de estarmos a produzir uma média diária de lixo na ordem dos 1,3 kgs per capita, o que representa uma dramática subida da produção anual, poderá deixar-nos de certo modo optimistas, quanto ao futuro, perante o facto de metade dos alunos do primeiro ciclo não conseguir saltar à corda ou efectuar uma cambalhota simples com saída para a frente e a outra metade não saber apontar Portugal num mapa?

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Graciosa


Enquanto lá fora o céu, baixo, esvaziava o seu ventre, os seus excrementos, num aguaceiro amarelo de enxofre vulcânico semelhante à urina, invadiu-a um desejo cheio de fervilhantes impaciências. Os excessos daquela natureza oceânica que crepitava sob gotas grossas, fazia eco aos seus enormes apetites. Indiferente a tudo, Graciosa sentia agora não só a febre de comer aquele homem, aquela fome indescritível que por vezes sentem as mulheres inconclusas, mas também a de ouvir, inteirar-se das lavas internas, daquilo que assoma para fundar uma pessoa, ir de uma alma a outra, partilhar o dom da oferenda reciproca da fala, da escuta e... da absolvição.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Aventar



"Assim eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência."

__Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas

terça-feira, 29 de maio de 2018

Decidi vós. Decidi bem.

Pode ser um instante. O fim do sofrimento. Uma réstia de dignidade. O derradeiro êxtase num momento de esplendor luminoso, como deve sentir um homem que salta da ponta de uma falésia indo cair sobre rochas longínquas, almofadadas. Ou como um criminoso, atirado para a eternidade pelo empurrão do carrasco, voando sobre o silêncio da multidão vendo tudo, compreendendo tudo, uma luz intensa, um ar calmo, depois o vento a quebrar as ondas sobre a cabeça, a luz aumentando, o corpo a pairar, lá em cima, e a zumbir de dormência. O espírito passeando-se em grandes latitudes. A vida trespassada pelo morno de um último arrepio. Uma hesitação. Uma recusa em voltar. Um renovado calafrio a cristalizar o momento final. O descanso eterno.

Mas... não sei. Tenho dúvidas. Muitas dúvidas. Decidi vós. Decidi bem.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Impontual também dedica meia-dúzia de linhas à incontornável temática dos primeiros amores

Fatigados por um dia inteiro, sentir perfeitamente que aquela ideia nos proporciona uma onda de prazer, não deixando de ser embaraçosa, mas ainda assim deixarmo-nos levar totalmente por essa emoção ambivalente. À nossa volta a paisagem luminosa a desaparecer no crepúsculo. Já mordiscados pelas sombras azuis, sob um céu ainda suspenso, onde se aglomeram algumas nuvens de cor purpura prestes a apagar-se na noite inquieta, não sabermos como ignorar aquilo, cuja beleza conquistada à força da vontade era a própria expressão das nossas expectativas. Pensarmos que ainda há quem saiba amar os outros enquanto outros não possuem, nesse particular, qualquer talento especial, e que isso também faz parte das coisas ocultas que ainda não sabíamos que sabíamos.

sábado, 26 de maio de 2018

You'll Never Walk Alone

Que o destino tenha sempre aquela singular preferência pela repetição. Não sei se é o destino ou a natureza. A vossa natureza. Mas deve ser por aí que se explica a curiosa persistência no ontem: o passado a voltar sempre como presente. Quantas e quantas vezes como futuro. Assim seja mais logo à noite.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

De Ingres a Pomar, num ápice

Pele branca e resplandecente de mulher deitada em sofá de tecido aveludado. O silêncio quebrado pelo som da sua respiração suave e compassada. Devagar, em movimentos brandos, deixar os dedos deslizar pelas suas costas, contornando os ombros, descendo pela linha da coluna até às nádegas arredondadas de odalisca, onde pousar os lábios em beijos repetidos até senti-la estremecer. Vê-la voltar-se, devagar, ainda entorpecida pelo sono e sorrir. Excitado pelo corpo nu e quente, beija-la na boca, sofregamente, as mãos à solta pelas curvas dos seios, pelo baixo-ventre, entre as coxas, acariciando, esfregando, penetrando…

Ela

Entre um “nunca” e um “quem sabe”, via sempre um fio de esperança. Era aí que se apegava. Com devoção. Como faz a jibóia ao abraçar a sua presa. E ainda hoje, já depois do tempo, não quer deixá-lo ir até que os seus lábios moribundos lhe sussurrem ao ouvido: “quero-te”.

Evocação

"Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso - estão com sorte." 

Philip Roth, in "Pastoral Americana"

terça-feira, 22 de maio de 2018

São as flores do meu jardim

Naturalmente, detalhar arbitragens intimas e obscuras deixará a quem não nos conhece a sensação de que somos, no mínimo, estranhos; mas não somos mais que os homens e as mulheres que, do Porto a Sidney, ziguezagueiam todos os dias entre os seus receios. Os seres humanos são assim, hábeis em dissimular as restrições invisíveis que criam, a calar os precipícios irreais que o seu espírito doente lhes faz ver, de tal forma estão convencidos de que existem as impossibilidades em que acreditam. Nesse aspecto, sou uma pessoa vulgar, penetrada por demências não inferiores àquelas que dominam a espécie no seu conjunto. E depois?

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Locução

"Burro"!
Não há palavra como esta para se vociferar para dentro. "Burro". Que sonoridade!
Provoca uma implosão interna dos sentidos, depois induz um sono profundo e restaurador. Não tem contra-indicações. Não deixa ressaca. Embora não elimine a causa da insónia. "Burro". Que palavrão!

Património

Perdeu-se hoje, talvez, a maior reserva moral deste país. 
António Arnaut (1936-2018).

sábado, 19 de maio de 2018

Palomar

O Senhor Impontual, homem impaciente e pouco dado a este tipo de acontecimentos, não pode deixar de indagar sobre a importante temática que envolve o casamento do Valete britânico.
Mas não lhe basta indagar por indagar, fruir da beleza envolvente, da azafama televisiva  que assaltou o mundo e todo o seu glamour. É necessário compreender os aspectos complexos que concorrem para que assim seja. Se não fosse esta sua impaciência por alcançar conclusões definitivas, o tomar conhecimento destes eventos seria para o Senhor Impontual um exercício muito repousante e poderia, inclusive, salvá-lo da neurose que é estar retido em casa com uma forte constipação à conta de uma magnifica aragem marítima que tomou a noite passada. Agora assim, talvez depois da sesta o Senhor Impontual volte a terras de sua majestade - desta vez a Wembley.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Não olvideis a recuperação da espada*

A mente a vibrar - uma corda -, as palavras, tal como as ideias, a ressoar entre si, harmonizando-se, amplificando-se, desunindo-se. Velocidade, tempo real, tudo pulula de toda a parte no único fito, não confessado, de tentar o desprendimento: já não ser, já não fazer parte, aniquilar, aniquilar-se, experimentar ainda uma vez e outra os corpos, a sua resistência, ir à beira do abismo, admirá-lo e, como se a terra estivesse a cessar de existir, lançar-se nele para saber uma e outra vez, quiçá uma derradeira vez, o que será um fim em beleza. Acolhendo-o, cadáver irremissível. Recolhendo-a, baça e ímpia.

* claramente baseado numa ordem de uma capitã de mar e terra.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Não sei se já tinha dito isto?

Ter um tipo a presidente de um clube grande, como é o Sporting, mais fanático que o mais boçal dos adeptos é um perigo à solta.

Acho que já. Já de certeza. Absoluta.

sábado, 12 de maio de 2018

Palomar

Numa época em que todos se esforçam por parecer o que não são, o Senhor Impontual, que adquiriu o hábito de aos sábados de manhã passar os olhos pela blogosfera em geral e ler os atrasados em particular, não pode deixar de formular um pensamento, precedido de forte convicção, de que não há-de ser fácil viver incrustado na própria estupidez, flagelando-se, retocando ali e acolá a maquilhagem social que esconde as equimoses da alma, impedindo-se a si mesmo de experimentar o que sente, como que para melhor evitar a decepção de se ver apenas como ele próprio: a náusea que oculta sob um exterior animado, o riso forçado ou a fixação na preservação das suas feições de perpétuo jovem e de todo um simulacro geral de entusiasmo. 
Mas pior ainda há-de ser aceitar as vertigens e os remorsos do espírito, mesmo apresentando-se no instante crucial, convenientemente, diante do abismo como se este fosse insondável - que não é.
O Senhor Impontual tencionava esta manhã fazer um corte e uma rega geral nos relvados circundantes, mas esta noite choveu. Talvez vá dar banho ao cão.  

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Passei a manhã toda a fotografar árvores velhas


Oitenta anos de respirações e rebentamentos de estames, tem que se lhe diga! Exclamo. Como bons e leais servidores da máquina humana, a ONU ou Unesco deveriam condecorar estas árvores, medalha do Grande Mérito, em nome do planeta inteiro, a humanidade reconhecida. Saltaram de um século para o outro sem perjúrio, nem transtorno de maior e contornando toda a espécie de humilhações. Pequenas promessas não cumpridas, amores desfeitos, o olvido. Terão produzido mais lágrimas do que sorrisos, passado mais tempo a sair ilesas das garras da melancolia do que refasteladas em camas de rede ao sol. E nós, aqui e agora, a batermo-nos cheios de volúpia com a matéria humana, o orgulho, a vaidade, o que impele sem descanso a tentar ser aquilo que se não é.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Asseio

Os solitários sabem que a auto-imposição de tarefas tão simples como passar uma hora a esfregar uns sapatos reluzentes, trinta minutos a pentear o cabelo ou uma manhã agarrado ao estojo de blush, demonstra, se alguma dúvida houver, que a fome de companhia ou a sede da solidão se transformam numa angustia física, porque o seu alivio nunca depende do esfomeado ou do sedento mas de outro, de alguém, de um semelhante que ofereça um bocado de amizade, um gole de carinho, uns minutos de silêncio... vá lá, um laivo de tesão.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Coaching

De dentro do tailleur de corte sóbrio sobressai um ar decidido e uma presença de certo modo marcante. Encarna com bastante facilidade e perfeição a personalidade de mulher segura, independente, aventureira e destemida. Impele-se no aproveitamento de todo o seu potencial, monitoriza o seu desempenho, respira e inspira confiança. Até brincou em analogias: «amar nas margens do Douro é muito fácil, difícil é amar à segunda-feira à noite em casa». Indicia um carácter indomável e ao mesmo tempo um sorriso fácil e caloroso. Chega com propósito e facilidade à gargalhada contagiante. Gosta de estar de bem com a vida, mas de forma fulgurante. 
Não fosse aquele detalhe do cachecol do FCP, também ele de fino recorte, atado na asa da carteira e até se teria ultrapassado o facto de ter chegado atrasada. Agora assim...

sábado, 5 de maio de 2018

Lusque-fusque

O mar ao fundo, mais ao fundo ainda o sol cansado da sofreguidão da terra despede-se em queda livre numa longa faixa de carne viva sangrando lenta e distante no horizonte, o ar rarefeito deixa a noite resvalar, um breve momento de quatro olhos que se entrelaçam num milésimo de segundo infinito, um leve toque de dedos sob a mesa de vime envernizado, palavras que se convertem em sussurros, lábios que se confundem entre si. Por ora o que há a fazer é olhar. É olhar e cheirar, que depois, logo mais, numa insónia demorada, lembraremos o resto das nossas vidas.

(Tirei uma fotografia com a Nikon F70 analógica, mas queimou-se. Peço desculpa.) 

A suprema beleza da matemática

Ao invés de os vermos concentrados a treinar e a prepararem-se para carimbar aquilo que se apresenta como mais que certo - que é a conquista do campeonato, vemos um grupo de jogadores de futebol, de chinelos nos pés, entretidos em churrascos no mais profundo desrespeito pela aritmética, pelos ainda concorrentes ao titulo e pelo adversário do próximo jogo que ainda tem as suas próprias pretensões. Às vezes era preciso uma hecatombe. Não direi o dilúvio.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Equilibristas

Pode alguém julgar-se suficientemente armado e capaz para se ajudar a resolver os seus problemas se abdicou do essencial: o sexo, a pele, o que constitui a alma das nossas vidas, onde cada homem e cada mulher perde o equilíbrio? Não percebo!
Se os únicos e verdadeiros segredos das pessoas giram em torno dos seus sexos. Entrepernas e entrecoxas, no extremo sul do coração e do cérebro. A intimidade. É aí que se urdem vilanias e mentiras, o ciume, a paixão, é aí que nos sentimos míseros e grandiosos com um minuto de intervalo. Feridos e deslumbrados. Não percebo!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Semblante

Aquele rosto era uma fortaleza, acudia ao mais imediato, divulgava mensagens da urgência, o decoro, mas permanecia mudo acerca do tormento.
Nada explorando das funduras do seu pensamento, tive vontade de dizer-lhe que tanto se pode sofrer de não encontrar como de perder. Há pessoas que jamais conseguirão encontrar o reconforto, o amor, a beleza, o prazer, um ideal. Encontrar, sereno, o tempo em que vivem. Eis a doença universal que corroí por ser invisível e provocada por nada.
Mas não. Fiquei calado. Também tenho outras caras.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Polícia poético

Estou sentado na esplanada olhando o horizonte marinho enquanto degusto uma cerveja artesanal. Duas mesas ao lado, dois jovens alunos do 12º ano, desgostosos, enxovalham em dose dupla a obra do grande poeta que lhes tem sido dado a conhecer nas aulas de língua portuguesa. Ao ouvir estes miúdos, desapontados, tenho vontade de fazer umas visitas agrestes a alguns professores, bom dia sou da polícia poética, o senhor é acusado de ter introduzido nas cabeças juvenis de miúdos de dezassete anos a sua mediocridade, a sua incompetência para levar a amar qualquer poema, pois disseca-os até ao osso, explica-os até os reduzir a uma casca vazia, sem sabor, nem sentido, palavras justapostas desprovidas de sonoridades e de magia. Está, por isso, preso por atentado contra a poesia pura, crime contra Pessoa, violação e violências racionalizantes sobre adolescentes de menos de dezassete anos.
Visualizo perfeitamente estas cenas, as algemas, a fisionomia desfigurada daqueles a quem nenhumas contas foram alguma vez pedidas...

Perscruto de novo o horizonte marinho, agora mais sombrio, dou mais um trago na magnifica cerveja de cor rubi, constato o sabor intenso a cevada, assim como lhe noto o lúpulo da melhor proveniência.

terça-feira, 24 de abril de 2018

1985

Nunca tinha sido beijado. E não tinha nenhuma ideia, enquanto adolescente, de que alguma vez iria ser tocado ou amado por uma mulher. Não estava preparado para as exigências do próprio corpo; as revistas da colecção Gina tinham-lhe ensinado o que era o quê, mas não o que poderia sentir, e tudo aconteceu mais depressa do que a sua mente lenta poderia imaginar. A partir do momento em que ela lhe pegou no braço, debaixo daquelas árvores, moveu-se em dúvidas - a sua simples presença ali significava que estava interessada -, e ele, carregado de dúvidas, não conseguia acompanhar as mãos e os beijos dela e os seus pequenos murmúrios que pareciam pássaros dentro dos seus ouvidos. Não conseguia aguentar o calor sob a sua pele, ou o arranhar das suas unhas enquanto lhe desapertava os botões da camisa, e ficou despido diante da tarde. Depois, o corpo, aquela massa pálida, atordoou a mente, envolveu-a em folhas oblongas e dependurou-a num galho para que o corpo ficasse livre de ir tratar dos seus assuntos...

sábado, 21 de abril de 2018

Shakespeare


Há algo de velado no final de tarde dos dias cinzentos que é indubitavelmente shakespeariano, não acham? Algo acerca de estar no meio das árvores, como Arden. Pergunto-me, absurdamente, se essa sensação ainda é concebível. Pergunto-me se as outras pessoas também ficarão à entrada das suas portas, estáticas e alienadas, a olhar para as árvores com aquela sensação cómica de estarem apaixonadas. De certo não.