terça-feira, 29 de maio de 2018

Decidi vós. Decidi bem.

Pode ser um instante. O fim do sofrimento. Uma réstia de dignidade. O derradeiro êxtase num momento de esplendor luminoso, como deve sentir um homem que salta da ponta de uma falésia indo cair sobre rochas longínquas, almofadadas. Ou como um criminoso, atirado para a eternidade pelo empurrão do carrasco, voando sobre o silêncio da multidão vendo tudo, compreendendo tudo, uma luz intensa, um ar calmo, depois o vento a quebrar as ondas sobre a cabeça, a luz aumentando, o corpo a pairar, lá em cima, e a zumbir de dormência. O espírito passeando-se em grandes latitudes. A vida trespassada pelo morno de um último arrepio. Uma hesitação. Uma recusa em voltar. Um renovado calafrio a cristalizar o momento final. O descanso eterno.

Mas... não sei. Tenho dúvidas. Muitas dúvidas. Decidi vós. Decidi bem.

24 comentários:

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    1. esta dúvida recorrente e recalcitrante é terrível

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  2. Também tenho dúvidas... Mas li algures algo sobre a soberania individual e atrever-me-ia a dizer:
    -Decidi vós por vós próprios assim como eu decidirei por mim. Não passo procuração para decidirem por mim, não tenho nem quero procuração para decidir por vós!

    Fortíssimo Abraço :)

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    1. Meu caro, não me referia propriamente à autonomia da decisão própria, mas à duvida que me assalta ao tentar fazer uma (impossível) dicotomia da situação quando não há nada de mais pessoal e intimo do que este tema da eutanásia.

      Grande abraço.

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    2. Eu percebi :)

      Daí eu dizer que também as tenho, mas creio que este é um tema que cai na esfera daquilo que é a soberania individual. Neste ponto, não acredito que Estado algum tenha o direito de legislar ou proibir seja o que for. Quanto muito, o estado deverá regular, para não haver situações dúbias.
      Mas coloco nesta situação tudo o que tem a ver com a soberania individual, seja a Eutanásia, estupefacientes, prostituição.
      O estado só deve ter direito de interferir na minha vida quando as minhas decisões interferem na vida dos outros de forma negativa. Se as minhas decisões tiverem um impacto nulo ou positivo na vida de terceiros, o estado não é soberano sobre mim. Se o Estado tem direito a legislar a minha vida, então isso quer dizer que eu lhe pertenço! Se eu lhe pertenço não há liberdade nem democracia!

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    3. Ainda bem que o interpelei, pois acaba de tocar naquilo que é o ponto fundamental nesta delicada situação:"este é um tema que cai na esfera daquilo que é a soberania individual. Neste ponto, não acredito que Estado algum tenha o direito de legislar ou proibir seja o que for. Quanto muito, o estado deverá regular, para não haver situações dúbias."

      Colocada então a mão na ferida, surge a duvida essencial, e quanto a mim perigosa pela sua sempre latente subjectividade, que é como vai o estado legislar e especialmente regular? Dai eu dizer no post, embora de forma abstracta: decidam vocês, decidam bem. Com todos os receios que a mais que possivel politização do assunto me suscita.

      Mais um abraço e obrigado por ter vindo deixar opinião propositada e essencial.

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    4. Bem, pelos vistos, infelizmente, são dúvidas que se dissipam, uma vez que os nossos supostos representantes (supostos porque não faço a mais pequena ideia de quem é que me representa directamente, porque se soubesse era caso para lhe pedir batatinhas...), icluindo o mais conservador dos partidos da assembleia, o PCP, chumbaram a questão, negando dessa forma qualquer discussão que pudesse haver acerca de como a regulação deveria ser feita, bem como limitando mais uma vez a nossa soberania enquanto indivíduos (se bem que no caso do PCP isso não é de todo uma novidade), e forçando-nos a acatar as suas decisões - o que no fundo é também já um costume e mais uma demonstração de que vivemos numa liberdade artificial e numa democracia falida!

      Mas já ouvi por aí falar em recolhas de assinaturas para um referendo... Se bem que o legislador não deveria regular-se pela vontade de maiorias quando algo diz respeito à liberdade e consciência de cada um!

      Esclarecendo a minha posição, eu não sou a favor nem contra a Eutanásia. Nunca passei por uma situação onde a questão se levantasse, portanto a minha opinião a favor rege-se simplesmente pelo preservar da liberdade individual.

      Acho este chumbo um ataque a essa mesma liberdade individual e um recado político simples: Nós não pertencemos a nós, pertencemos ao estado. A ser assim, não vivemos em democracia e liberdade, como os políticos tanto gostam de afirmar. Somos escravos do estado, porque lhe pertencemos!

      Se calhar está é na altura de repensarmos o que é a liberdade e a democracia que temos, senão corremos o risco de ficar sem ambas...

      Mas, como é óbvio, isto é apenas um ponto de vista pessoal :)

      Forte abraço

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  3. Eu!
    Eu decido.
    Não aceito ser número de uma roleta porque, ainda tenha um fígado em bom estado, um coração que bate regularmente ou dois rins operacionais (e isto pode acontecer).
    Ou porque tenha uns trocos no banco.
    Ou porque os governos achem que estou a esbanjar recursos (que já paguei por anos a fio)

    Não concebo ninguém, a decidir por mim.
    Não concebo a ideia de decidir pelo outro.

    Decido, ser eu a decidir por mim!

    Bom dia, Impontual

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    1. Mas... a noname para poder decidir por si(se pretender optar pelo lado mais extremo) tem que ter uma legislação do seu lado. Por ora o que decidiria?

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    2. Por acaso alguém legislou para que eu nascesse?
      Então, porque têm que legislar a vida que me pertence?

      A vida é minha, eu decidirei por escrito, se no gozo pleno das minhas faculdades mentais, comprovadas. Caso contrário, criem-se serviços especializados que garantam um fim de vida com dignidade, mas... NUNCA que outro decida por mim, em circunstância alguma.

      E mesmo fazendo valer meu direito, ainda assim, terei que respeitar o direito do médico se escusar, por ética, a fazê-lo. Caramba é um assunto dificílimo, que cada um deverá pensar, por si e para si.

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    3. Claro que sim, noname. A vida é sua. A vida é de cada um.
      A Eutanásia não é um clube de futebol, um partido político, ou uma religião. A eutanásia é uma decisão individual que todos esperamos não querer tomar. Mas um dia, se esse dia chegar, teremos toda a liberdade do mundo para nesse dia decidir acabar.
      Mas para que o exercício dessa liberdade seja possível é necessário legislar, se não corre-se o risco de se ficar eternamente, ali, a pensar por si e para si...

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  4. Ainda que eu tivesse a faculdade de me expressar tão bem, quanto o Impontual o faz, exporia as minhas dúvidas e receios tal qual li no texto acima.
    Mas, há que decidir, não é? Espero que a decisão seja a melhor.

    Se um dia a minha vida se resumir a um vegetar doloroso, quero sentir esse êxtase luminoso, de saltar de uma falésia, indo adormecer, sem dor, sobre essas rochas almofadas. Esta é a minha posição.
    Mas tenho muito medo da incúria do ser humano, Impontual, muito medo...

    Um abraço, I.

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    1. Percebo todos os seus receios, que são da mesma índole dos meus e de muitas outras pessoas. Que a legislação sirva para isso mesmo: dar liberdade de escolha, mas... que essa liberdade de escolha não fique refém de acções perversas do sistema.

      Isto uma vez que nem sempre é possível cumprir-se a profecia de Vergilio: ""vir a morte e levar-nos, e não fazermos falta a ninguém, nem a nós. Que outra vida mais perfeita?".

      Como vai, Janita?

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    2. Estou a ir em modo stand by, Impontual.

      Obrigada.

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  5. O problema, aqui, é que existe muita gente que não quer deixar-nos decidir. Por nós. Quando decidir bem quando toca a ser eu a decidir o que quero para a minha vida, é ser a favor. A favor da dignidade de morrer quando acho que vida é tudo menos aquilo.

    (para quem já teve de assistir à fase terminal de alguém de quem se gosta muito, neste caso o pilar da nossa vida, como eu já assisti, devo dizer que nos marca para sempre, muda-nos para sempre, viver, a partir daí é feito de uma forma completamente diferente, e viver passa por saber que se algum dia estivermos num lugar semelhante, não se quer estar ali por muito tempo, talvez se queira adormecer, se adormecer significar ter finalmente paz)
    ...

    Tenha uma boa tarde, caro Impontual.

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    1. "O problema, aqui, é que existe muita gente que não quer deixar-nos decidir."

      MM, pego na sua afirmação porque penso que a discussão e respectiva legislação sobre a Eutanásia perde muito ao centrar-se numa batalha de doutrinas(basicamente de índole politica) esgrimidas, por vezes, num cenário de absoluto facciosismo. E isso... não parecendo um debate sério aumenta as duvidas em quem as tem: a maioria da população portuguesa.

      Obrigado, por ter vindo.

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  6. Também não sei... concordo que se possa morrer com dignidade no entanto seria incapaz de decidir isso por outrém....

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    1. ... porém não se pode sonegar a outrem o direito de tomar a sua própria decisão.

      (este assunto é tão difícil!)

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  7. Em tempo teci a minha opinião sobre essa matéria, e sou a favor da despenalização.

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  8. Sou a favor dessa "réstia de dignidade". Como não passou, venha o referendo.
    Abraço.

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    1. Já não esperava voltar ao assunto.
      Não creio que o referendo seja a melhor via.

      Abraço, Teresa.

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  9. já tive uma opinião muito vincada para o não.
    mas depois de ter vivido por perto algumas situações baixou-se-me o sim como um manto, do céu.

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